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23-07-2026 às 08h19
Philipe de Oliveira da UFRJ*
Jamais imaginei que viria a público para defender um filme de (pasmem!) Christopher Nolan – e, no entanto, eis-me aqui. Nolan é, basicamente, o Neymar da sétima arte. Superestimado por supostas habilidades técnicas, ainda que marcado por uma completa falta de “visão”; caracterizado por um falso senso de sofisticação, semelhante ao dos que freqüentam o Coco Bambu ou se deslumbram com Gramado; e estimulado por uma fanbase repleta de incels e redpills. Os filmes de Nolan caíram no gosto popular, antes de mais nada, pela exploração – cafonérrima – de novidades da indústria cinematográfica, como o Double Negative Gravitational Renderer e as câmeras IMAX de película 70mm. O grande crítico cultural Paulo Francis disse, certa feita: “ser de classe média é achar Godard o máximo”. Poderíamos dizer, hoje, parafraseando o intelectual brasileiro, que “ser de classe média é achar Christopher Nolan o máximo”.
Graças a esses atributos, Nolan foi aplaudido entusiasticamente quando anunciou que faria uma nova versão da Odisséia. Seus fãs, no entanto – muitos dos quais, fervorosos seguidores de Donald Trump – se revoltaram quando o diretor escalou as atrizes negras Zendaya e Lupita Nyong’o para interpretarem, respectivamente, Atena (a deusa grega da sabedoria) e Helena de Tróia (mulher mais bela do mundo, filha de Zeus e Leda, e pivô da guerra responsável por devastar Ílion). Ao argumento de que o cineasta estaria desrespeitando a fidelidade histórica e se rendendo à “cultura woke”, muitas pessoas tomaram de assalto as redes sociais para destilar racismo e misoginia. Como o ensaísta Daniel Mendelsohn (que traduziu a Odisséia para a língua inglesa, frise-se) observou há poucos dias, Matt Damon – ator que interpreta Odisseu na película – está tão distante do perfil étnico dos gregos da Antiguidade Arcaica quanto Zendaya e Lupita Nyong’o; portanto, só o preconceito e a ignorância podem justificar a resistência de parcela do público à indicação das duas atrizes.
Assim, ao longo de toda a sua produção, Odisséia foi alvo de críticas quanto a suas “imprecisões históricas”. E tem sido esse, fundamentalmente, o pomo da discórdia a dividir os cinéfilos, agora que o filme foi lançado. Críticos de cinema conceituados têm condenado o quanto, no esforço de adaptar a lenda para a sensibilidade da Hollywood contemporânea, Nolan teria pervertido a “alma” da obra clássica. Tirando da estante edições empoeiradas do poema clássico e cotejando-as com o filme de Nolan, não poucos intérpretes têm se dedicado a denunciar as mudanças que o diretor realizou para atualizar o mito.
Com todo respeito aos críticos, acredito que a forma mais cretina de avaliar uma adaptação seja julgando sua “lealdade” ao original. Como o grande literato Jacyntho Lins Brandão observou em mais de uma ocasião, o que define uma obra clássica não é sua capacidade de resistir às reapropriações e às reinterpretações, mas sua disposição de se render a elas, de ganhar significados novos a cada leitura nova. E nenhum clássico se perpetuou por tanto tempo quanto a Odisséia. Há ecos da Odisséia em todas as epopéias produzidas na história do Ocidente: a Eneida de Virgílio, Orlando Furioso de Ariosto, Jerusalém Libertada de Torquato Tasso, Os Lusíadas de Camões, O Uraguai de Basílio da Gama… Mesmo os genéricos filmes de super-herói da Marvel têm o DNA da Odisséia. Ora, essa longevidade se deu, não porque a obra foi mantida incólume, mas porque, século após século, foi reinventada, permanecendo, não obstante, a mesma. Nas palavras do grande crítico literário Harold Bloom: “toda leitura é uma desleitura”. Logo, ao “trair” o livro clássico, Nolan está, ao fim e ao cabo, sendo fiel a ele, está lhe dando um novo sopro de vida.
