13-09-2026 às 09h20
Samuel Arruda*
A prestação de contas das eleições de 2026 colocou sob escrutínio a relação entre a mineradora Sigma Lithium e o governo de Minas Gerais. A CEO da companhia, Ana Cristina Cabral, realizou uma doação de R$ 100 mil, com recursos próprios, para a campanha de reeleição do governador Mateus Simões (PSD), segundo informações divulgadas sobre as contas eleitorais.
A contribuição ganhou relevância pelo momento em que ocorreu. Dias antes, a Sigma Lithium havia firmado com o governo mineiro um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) relacionado às operações do complexo Grota do Cirilo, no Vale do Jequitinhonha. O acordo permitiu à companhia anunciar a retomada integral de suas atividades em Araçuaí e Itinga.
A sequência dos acontecimentos passou a ser questionada porque, antes do acordo, a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) havia realizado fiscalização que resultou no embargo de parte das operações da mineradora. Em 4 de agosto, Mateus Simões assinou a exoneração de Wesley Alexandre de Paula, chefe da Unidade Regional de Regularização Ambiental do Jequitinhonha, ligada à Feam. O ato, entretanto, foi anulado no dia seguinte pelo próprio governo, que justificou a medida como resultado de um “erro material”.
Poucas semanas depois, o governo de Minas e a Sigma chegaram ao TAC. A companhia informou que o acordo proporcionava segurança jurídica para a continuidade de suas operações e para seu programa de investimentos no Vale do Jequitinhonha. A empresa anunciou planos de investir R$ 600 milhões em 2027 e ampliar a produção.
A doação eleitoral, portanto, ocorre em um contexto que reúne interesse econômico relevante, decisões administrativas e contribuição para uma campanha eleitoral. Isso não significa, por si só, que tenha ocorrido ilegalidade ou que a doação esteja vinculada às decisões administrativas do governo. Para estabelecer qualquer irregularidade seria necessário comprovar uma relação de causa e efeito entre os fatos.
Há ainda um novo elemento no caso. Em 6 de setembro, a Justiça Federal determinou a suspensão das licenças ambientais e das atividades de mineração da Grota do Cirilo, atendendo a uma ação apresentada por organizações quilombolas. A decisão apontou questões relacionadas à consulta prévia à comunidade quilombola de Baú, localizada, segundo estudos citados no processo, a aproximadamente 2,7 quilômetros do empreendimento. A Sigma contestou a decisão e afirmou que pretende apresentar sua defesa.
O episódio coloca uma questão que merece ser esclarecida publicamente: qual foi exatamente a natureza da doação de R$ 100 mil, qual a justificativa apresentada pela doadora e se houve outras contribuições de executivos, acionistas ou pessoas relacionadas à Sigma Lithium para a campanha de Mateus Simões ou para outros candidatos em Minas Gerais.
Também é necessário distinguir a empresa de seus dirigentes. A informação disponível aponta para uma contribuição feita por Ana Cristina Cabral enquanto pessoa física, e não para uma doação realizada diretamente pela Sigma Lithium.
A sequência — fiscalização e embargo, exoneração posteriormente anulada, negociação do TAC, retomada das operações e, posteriormente, doação eleitoral — não constitui, isoladamente, prova de favorecimento. Mas representa uma cronologia relevante para a transparência eleitoral e para o acompanhamento da relação entre poder público e uma das principais empresas de mineração de lítio em Minas Gerais.
*Samuel é jornalista e editor de política

