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15-08-2026 às 12h36
Rogério Reis Devisate*
Houve um tempo em que alguém podia entrar numa grande biblioteca e perceber que uma vida inteira não bastaria para ler sequer uma parte do que outros seres humanos pensaram antes de nós; ali estavam séculos de filosofia, ciência, literatura, história, direito, descobertas, erros, amores e perguntas. Era uma quantidade de conhecimento muito superior à que qualquer pessoa seria capaz de guardar na memória e que, apesar disso, jamais levou ninguém a concluir que a biblioteca estivesse pensando.
A diferença parecia evidente: os livros armazenavam pensamentos e informações, enquanto pensar era aquilo que acontecia quando alguém retirava um volume da estante, desconfiava de uma afirmação, relacionava ideias ou fechava o livro porque certas coisas precisam permanecer conosco antes que possamos compreendê-las.
A biblioteca continha pensamentos, mas não pensava; talvez seja essa distinção que precisemos recuperar agora, quando temos uma biblioteca quase ilimitada que, com a chegada da inteligência artificial, deixou de permanecer silenciosa e passou a comparar, resumir, reorganizar e responder.
A internet já havia transformado nossa relação com a informação: durante séculos, conhecer alguma coisa exigia professores, escolas, livros, jornais ou bibliotecas; hoje carregamos no bolso mais informação do que muitas bibliotecas antigas poderiam reunir. Junto desse acesso chegaram notificações, jogos, fofocas, vídeos breves e um quase inesgotável besteirol concebido para disputar um dos recursos humanos mais preciosos de nosso tempo: a atenção, preenchendo justamente o espaço no qual uma ideia poderia amadurecer.
É nesse mundo saturado que chega a inteligência artificial, acrescentando algo qualitativamente novo, porque já não estamos apenas diante de dados disponíveis para consulta, mas de sistemas capazes de processá-los e devolvê-los sob a forma de respostas articuladas, muitas vezes claras e convincentes, realizando em segundos tarefas que poderiam exigir horas ou dias de trabalho humano.
A internet colocou a biblioteca no nosso bolso; a inteligência artificial fez a biblioteca responder. É justamente aí que devemos tomar algum cuidado, não por medo da tecnologia nem por nostalgia de um passado analógico, mas porque o fascínio da resposta pronta pode nos levar a confundir processar informações, ainda que de maneira extraordinariamente sofisticada, com aquilo que chamamos, na experiência humana, de pensar.
A IA processa — e processa magnificamente bem —, identificando padrões, comparando argumentos, produzindo sínteses e organizando volumes de informação muito superiores à capacidade de qualquer indivíduo; mas o próprio uso dessa tecnologia mostra que processamento não se basta, porque, para obtermos dela uma resposta realmente útil, precisamos saber o que perguntar, como formular a pergunta, que contexto oferecer e o que aprofundar ou excluir — aquilo que hoje chamamos de prompt. A máquina pode processar o que lhe entregamos, mas ainda precisamos pensar para decidir o que queremos saber, por que queremos sabê-lo e se a resposta corresponde ao problema.
Quanto melhor a máquina responder, maior será a importância humana de saber perguntar, porque formular uma boa pergunta exige perceber o problema, distinguir o essencial do acessório e, às vezes, descobrir que a primeira pergunta ainda não era a certa.
Pensar, para um ser humano, não parece ser apenas processar, porque pensamos com aquilo que sabemos, mas também com aquilo que vivemos, com memória e esquecimento, perdas, medos, afetos, experiências e contradições; alguém pode ler tudo sobre a morte e pensá-la de maneira inteiramente diferente quando perde uma pessoa que ama, assim como pode conhecer teorias sobre justiça e liberdade e ainda hesitar diante de uma injustiça concreta que venha a sofrer. Entre informação e existência permanece uma região de experiência, consciência e responsabilidade que mais dados não eliminam.
Michel de Montaigne percebeu algo fundamental há quase cinco séculos, quando preferiu uma cabeça bem-feita a uma simplesmente bem-cheia. A observação ganha agora atualidade extraordinária, justamente porque os fatos podem ser encontrados, comparados e organizados por uma máquina antes mesmo que tenhamos terminado de formular a pergunta.
Talvez este seja o pior momento possível para abandonarmos o esforço de ensinar a pensar, pois não precisamos formar seres humanos para competir com máquinas na velocidade com que processam informações; precisamos formar pessoas capazes de distinguir o essencial do irrelevante, argumento de manipulação, evidência daquilo em que apenas desejávamos acreditar, admitir quando o outro tem razão, suportar alguma dúvida e perceber que possuir uma resposta não significa compreender a pergunta.
Isso exige mais do que inteligência como capacidade de resolver problemas: exige inteligência emocional, fair play intelectual, consciência de nossas vulnerabilidades e capacidade de filtrar a avalanche informacional, porque, antes de selecionar o que vem de fora, precisamos reconhecer os filtros que carregamos dentro de nós.
Por isso, o avanço da inteligência artificial não diminui a importância do humanismo, mas talvez até a aumente: quanto melhores forem as máquinas para processar informações, maior será nossa necessidade de cultivar consciência, responsabilidade, prudência, imaginação moral, capacidade de duvidar, mudar de opinião, compreender o outro e perguntar não apenas o que podemos fazer, mas se devemos fazê-lo. Filosofia, literatura, história, direito e artes voltam ao centro da questão, porque não herdamos apenas informações sobre o mundo, mas maneiras de interrogá-lo.
E então retornamos à biblioteca do início: ela guardava respostas possíveis, mas dependia de alguém que soubesse formular perguntas; preservava conhecimento, mas não substituía o movimento interior pelo qual transformamos informação em compreensão, compreensão em juízo e juízo, quando necessário, em escolha.
Agora a biblioteca responde e, justamente porque responderá cada vez melhor, o pensamento humano não se torna menos necessário, mas mais importante. Quanto mais respostas estiverem disponíveis, maior será a responsabilidade de quem precisa compreendê-las, julgá-las e transformá-las em escolhas; talvez seja essa uma das formas mais importantes de cuidado: utilizar plenamente a inteligência que construímos sem permitir que a facilidade das respostas nos faça desaprender aquilo que nenhuma biblioteca poderá decidir em nosso lugar — o sentido que damos ao que sabemos, às nossas escolhas e, no limite, à experiência de sermos humanos.

