Créditos: Divulgação
21-06-2026 às 10h26
Priscila da Costa Pinheiro Boscato*
Sérgio Augusto Vicente**
O ano de 1960 mal começara. No seu melhor estilo “gauche” de enxergar a vida, Carlos Drummond de Andrade respondia a um dos cartões de boas festas recebidos no final do ano anterior: “[…] a verdade é que todo fim de ano é triste em si mesmo, no seu exagero de alegria imposta, de felicidade com data prevista, que anula toda emoção pessoal! Em mim, a melancolia de Natal e Ano-Bom é um sentimento que vai derivando para a misantropia”.
Tal reflexão se mostra muito coerente com um dos mais famosos poemas de Drummond, com o qual você, leitor(a), muito provavelmente já se deparou entre as inúmeras mensagens de fim de ano, trocadas com amigos e familiares. Em “Receita de Ano Novo”, publicado mais de uma década depois da resposta acima citada, o itabirano vai na contramão do senso comum, que busca em rituais, listas e promessas superficiais e fantasiosas expectativas para o ano vindouro. Acreditando que mudanças reais e mais profundas são construídas de dentro para fora, como um processo, e não através de um passe de mágica, o poeta atribui aos sujeitos a responsabilidade pela conquista do “novo ano” almejado.
Para fins de aprofundamento dessa temática, a coleção a que pertence a carta acima citada pode se revelar muito pertinente. Trata-se de uma coleção que integra o Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG) e que se constituiu de 33 cartas e cartões manuscritos por Drummond, entre os anos de 1953 e 1986, em resposta a um de seus amigos: o artista plástico João Guimarães Vieira (1920-1996). Mais conhecido como Guima, este costumava presentear os mais próximos com pinturas, desenhos e colagens autorais em forma de cartão de Natal e Ano Novo. Drummond tinha o hábito de respondê-los em verso e prosa – inclusive, através de pequenos poemas inspirados nas representações visuais recebidas.
O artista plástico e o poeta se conheceram na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), no período em que ambos lá atuavam: este, como servidor público; aquele, desenvolvendo trabalhos de pesquisa e pintura em museus vinculados ao “Patrimônio Histórico”. Para além desse contato institucional, a aproximação entre os dois teria sido facilitada por um amigo em comum: o professor e arquiteto Arthur Arcuri (1913-2010), importante “elo” dos intelectuais e artistas atuantes em Juiz de Fora com representantes do modernismo que eram nacionalmente conhecidos. De acordo com Guima, ganhar a amizade e a simpatia de Drummond foi uma de suas grandes conquistas.
Assim como Drummond, João Guimarães Vieira conciliava sua vida artística com outras funções, inclusive com a de burocrata. Atuou como diretor e redator de jornais e foi funcionário do Banco de Crédito Real de Minas Gerais e do Banco do Brasil – onde, no início da década de 1970, exerceu a direção do Museu, Arquivo Histórico e Biblioteca. Lecionou História da Arte e Fundamentos das Artes Visuais no Centro de Artes da Universidade do Rio de Janeiro e foi chefe do Departamento de Teoria do Teatro da Federação das Escolas Federais do Estado do Rio de Janeiro. Integrou, ainda, o Conselho de Amigos do Museu Mariano Procópio – do qual Arthur Arcuri também fazia parte.
Em Juiz de Fora, na década de 1940, iniciou seus estudos de desenho e pintura com Edson Motta. Assinou pinturas, ilustrações e capas para livros, bem como murais residenciais e públicos, utilizando técnicas variadas. É autor de painéis em diversas cidades, incluindo Juiz de Fora, onde confeccionou um dos mais conhecidos, localizado no antigo Colégio Magister, demolido no início dos anos 2000. Essa obra foi inspirada numa colagem produzida, em dezembro de 1956, para um dos cartões de boas festas e feliz ano novo, enviado ao Arcuri. Este, ao projetar um imóvel na cidade, solicitou-lhe que transpusesse a arte do papel para a parede.

Entre linhas, pinceladas e colagens, imagens figurativas e abstratas chegavam anualmente à residência do poeta Carlos Drummond de Andrade. Todas respondidas através de breves comentários reflexivos – ora despojados, ora um pouco mais solenes –, mas perpassados por certo lirismo, mesmo quando se referia à técnica do artista:

O estilo colorido, leve, minimalista, gracioso, delicado e simples de Guima cativava o poeta, para quem os cartões corrigiam “de certo modo a amargura das ‘festas’”, levando-o a afirmar que, anualmente, contraía uma dívida sentimental com o amigo. Em 1957, chegou até mesmo a confessar que, diante da contemplação da beleza de seus “pinheirinhos de Natal”, era “impossível […] não se impregnar de sentimento natalino”. Nas respostas drummondianas, as obras recebidas não apenas contrabalançavam a melancolia das festas de fim de ano, proporcionando-lhe “gratas alegrias” em forma de arte, como também o levaram a constituir a “mais bela coleção de cartões de boas-festas, a que a minha [sua] lira mofina mal sabe [sabia] retribuir […]”.
Na perspectiva do poeta “gauche”/ “anjo torto”, que tinha certa resistência às solenidades, o autor dos cartões era o “mensageiro-artista do Natal”, que o colocava em contato com um conceito de Amor que deriva muito mais do cotidiano, da natureza e da arte (“amor em formas naturais”) do que propriamente de rituais religiosos típicos desse período do ano. É o que pode ser percebido, por exemplo, nesse trecho de um poema enviado ao Guima:

