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15-08-2026 às 11h23
Giovana Devisate*
Quase mudei de calçada. Cheguei à beira, olhei para os dois lados como se fosse atravessar e desisti. Retornei à ideia original, de parar no mercado somente depois de ir à livraria. O objetivo, na real, era esse mesmo: perder tempo por entre os corredores da Livraria da Travessa até achar um título inédito para mim, tomar um café e, depois, resolver outras coisas no bairro.
Me mantive, então, na mesma calçada, à caminho da livraria. Em apenas dois passos, vejo uma amiga que não via há muitos anos. Com fone de ouvido, ela não me escuta chamar, mas consigo facilmente alcançá-la. Entre palavras trocadas de saudade e planos de encontros futuros, sinto alguém me abraçar de mansinho pelo lado direito. Era uma outra amiga, que não via desde 2019.
Permanecemos imóveis, na calçada, por mais alguns minutos. Conversamos sobre esse tempo que passou e que ficamos sem nos ver. Depois, houve uma despedida e seguimos, as três, em direções diferentes. Ao caminhar para a livraria, não conseguia esquecer a ideia de que as coincidências dos encontros são milagres do destino. Todas as coincidências, na verdade. Se é que elas existem.
Eu nunca fui boa em matemática, mas acho que as coincidências podem ser explicadas com cálculos de probabilidade. Nem me lembro os caminhos e fórmulas para tais cálculos, mas me lembro que, nesse dia, quando cheguei à livraria, um funcionário puxou assunto e me indicou um livro que disse ser a minha cara, mesmo sem me conhecer. De novo, por coincidência, o livro indicado tem como personagem uma curadora de arte. Pensei em levar, quando em menos de um minuto a minha dúvida foi abonada: esbarrei com mais uma amiga. Acho que não a via desde o carnaval.
Achei tão absurda a sequência escancarada de tantas coincidências que comprei o tal livro. Fiquei com uma sensação estranha enquanto imaginava que nada disso teria acontecido se eu tivesse atravessado a calçada e mudado a direção de todos esses encontros. Seria um desvio na minha rota, no meu caminho.
O livro que me foi indicado se chama “A carne”, da Rosa Montero, que também escreveu um livro chamado “O perigo de estar lúcida”, que eu adorei. Comprei porque fiquei intrigada e comecei a ler assim que cheguei em casa. Finalizei em pouquíssimos dias porque fiquei obcecada com as coincidências, principalmente quando percebi que o tema principal, o que liga todas as páginas do livro que carregam as histórias da personagem principal, é a passagem do tempo – tema sobre o qual tenho falado tanto, na vida e aqui.
O livro fala bastante do medo da morte, do pavor do fracasso e de uma esperança disfarçada de angústias com as quais a personagem não sabe lidar. No início, até me identifiquei um pouco com a personagem, que demonstra pensamentos inquietantes o tempo passar e ela se deparar não só com a velhice, mas com a solidão. Em certo momento, no entanto, ao longo da história, vemos uma mulher que cultiva amargor e é um tanto imatura. Também me incomodou como ela se relaciona com o seu amante, o tratando como se o mesmo fosse seu filho.
Ainda assim, fico com as coincidências, porque, apesar de contextos diferentes, não esqueço daquele trecho de “Tudo é rio” em que Carla Madeira diz que “alguém pode passar pela esquerda enquanto olhamos distraídos para a direita. Por um triz o paralelo obriga-nos ao desencontro eterno. É preciso uma coincidência qualquer para que o amor se instale. Existe um certo milagre nos encontros. Não é tolo dizer que o amor é sagrado.”.
Tive uma professora na Faculdade de Moda que dizia não acreditar em coincidências. O negócio dela era com a sincronicidade. A IA do Google diz que “a principal diferença é que a coincidência é apenas o acaso de dois fatos acontecerem ao mesmo tempo, enquanto a sincronicidade (conceito criado pelo psiquiatra Carl Jung) é uma coincidência que tem um significado profundo e pessoal para quem viveu aquilo, unindo um evento de fora com um pensamento de dentro”.
Estávamos falando, então, o tempo inteiro, sobre sincronicidade? O fio que liga esses encontros na minha vida é o mesmo que costura os afetos na linha do tempo da minha vida? Como um livro que fala tanto sobre solidão me encontra (ou eu o encontrei? ou ele foi guiado até mim pelo funcionário da livraria?) exatamente após tantos encontros especiais e inesperados acontecerem?
Eu ia mudar de calçada e nada disso teria acontecido. Não encontraria a Carol. Não veria a Mariana, que se mudou para outro país quatro dias após nos encontrarmos na rua. Não veria a Bebel. Talvez, esse livro nunca me despertaria curiosidade e, por isso, não teria sido lido por mim. Sem isso tudo, também não escreveria este artigo.

