Créditos: Divulgação
02-08-2026 às 08h20
Caio Brandão*
Caio Brandão*
A crônica O Encontro, de minha lavra, recém-publicada e que me parecia delicada, transformou-se em ardilosa armadilha: trouxe para a mesa, sem combinar as regras, os atributos da personalidade — todos juntos, falantes e malcomportados. Sobreviver a si mesmo é um enorme desafio, mas estou preparado.
Enviei o texto à Carmen Purisch, psicóloga e amiga de longa data, na esperança de obter dela uma avaliação técnica sobre os meus achados. Experiente, porém, Carmen não entrou na discussão. Escorregou com elegância, rasgou elogios imerecidos, afagou o meu ego, disse-me que me presentearia com um vinho destilado no Oriente Médio e me mandou dormir. Sábio conselho — de fato, eu precisava.
Mas a minha demanda permaneceu intacta. Eu continuava à procura de um facilitador para a digestão mental — que, ao contrário da gástrica, tem apetite insaciável.
Engolimos diariamente dezenas de desaforos a seco, situações inacabadas, segredos que pesam como feijoada gordurosa e ideias indigestas que insistem em repousar no estômago da alma. Ficamos empachados com o passado constrangedor, o presente mal resolvido e o futuro nebuloso. Para emoldurar o cenário, só falta a cobertura de lona — e é aí que começa o papel do psicólogo, trazendo o laxativo da alma. Foi quando Carmen, prudentemente, esquivou-se.
Frustrado, telefonei para Tito Guimarães, pensador de elite que faz vazar o caos até pela transpiração. Ele já havia lido a crônica e pedia mais emoções. Não era minha intenção prosseguir com aquele encontro temerário entre as criaturas intangíveis que nos moldam, mas Tito venceu.
Foi assim que me permiti — também acossado pelas criaturas — trazer para compor o cenário a figura de Maura Lopes Cançado, escritora de presença notável e arrebatadora em nossa literatura, ainda que de efêmera passagem, em face dos espinhosos caminhos que escolheu trilhar.
Com Maura mantive conexão silenciosa por seis décadas, a contar da data em que a ela fui apresentado por Nair, em nossa casa. Maura trazia consigo dois exemplares do livro O Hospício é Deus, de sua autoria. O biscoito champagne foi servido em porções generosas, e o café, fumegante, exigia respeito.
Permaneci por pouco tempo na sala e me recolhi. Não me recordo da conversa, e foi a única vez em que estive com Maura — sequer me lembro se houve abraço ou aperto de mãos.
Maura e Nair eram amigas e ambas convergiam para o desequilíbrio; do fio da sanidade saltavam de um lado para o outro, em lapsos e intermitências de loucura e genialidade.
No meu caso, ali, naquele lugar e hora, como vim a saber tempos depois, eu era apenas o ativo que não aparecia no balanço — a despeito dos esforços de biógrafos e entendidos em Maura Lopes Cançado. Como cereja do bolo — e isto felizmente não aconteceu —, só faltou a presença de alguém do tipo do padre que levantou voo agarrado a centenas de balões de festa e partiu rumo ao infinito.
Nair, na adolescência, em companhia de outras colegiais, invocava espíritos em rituais cabalísticos no porão do Colégio Sacré-Cœur de Marie, em Ubá, onde estudava, e amedrontava as freiras ao negar a legitimidade dos dogmas da Igreja.
Maura, piloto desde os 14 anos, emancipada pelo casamento e dona do próprio avião, um Paulistinha CAP-4A, de prefixo PP-RXK, fazia voos rasantes sobre as casas da pequena São Gonçalo do Abaeté, até espatifar a aeronave, de propósito, no telhado de uma moradia — quando todos se salvaram, inclusive ela própria.
Tito me olhava daquele jeito esquizofrênico que tão bem performava, como a pedir mais gasolina nessa fogueira — mesmo sabendo que sou bem resolvido comigo mesmo e reticente às opiniões alheias, inclusive quando me são favoráveis. Que o diga a vizinha que tanto me atormentou com a polícia e a justiça, porque eu criava e soltava nos jardins de minha casa um casal de tigres siberianos, que tentava disciplinar com uma vassoura de piaçava. A seu turno, Nair havia sido notícia, em Belo Horizonte, quando mergulhou na Lagoa da Pampulha ao volante de seu carro Austin, importado da Inglaterra e à época novidade nas mãos de uma mulher.