Nestes outros versos, o eu-lírico, após buscar uma alegria com que pudesse preencher a “mala vazia do final do ano”, certifica-se de que já tinha na mão a “flor do cotidiano”, simbolizada pelo “voo de um pássaro e de uma canção”:

Enquanto a eufórica busca do “extraordinário” embala as festas, regadas a bebidas, comidas, etiquetas e “glamour”, o eu-lírico acaba por encontrar no “ordinário” e nas mais simples manifestações do existir o sublime toque da alegria. Importava ao poeta o respeito ao genuíno espaço para a reflexão e a introspecção, bem como a não interrupção do fluxo espontâneo da vida, com seu eterno jogo de mudanças e permanências, cujo ritmo não se altera mediante a simples contagem regressiva da virada de um ano para o outro.
Na arte e na inspiração intimista do amigo-artista, pareciam estar os ingredientes capazes de mitigar os sentimentos de “melancolia” e “misantropia” que lhe causavam a ruidosa atmosfera de “alegria imposta” e de “felicidade com data prevista”. Não por acaso, em 1980, Drummond lhe deseja que “continue a ser o homem rico de dons e tão simples na sua riqueza espiritual, cuja convivência me honra e estimula.”
Mesmo em meio aos compromissos profissionais que lhe roubavam o tempo da arte, Guima não deixava de criar e enviar seus cartões. Hábito que, de certo modo, não deixou de se transformar em um verdadeiro ritual de final de ano. Um exercício permanente de criatividade e sensibilidade que, se não chegou a constituir uma espécie de “receita de Ano Novo”, consolidou um “pacto epistolar” em que remetente e destinatário se comunicavam usando, cada qual, a sua arte. Talvez, quem sabe, uma maneira empática de compartilhar certos sentimentos de inadequação em relação às convencionais festividades.
Todavia, para além das festas, ambos também se ocupavam de outros assuntos nas cartas. Por ocasião da aposentadoria de Guima, por exemplo, Drummond comenta que o “demônio da criação” ficaria solto em sua casa e faz a seguinte indagação: “quem já fazia tanto de belo e de bom sob a tirania bancária, que não fará, de tempo livre?”. Em outra missiva, Drummond agradece as flores que o amigo lhe enviara após ser acometido por um infarto: “Querido Guima, a moça portadora de flores trouxe uma pura alegria ao coração recém-enfartado.”
Essa foi uma das últimas cartas que o artista recebeu do autor de “A Rosa do Povo”, que veio a falecer em 17 de agosto de 1987. Guima, porém, ainda viveria por quase uma década, guardando consigo as cartas recebidas do itabirano. Antes de morrer, porém, recebeu de Arthur Arcuri, seu confrade no Conselho de Amigos do Museu Mariano Procópio, a sugestão de doá-las a essa instituição. Tal sugestão se concretizou em dezembro de 1996, quando, por ocasião de seu falecimento, a viúva Inah Braga Vieira efetua a doação.
O intermediador do processo, Arthur Arcuri, em exercício no cargo de diretor da instituição desde 1983, incorporava ao acervo do Museu uma coleção bastante representativa de sua própria trajetória. Sendo ele amigo de ambos os correspondentes e um importante “elo” dos juiz-foranos com os modernistas, não é fortuito que tivesse transformado aquele conjunto de cartas e cartões de autoria de Drummond em um “lugar de memória”, num deliberado esforço de perpetuação de lembranças com as quais parecia se identificar profundamente.
O arquiteto foi ainda mais longe: doou para a mesma instituição os cartões que Guima também lhe enviara. Foi dessa forma que conseguimos tomar conhecimento do estilo do artista. Afinal, ainda desconhecemos onde se encontram, caso tenham sobrevivido ao tempo, os cartões que este enviara ao artista das palavras.
Além de formarem uma verdadeira coleção de artes visuais em miniatura, os cartões doados por Arcuri exemplificam o perfil eclético de um equipamento cultural cujo acervo ultrapassa os limites cronológicos e temáticos do Brasil-Império, em que pese o tradicional título de segundo maior museu do país em objetos, publicações, documentos e fotografias alusivos a esse período histórico.
Para saber mais!
FUNDAÇÃO MUSEU MARIANO PROCÓPIO. Coleção João Guimarães Vieira – inventário. Juiz de Fora, 2021. Organização e elaboração por Priscila da Costa Pinheiro Boscato.
GARCIA, Leandro. Cartas que falam: ensaios sobre epistolografia. Belo Horizonte: Relicário, 2023.
MONTEIRO, Salvador; KAZ, Leonel (orgs.).Drummond, frente e verso – Fotobiografia de Carlos Drummond de Andrade. Seleção de textos e introdução de Salvador Monteiro e Leonel Kaz. Rio de Janeiro: Edições Alumbramento; Livroarte Editora, 1989.
Site oficial do escritor Carlos Drummond de Andrade: <https://www.carlosdrummond.com.br/>


