Créditos: Divulgação
23-08-2026 às 08h23
Araciara Macedo*
Quando eu tinha entre oito e dez anos, morei no Paredão, um pequeno vilarejo no município de Ferreira Gomes, no interior do Amapá. Mamãe tinha ficado viúva recentemente e, diante da vida que resolveu desabar sobre nós sem pedir licença, tomou uma decisão que, na época, parecia a mais possível: fomos morar com meu avô.
E lá fomos nós.
Éramos pobres. Pobres de verdade. Daqueles que não tinham muita escolha, mas tinham imaginação suficiente para transformar qualquer pedaço de mundo em aventura.
A casa do meu avô ficava praticamente dentro do mato. Era uma vida simples, dura e cheia de limitações. Sobrevivíamos daquilo que a terra e os rios ofereciam: plantações, caça e pesca. Dinheiro era artigo de luxo. Conforto também.
A casa tinha poucos cômodos e apenas um quarto, ocupado pelo meu avô e sua esposa, Dona Ester, uma senhora que, na época, tinha uns 45 anos e um talento especial para criar métodos pedagógicos que jamais seriam aprovados pelo Ministério da Educação.
Nós, o resto da tropa — cinco crianças, mamãe e quem mais coubesse na confusão — dormíamos na sala.
Não havia camas.
Dormíamos em redes, todas protegidas por mosquiteiros, porque os mosquitos do Paredão não estavam para brincadeira. Tenho certeza de que alguns deles já tinham tamanho suficiente para carregar uma criança pequena e levá-la embora.
Mas, para mim, aquilo era o paraíso.
O mato era meu parque de diversões. O rio era uma promessa permanente de aventura. Eu podia explorar, correr, inventar histórias, subir onde não devia e voltar para casa com a aparência de quem tinha sobrevivido a uma expedição na Amazônia — quando, na verdade, tinha apenas passado a tarde brincando.
O único problema daquele paraíso tinha nome: Dona Ester.
Dona Ester possuía uma maneira muito peculiar de educar crianças.
Hoje eu entendo que ela tinha cinco pequenos seres humanos para administrar, uma casa simples, pouco recurso e muita coisa para fazer. Mas, naquela época, eu achava que ela era uma espécie de fiscal-geral da infância.
E havia uma regra sagrada naquela casa.
Às seis horas da manhã, todos tinham que estar de pé.
SEIS HORAS!
Imagine cinco crianças sendo obrigadas a acordar junto com as galinhas para cumprir tarefas que, na nossa opinião, deveriam ser executadas exclusivamente por adultos, funcionários públicos ou pessoas que tivessem cometido crimes muito graves.
Mas não.
Às seis horas, Dona Ester já começava a colocar a casa em ordem.
— Levanta!
E a gente levantava.
Quer dizer, tentava.
Porque sair de uma rede quentinha, protegida por mosquiteiro, enquanto ainda estava escuro e os galos cantavam como se tivessem recebido uma comissão para acabar com o sono da humanidade, era uma violência emocional.
E não bastava levantar.
A primeira obrigação do dia era desatar a rede e dobrar o lençol.
Essa regra era tão séria que, certa manhã, eu cometi o maior erro da minha infância: acordei e deixei minha rede armada.
Foi então que Dona Ester me chamou.
— Araciara!
Só pelo tom, eu já percebi que havia feito alguma coisa errada.
Fui até ela.
— Por que tu não desatou tua rede?
Olhei para a rede.
Olhei para Dona Ester.
Olhei novamente para a rede, como se talvez ela tivesse se desatado sozinha e eu não tivesse percebido.
— Eu ia fazer depois…
Pronto.
Eu tinha dado a resposta errada.
Dona Ester respirou fundo e resolveu não apenas me repreender. Ela decidiu me oferecer uma aula de teologia, espiritualidade, demonologia e organização doméstica — tudo ao mesmo tempo.
— Olha, Araciara — começou ela, com a seriedade de quem estava prestes a revelar um segredo de Estado — quando a gente acorda, a primeira coisa que tem que fazer é desatar a rede e dobrar o lençol.
Eu concordei com a cabeça.
— Porque, se tu não fizer isso, teu anjo da guarda não vai saber que tu acordou.
Aquela informação me deixou confusa.
Como assim o meu anjo da guarda não sabia que eu tinha acordado?
Dona Ester continuou:
— Ele vai ficar ali, sem saber o que fazer. Sem tarefa. E Deus não gosta de anjo parado sem fazer nada. Aí Deus pode mandar ele proteger outra criança.
Nessa altura, eu já estava olhando para a minha rede como se ela fosse uma ameaça direta à minha sobrevivência.
— E tu vai ficar sem proteção!
Meu coração começou a bater diferente.
Mas Dona Ester ainda não tinha terminado.
— Eu conheci uma garotinha que fazia isso. A mãe mandava ela levantar, desatar a rede e arrumar as coisas. Mas ela não obedecia.
Eu já sabia que aquela história não ia terminar bem.
— Um dia, o anjo da guarda dela foi embora.
Meu Deus.
— E, sem o anjo da guarda…
Dona Ester fez uma pausa dramática.
Ela sabia fazer suspense.
— …o demônio se aproximou dela.
Pronto.
Eu, com oito ou nove anos, praticamente já estava fazendo meu testamento.
Dona Ester prosseguiu dizendo que a tal garotinha começou a definhar. Foi ficando magra, estranha, assustadora. Aos poucos, segundo ela, a menina começou a se transformar.
— Virou uma diabinha!
Eu queria correr.
Mas para onde?
Estávamos no meio do mato. E, na minha imaginação, naquele momento, provavelmente havia demônios escondidos atrás de cada árvore esperando apenas uma criança deixar uma rede armada.
— E depois ela foi levada para morar no inferno — concluiu Dona Ester.
— No inferno? — perguntei, já quase sem voz.
— No inferno! Lá tudo queimava!
Olhei para minha rede.
Nunca uma rede tinha representado tanto perigo.
Naquele instante, fiz uma promessa silenciosa: enquanto eu tivesse forças nos braços, nenhuma rede sob minha responsabilidade permaneceria armada depois que eu acordasse.
E cumpri.
A partir daquele dia, eu podia estar dormindo profundamente, doente, cansada ou sonhando que tinha ganhado uma casa cheia de camas, mas acordava e a primeira coisa que fazia era desatar a rede.
Depois que cresci, troquei a rede pela cama.
Mas o trauma continuou.
Até hoje, levanto e imediatamente arrumo a cama.
Não importa se estou atrasada.
Não importa se tenho mil coisas para fazer.
Não importa se ninguém vai entrar no quarto.
A cama tem que ficar arrumada.
Porque, em algum lugar dentro de mim, ainda vive aquela menina do Paredão, olhando desconfiada para uma rede e imaginando um anjo da guarda desempregado, esperando Deus transferi-lo para outra criança.
E eu não vou correr esse risco.
Posso até esquecer onde coloquei os óculos.
Posso esquecer uma senha.
Posso entrar na cozinha e esquecer completamente o que fui fazer lá.
Mas deixar a cama desarrumada?
Jamais.
Vai que meu anjo da guarda acorda, olha para a cama e pensa:
— Ah, então ela ainda está dormindo…
E resolve tirar uma folga.
Dona Ester pode até não saber, mas criou em mim o hábito mais eficiente da minha vida.
E também um pequeno medo de virar diabinha.
(*) Araciara Macedo é diretora de Jornalismo do grupo de comunicação “A Gazeta do Amapá”.