Mas, extravagâncias à parte, e abstraindo-se das atribulações que Maura imprimiu à própria existência, Tito perguntou-me sobre a obra da escritora e a sua profundidade, diante da torpeza de um tema como o hospício, os maus-tratos e demais cominações fora de controle, ao que respondi:
— O assunto, Maura, sempre me foi incômodo. Gosto da zona de conforto em que transito, e o meu pragmatismo não abre espaço para pieguices ou sentimentalismos de ocasião. Maura, a meu ver, tinha o sofrimento como matéria-prima da existência, porque o sofrimento não era apenas uma consequência da doença ou da internação, mas uma condição estruturante de sua identidade.
Sem o drama, sem a crise, vinha o tédio existencial — e o tédio devia assustá-la mais do que a própria loucura. Você vai notar, Tito, que a vida dela tinha uma busca incessante por palco. Ela buscava reconhecimento e atenção, sempre — seja pilotando aviões, frequentando as rodas literárias no Rio de Janeiro ou manipulando médicos e hospitais.
O que torna especial a sua complexidade é que ela tinha consciência dessa dinâmica. Vários autores pontuaram Maura como uma mulher de personalidade profundamente egocêntrica, atormentada por demandas psíquicas reais, mas que fazia do próprio martírio o combustível para ser vista, ouvida e lembrada.
Sobre a qualidade do seu trabalho pouco teria a acrescentar, haja vista Maura ter transitado pelos suplementos literários do Jornal do Brasil e do Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, quando foi aclamada por contemporâneos como Carlos Heitor Cony e Ferreira Gullar, dentre muitos outros intelectuais da época.
— Ademais, Tito, ainda no tocante à pessoa — prossegui —, Maura não estava no hospício para solidarizar-se com os outros, mas para reafirmar a sua própria superioridade e singularidade diante daquele ambiente.
Veja o que ela escreveu: “Não me confundo com essas mulheres que gritam pelos corredores. A loucura delas é vegetal, grotesca, sem nenhuma beleza ou grandeza. A minha loucura é lúcida, é um ato de inteligência. Olho para elas não com piedade, mas com horror estético. Não estou aqui para salvá-las; estou aqui para me salvar delas.”
— Enfim, Tito, não estou julgando Maura, mas apenas anotando algumas passagens que ela própria registrou, que dão conta da sua maneira de ser e de encarar a sua loucura.
Veja o que ela disse sobre manipulação: “Sei exatamente o momento em que devo chorar e o tom de voz que devo usar para que o médico se incline sobre mim com compaixão. O meu sofrimento é a minha única arma neste lugar. Quando percebem que estou sofrendo, eles se curvam, eles prestam atenção, eles me dão o que quero. A minha dor é o meu domínio.”
— Agora, Tito, imagine esse comportamento no ambiente familiar, de cunho rigorosamente manipulador para a obtenção de atenção, carinho, afeição e até de amor — por que não? Maura e Nair eram duas mulheres tóxicas, cujas origens nasciam da inimizade íntima de si mesmas e depois extrapolavam para o seu entorno, a ponto de mesclar verdade com fantasia e vice-versa, num jogo de cores mutantes e sem nome.
Tivesse vivido na companhia delas, ainda que alternando o teto, eu não teria sobrevivido. Felizmente, fui salvo pelo pacto de silêncio entre Maura e Nair, talvez o único diploma de sanidade que registraram em suas turbulentas existências. Ademais, por garantia, casei-me aos 21 anos, e aí foi o início de outras histórias.
Tito, sempre curioso, retrucou:
— Conhecemo-nos há muito tempo e já nos permitimos alguns solavancos. Você vem pavimentando esta narrativa e colocando algodão entre cristais, mas, se me permite, vamos direto ao ponto.
— Certa feita, num bar, você e Adriano Silva conversaram sem reservas sobre o tema. Em dado momento, ele lhe fez uma pergunta direta:
— Qual é o seu parentesco com a Maura?
Ao que você respondeu, sem rodeios:
— A Maura é a minha mãe biológica.
Num relance, voltei àquele bar. Pareceu-me que o rumor do lugar havia desaparecido. As conversas à volta, o tilintar dos copos e o vaivém dos garçons dissolveram-se diante daquela única frase. Mas foi apenas um instante. A vida, indiferente aos abalos íntimos, retomou o seu curso quando Adriano se levantou, abriu os braços, caminhou em minha direção e, sorrindo, disse:
— E você tem orgulho dela!
Não respondi. Não era necessário. Compreendi, naquele momento, que a pergunta de Adriano não era sobre Maura. Era sobre mim. Descobri, enfim, que a tarefa mais difícil consistia em compreender quem eu me tornara diante dela.
Passei sessenta anos tentando entender quem ela havia sido.
Somos todos pacientes de nós mesmos. E, ao que tudo indica, não temos cura.
*Caio Brandão é jornalista e advogado

