13-09-2026 às 10h40
Samuel Arruda*
A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada entre os dias 4 e 13 de setembro, reúne escritores, pesquisadores e leitores em torno de uma das mais importantes celebrações da literatura e do pensamento no país. Entre os autores presentes nesta edição está o advogado, professor, escritor e colunista Rogério Reis Devisate, que chega ao evento com duas obras que, embora tratem de temas distintos, têm em comum uma preocupação central: compreender os desafios impostos ao ser humano por um mundo em acelerada transformação.
No dia 9 de setembro, Devisate participou da programação da Bienal com destaque para seu mais recente livro, “Charada do Fim do Mundo: a Inteligência Artificial ante a Ética da Nossa Inteligência”, em sessão anunciada para o estande 27 da Travessa Literária. A participação levou ao ambiente da maior feira literária de São Paulo uma discussão que ultrapassa os limites da tecnologia e alcança uma questão essencial: o que acontecerá com a humanidade quando máquinas forem capazes de realizar tarefas cada vez mais complexas, mas não possuírem aquilo que caracteriza a experiência humana — consciência moral, empatia e responsabilidade?
A obra, publicada em 2025/2026, parte da expansão da inteligência artificial para propor uma reflexão sobre ética e os limites da inteligência humana. O próprio registro bibliográfico do livro apresenta a IA como uma tecnologia capaz de aprender autonomamente e levanta o problema de sua ausência de empatia e de freios éticos.
Não se trata, portanto, apenas de um livro sobre tecnologia. A questão de fundo é o próprio homem diante da tecnologia que criou.
A pergunta por trás da máquina
Em “Charada do Fim do Mundo”, Devisate desloca o debate sobre inteligência artificial do entusiasmo tecnológico para o campo da responsabilidade. A pergunta deixa de ser simplesmente sobre aquilo que as máquinas poderão fazer e passa a ser sobre aquilo que nós, seres humanos, estaremos dispostos a permitir que elas façam.
Essa perspectiva ganha especial relevância em um momento no qual a inteligência artificial já interfere no trabalho, na produção intelectual, na comunicação, na educação e no próprio funcionamento das instituições. O autor vem tratando desse universo também em seus artigos, inclusive ao sustentar que, diante da inteligência artificial, saber pensar tornou-se ainda mais importante.
A obra nasce, assim, de uma inquietação humanista: a tecnologia pode ampliar enormemente a capacidade de ação do homem, mas não necessariamente amplia sua capacidade de discernimento.
É justamente nesse espaço — entre poder e responsabilidade — que o livro procura provocar o leitor.
Do futuro da humanidade ao futuro da propriedade
A segunda obra, “O Axioma da Estabilidade Aquisitiva: Proteção do Adquirente e Regularização Fundiária”, desloca o foco para um problema aparentemente distante da inteligência artificial: a segurança jurídica da propriedade rural brasileira.
A distância, entretanto, é menor do que parece.
Em seus estudos sobre Direito Agrário e regularização fundiária, Devisate desenvolve o conceito que denomina “axioma da estabilidade aquisitiva”, associado à necessidade de conferir segurança jurídica a determinadas situações consolidadas envolvendo adquirentes de boa-fé, sem confundir essas hipóteses com situações de fraude, grilagem ou nulidades absolutas.
Em artigo dedicado ao tema, o autor sustenta que a regularização fundiária deve distinguir situações juridicamente corrigíveis de casos de verdadeira apropriação ilícita de terras públicas. Para ele, a proteção da confiança e da segurança jurídica não pode servir para legitimar situações originadas de atos juridicamente inexistentes ou de grilagem.
A proposta revela uma preocupação que atravessa sua produção intelectual: como construir soluções jurídicas capazes de conciliar a força da realidade social com a necessidade de preservação da legalidade?
O livro coloca em discussão justamente esse delicado equilíbrio.
Uma trajetória marcada pelo Direito e pelo pensamento crítico
A presença de Devisate na Bienal não representa um episódio isolado de sua trajetória literária e intelectual.
Sua produção transita pelo Direito Agrário, Direito Civil, Direito Ambiental, acesso à Justiça, questões fundiárias, política, sociedade e temas existenciais. Em seu próprio site, o autor reúne artigos publicados em jornais e revistas e registra uma trajetória que inclui livros e trabalhos acadêmicos sobre diferentes aspectos do Direito e da realidade brasileira.
Entre suas obras anteriores estão “Grilagem das Terras e da Soberania”, “Grilos e Gafanhotos — Grilagem e Poder” e “Diamantes no Sertão Garimpeiro”, além de participação em obras coletivas.
A inteligência como instrumento de humanidade
Há, nas duas novas obras, uma espécie de fio invisível.
De um lado, a inteligência artificial desafia o homem a pensar sobre os limites do poder tecnológico. De outro, a regularização fundiária desafia o Direito a encontrar caminhos para proteger a segurança jurídica sem transformar situações irregulares em direitos legítimos.
Em ambos os casos, a questão central é a mesma: como utilizar a inteligência — tecnológica ou jurídica — sem perder de vista a dimensão humana das decisões?
É essa característica que ajuda a compreender a presença de Rogério Reis Devisate na Bienal. Sua escrita não se limita a um campo especializado. Parte do Direito, mas alcança questões que interessam à sociedade como um todo: propriedade, justiça, tecnologia, ética, confiança, segurança, poder e responsabilidade.
Um intelectual entre diferentes mundos
A participação na 28ª Bienal coloca, portanto, lado a lado duas dimensões de sua produção: o escritor preocupado com os destinos da humanidade diante da inteligência artificial e o jurista dedicado a um dos problemas históricos mais complexos do Brasil — a ocupação, regularização e segurança jurídica da terra.
A primeira obra pergunta, em essência, se a humanidade conseguirá controlar aquilo que criou.
A segunda pergunta como o Direito poderá oferecer estabilidade em uma realidade marcada por décadas de conflitos, documentos, registros, ocupações, irregularidades e situações consolidadas.
São perguntas diferentes, mas ambas exigem o mesmo exercício: pensar para além das aparências.
E talvez seja justamente aí que esteja a relevância da presença de Devisate em uma Bienal do Livro. Mais do que apresentar títulos, o autor leva ao encontro com os leitores uma proposta de reflexão sobre o presente e o futuro — sobre aquilo que estamos construindo, sobre aquilo que precisamos preservar e, sobretudo, sobre o tipo de sociedade que desejamos deixar para as próximas gerações.
Entre a inteligência artificial e a terra, entre o futuro tecnológico e a segurança jurídica, Rogério Reis Devisate reafirma uma concepção de literatura e pensamento que tem na razão, na ética e na preocupação com o ser humano os seus pontos de encontro.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

