Créditos: Divulgação
22-06-2026 às 13h18
Sérgio Augusto Vicente*
Desde sábado, 20 de junho, a população brasileira tem ouvido e lido bastante essa palavra. A maioria, suponho, pela primeira vez. “Hackearam” o sistema da Defesa Civil e emitiram um falso alerta: MISANTROPIA! Literalmente, um palavrão, com o qual já havia me deparado, pela primeira vez, por volta do ano 2012/2013. Está certo que nem sempre o ditado “a primeira vez a gente nunca esquece” se aplica a todas as instâncias da vida. Mas, nesse caso em particular, não esqueci mesmo! Além do mais, as circunstâncias desse primeiro encontro foram para lá de especiais. Se você, leitor, está curioso, não pare por aqui. Continue, por obséquio!
Foi um encontro fortuito, quando iniciava minha experiência profissional no Museu Mariano Procópio. Entre os documentos históricos que começava a manusear, deparei-me com algumas cartas de Carlos Drummond de Andrade para o amigo e artista plástico João Guimarães Vieira, na qual o poeta dizia: “[…] a verdade é que todo fim de ano é triste em si mesmo, no seu exagero de alegria imposta, de felicidade com data prevista, que anula toda emoção pessoal! Em mim, a melancolia de Natal e Ano-Bom é um sentimento que vai derivando para a misantropia”.
Como de praxe, recorri ao dicionário para desvendar o significado. Lá estava escrito algo do tipo: “ódio, antipatia, desconfiança ou desprezo geral pela espécie humana, pelo comportamento humano ou pela natureza humana”. Tudo a ver com a confissão que o poeta itabirano, tão conhecido pela sua forma “gauche” de enxergar a vida, fizera ao amigo. Sua reflexão se conecta com o sentimento de inconformismo com as desigualdades, as injustiças e as atrocidades humanas que, para ele, não podiam ser silenciadas ou esquecidas em meio à euforia das festas que marcam a passagem de um ano para o outro.
Como as palavras são mais facilmente memorizadas quando elas se preenchem de memórias afetivas, não deu outra: mantive-a em um lugar muito especial da minha “nuvem biológica”. Mas aonde eu quero chegar com essa história toda?
O fato é que eu e minha amiga historiadora, Priscila Boscato, acabamos de escrever um texto sobre essas cartas drummondianas. Texto que acaba de ser publicado nesse domingo, 21 de junho, na coluna “Diário de Minas 160 anos: um tributo a Carlos Drummond de Andrade”, em que citamos exatamente o trecho em que o poeta menciona a famigerada palavra.
No ato da escrita, confesso que fiquei na dúvida se devíamos explicar o significado desse vocábulo. Optamos por deixá-lo em aberto, para que o leitor inferisse o significado ou fizesse uma rápida busca no Google. Mas não foi preciso: na véspera do texto ir ao ar, a ação dos “hackers” fez o “palavrão” chegar aos televisores e celulares dos brasileiros. No Jornal Nacional, o jornalista explicou-a com todas as letras. Nas redes sociais, a influenciadora Cíntia Chagas, que se popularizou divulgando as regras da norma culta da Língua Portuguesa, ironizou: “Fui eu quem emitiu o sinal. Foi uma estratégia para ampliar o seu vocabulário. Agradeça-me!”. No site da Rádio Itatiaia, também figura a mensagem: “Misantropia – o que é a palavra citada em alerta extremo falso da Defesa Civil?”. No site do Guia do Estudante, da editora Abril, não tardou sair uma matéria a respeito. Vai que cai no Enem!… E, como brasileiro carnavaliza tudo, não faltaram os engraçadinhos para fazer piadinhas infames com a “misantropia”. Aposto que, em alguma rua ou roda de amigos do país, alguém tenha soltado o clássico: “O que é isso?! É de comer?!”.
Não tenho dúvidas: a palavra, que andava arquivada, engavetada e mofando nos dicionários, nos livros e nos escritos dos amantes das letras, ganhou um empurrãozinho daqueles para cair na boca do povo, em pleno ano de eleição, em que o sentimento de misantropia dos não alienados anda aflorado. Motivos não faltam para me “disparar o gatilho” de misantropo: a Copa do Mundo é um deles, com seus fanáticos torcedores, muitos dos quais segurando a bandeira verde e amarela enquanto lambem as botas de Trump.
Mas de uma coisa tenho certeza. Paradoxalmente, a má intenção de um “hacker” pavimentou o caminho para que os leitores da coluna não se assustassem com o palavrão. Depois do susto e da repercussão da véspera, já estão todos atentos, familiarizados e preparados para lê-lo pela pena de um “anjo torto”, inconformado com a torturante situação desse “mundo vasto mundo”, habitado por tanta gente que só interage com o universo e com as tecnologias pra degradá-lo e torná-lo, a cada dia, mais insuportável.
Gostaria de conhecer um pouco sobre as inéditas cartas drummondianas, mencionadas acima? Então, clique no link a seguir: <https://diariodeminas.com.br/drummond-guima-correspondencia-amizade-e-festas-de-fim-de-ano/>

