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27-09-2026 às 10h12
Giovana Devisate*
Recentemente, fui visitar a ArtRio e vi uma obra do Fábio Baroli, na Galeria Murilo Castro: uma instalação de fuxicos, que me chamou demasiada atenção. Me aproximei tentando desvendar os seus mistérios impossíveis: os fuxicos, costurados uns aos outros, formavam uma imagem pixelada. De longe, como um quadro do Monet, faz sentido, ainda que não exista clareza da paisagem formada. De perto, no entanto, são apenas fuxicos conectados, coloridos, sortidos.
O artista compõe narrativas visuais a partir do cotidiano e das relações humanas com o meio ambiente, com a cultura e com a paisagem. Não o conhecia e achei a construção técnica da obra muito perspicaz.
Parei de frente para a parede por uns segundos, a instalação estava pendurada por uma haste de madeira e, obsessivamente, só conseguia lembrar de como eu fazia fuxicos quando era criança. Pensei em como, ansiosa, sonhava com algo muito maior que eu. Me lembrei de uma caixa que talvez ainda pudesse estar armazenada em algum canto da casa, mesmo que 20 anos depois.
Quando era pequena, decidi que queria fazer faculdade de Design de Moda. Na verdade, a criança não pensa lógica ou estrategicamente em fazer alguma faculdade, mas sonha em ser alguma coisa. Eu sonhava em ser exatamente isso.
Chegando em casa, depois da feira de arte, fui atrás da tal caixa de costura que me acompanhou por anos durante a infância. Na hora que a vi, passou um filme na minha cabeça… Nela, encontrei linhas, agulhas, muitos botões e fuxicos!
O fuxico é uma técnica de artesanato tradicional que consiste em pequenos círculos de tecido alinhavados que, com as linhas da costura puxadas, formam uma trouxinha. É usada em diversos continentes, há séculos, como forma de reaproveitar tecidos, por ser tradicionalmente feita com retalhos e sobras. A palavra fuxico é de origem africana e está relacionada à ideia de ‘remendo’ ou ‘alinhavo com agulha e linha’.
Quando vi os meus primeiros, da infância, lembrei de muitas coisas, como das horas em que passei tentando acertar, melhorar e aperfeiçoar a minha técnica. Também lembrei que foi a minha mãe quem me ensinou a fazê-los, com movimentos lentos e conscientes… O fuxico dela era perfeito. O meu, ao contrário, tinha um grave problema de finalização, pois o nó da linha era sempre grande e ficava cheio de sobras ou nós. Ainda assim, deu certo: aprendi a fazer fuxicos (e acho que foi a primeira coisa que costurei).
Mexi nos que encontrei como quem manuseia uma relíquia e percebi como tenho enorme apego à minha infância. Ela foi colorida, lúdica e inventiva. Eu era assim e, de certa forma, ainda sou. A diferença é que sou adulta.
Naquela época, a moda era o meu futuro sonhado. A realidade, no entanto, se aplica às versões possíveis de vida, de acordo com o contexto do mundo. Eu fiz a faculdade de Design de Moda, mas também fiz a de História da Arte, porque fui crescendo e entendendo que, antes da moda, eu era das artes.
Talvez, pequena, eu não largasse a ideia de que fazer fuxico era saber costurar. Realmente é, acredito, mas não como eu deveria saber um dia. Na minha cabeça de criança, no entanto, acho que uma coisa me levaria a outra e é justamente essa a razão pela qual as crianças são tão visionárias. A ingenuidade é o que as fazem pensar que todas as realidades do mundo são possíveis: desde aprender a voar, até ser uma grande designer de moda. Tenho a impressão de que eu era visionária assim.
Na época, fazia croquis que não sabia ao certo como colorir e ganhava livros de moda de presente dos meus pais e das minhas tias. Comecei na moda desse jeito, desenhando, lendo e aprendendo como cortar retalhos, alinhavar tecidos e pregar botões no centro dos fuxicos. Fazê-los poderia me levar muito longe. Hoje, no entanto, já não sei ser tão visionária, mas ainda sei fazer muitas coisas que sabia e queria fazer quando criança. Eu desenho, canto, danço, tudo o que também fazia no território tão cheio de sonhos chamado de infância… Sei colorir muito bem os croquis e leio uma infinidade de livros. Ainda hoje, sei fazer fuxicos, com muito mais técnica de costura, de corte e de acabamento do que aos 8 anos de idade.
Arrisco dizer, no entanto, que nenhum fuxico será tão bom quanto foram os primeiros. São realmente como relíquias de tantos anos. Não lembrava que os tinha até ver a obra do Fábio Baroli na ArtRio e conto tudo isso porque é por causa deles que se desenvolve uma história. O fuxico liga a minha vida com a da minha mãe e com a da minha avó, que era costureira. Também acredito que a técnica nos liga ao mundo, já que carrega séculos de práticas, de culturas, de costumes e de memória.
Eu gosto de contar sobre ter sido uma criança que queria ser designer de moda (ou estilista). Não pelos sacrifícios, evidentemente, mas porque eu consegui realizar o sonho da minha eu de 8. Posso, atualmente, saber muito mais técnicas que ela, mas penso que a Giovana lá de trás sabia muito mais sobre a vida do que eu.
Sinto que o resgate do meu eu de hoje está na minha eu criança. Queria que elas pudessem se encontrar para fazer fuxicos… Claro que eu não poderia ensinar nada melhor do que a minha mãe fez, mas poderia aprender com ela sobre como sonhar e habitar o mundo.
E por aí, quais eram os fuxicos da sua infância?