Os dois poemas atribuídos a Homero – a Ilíada e a Odisséia – já são, eles próprios, desleituras, reinterpretações. Transmitidas oralmente ao longo da chamada Idade das Trevas grega (1100 – 800 a.C.), as narrativas relacionadas à Guerra de Tróia só tardiamente foram vertidas para o papel. Quantas interpolações o poeta que chamamos de Homero fez, ao transplantar para o texto escrito os versos dos aedos? Só nos cabe especular. Na Antiguidade Clássica (sécs. V e IV a.C.), escritores e filósofos faziam apropriações muitíssimo pessoais dos trabalhos homéricos. Platão, por exemplo, muito distante das preocupações de Homero, desenvolverá, no diálogo Hípias Menor, uma leitura moralizante da Ilíada e da Odisséia, vendo em Aquiles e Odisseu exemplos de conduta. Alguns séculos depois, o poeta romano Virgílio lerá Homero como uma celebração, não dos gregos, mas dos troianos – é esse o ponto de partida da Eneida, que interpretará Tróia como a ancestral de Roma. Na Modernidade, Alexander Pope se valerá da oportunidade de traduzir os poemas de Homero para criar um texto genuinamente original. O mesmo será feito pelo brilhante (e injustamente esquecido) poeta maranhense Manuel Odorico Mendes, contemporâneo de Machado de Assis: com uma tradução repleta de neologismos, o escritor brasileiro usa da Ilíada e da Odisséia para exibir sua enorme criatividade, explorando os limites da língua portuguesa. Diferentes gerações de artistas trajaram Homero com diferentes vestes. Nesse sentido, é injusto condenar Nolan por “ressignificar” a Odisséia.
Como a intelectual Camille Paglia sublinha, os textos homéricos são, ao lado da Bíblia, os pilares da cultura ocidental. Se nosso entendimento ético é bíblico (herança judaico-cristã), nossa percepção estética é homérica (herança grega). No mais das vezes, esses dois componentes – moral bíblica e arte homérica – estão em conflito, dentro de nós. É por isso que as virtudes heróicas descritas em grandes épicos (os valores guerreiros de personagens como Odisseu e Aquiles) podem gerar, em nós, admiração, mas, também, desconforto – educados que fomos para apreciar a humildade, a modéstia, a simplicidade. Nietzsche diria que temos uma estética aristocrática e uma ética plebéia. Um herói grego dificilmente sentiria culpa pelos soldados que matou no campo de batalha; veria no massacre, pelo contrário, motivo de orgulho, prova de sua valentia. Daí que seja extremamente difícil para nós (após tantos séculos de influência cristã) nos identificarmos com os protagonistas homéricos. Alguns pensadores – é o caso da filósofa Simone Weil, no conhecido ensaio A Ilíada ou O poema da força – tentaram ler Homero a partir de uma ótica cristã: Weil encarava os escritos homéricos como uma denúncia dos horrores da guerra. Mas essas interpretações são todas, sem exceção, esquisitíssimas, incompatíveis com o modo de pensar grego. Para Homero, a violência não é um mal necessário – é um bem em si, que dignifica os homens que a praticam.
Por isso, as escolhas narrativas de Nolan são muito interessantes. Em muitos aspectos, o cineasta busca “cristianizar” Odisseu, batizá-lo. O que vemos, em tela, é um guerreiro consumido pelo remorso, após os horrores desencadeados em Ílion. Mais que o Oppenheimer do filme lançado por Nolan em 2023, o Odisseu da película de 2026 é um sujeito envergado pelo remorso, diante do sangue desnecessariamente vertido. É essa, vale destacar, a justificativa que o filme dá para que o personagem permaneça anos e anos vagando pelo mar, antes de regressar para casa. Não foram “os braços de Calipso”, o “encanto de Calipso”, o “ritmo de Calipso”, as “graças de Calipso”, que prenderam Odisseu por tanto tempo – foi a culpa, sentimento que, como helenistas da envergadura de Bruno Snell demonstram, é bem pouco presente na cultura da Grécia Antiga. As narrativas épicas são, por definição, celebrações da guerra – mas Nolan, com sutileza, decidiu se reapropriar da Odisséia (épico dos épicos) para apresentar um manifesto antibelicista. Dessa maneira, Nolan repensa a tensão entre moral judaico-cristã e arte grega, garantindo que a primeira prevaleça sobre a segunda.
Não é à toa que o tema da hospitalidade atravesse o filme, do começo ao fim. Emmanuel Lévinas, o grande filósofo contemporâneo da alteridade, do respeito à diferença, entendia que a única salvação para o Ocidente seria abandonar definitivamente a herança homérica e abraçar a herança bíblica. Vítima do Holocausto – judeu, perdeu toda a família em campos de concentração –, Lévinas acreditava que os totalitarismos do século XX eram ecos de Homero, do culto greco-romano à força e ao poder. Lévinas contrapõe a ênfase que Homero dá ao Eu (os heróis da Ilíada e da Odisséia estão a todo momento tentando se destacar dos demais) ao destaque que a Bíblia dá ao Outro (em especial, estrangeiros, viúvas, órfãos, miseráveis…). Para Lévinas, Sodoma não foi punida por Deus em virtude de suas condutas sexuais, mas devido à falta de hospitalidade: a recepção ao estrangeiro, o acolhimento aos desconhecidos, seria o pilar de qualquer ética. Ao fazer da hospitalidade o foco de sua Odisséia, Nolan confere um tom singularmente levinasiano (e judaico-cristão) à sua narrativa. Cena após cena, vemos anfitriões e hóspedes violando princípios mínimos de hospitalidade: os pretendentes de Penélope; o Cíclope; Clitemnestra; Circe; Calipso… Poderíamos dizer que os seres humanos, eles próprios, enquanto visitantes em um planeta que pertence aos deuses, traem seus deveres de hospitalidade. Disfarçado de mendigo, Odisseu será destratado em seu próprio palácio.
Como uma epidemia, o ódio ao estrangeiro, a violação aos preceitos da hospitalidade, parece se propagar pelo mundo – é isso que faz com que Odisseu seja tomado de vergonha. Idealizador do “Cavalo de Tróia” (artimanha que também violou a hospitalidade, permitindo que os gregos, sorrateiramente, se infiltrassem em Ílion), Odisseu se vê como o responsável por trazer a peste, “abrir a caixa de Pandora”, pôr fim à era dourada da civilização. Para vencer, tudo é permitido? Gás mostarda, bomba atômica, fósforo branco… Os fins justificam os meios? Mesmo entre inimigos, haveria padrões mínimos de conduta – calcados na deferência ao Outro, ao desconhecido –, que, com o “Cavalo de Tróia”, teriam sido quebrados. Nolan faz de Odisseu o primeiro criminoso de guerra, avô de Slobodan Milošević, Pol Pot, Netanyahu e Trump.
É difícil saber se Homero teria apreciado a Odisséia de Nolan. Sociedade belicista, os gregos da era arcaica dificilmente seriam capazes de entender a proposta. Mas isso definitivamente não diminui o valor do filme, pelo contrário. Nolan conseguiu a proeza de dirigir uma versão do poema homérico que Lévinas (convencido de que Jerusalém deveria matar Atenas) teria amado assistir. Um anti-épico, mais próximo de Vá e veja que de Coração valente. Natural que boa parte dos fãs de Nolan tenha detestado. É uma ode à hospitalidade, ao respeito pelos estrangeiros, em uma época atravessada pelo fortalecimento das fronteiras, pela perseguição aos imigrantes, pelas guerras culturais.
(*) Philipe de Oliveira da UFRJ é professor de Filosofia do Direito na Faculdade Nacional de Direito da UFRJ

