Crédito: Divulgação
23-09-2026 às 10h20
Sérgio Augusto Vicente
De repente, uma pessoa simplesmente pretere os amigos por um séquito de dependentes e puxa-sacos. Quem nunca se deparou com uma situação dessas em algum momento da vida “adulta” que atire a primeira pedra!
Nem preciso dizer que o poder seja uma das maiores provas de fogo da sabedoria, da maturidade e do caráter de alguém. Há algo de muito sedutor no poder. Mas há quem desconfie e se incomode profundamente com ele. Eu, que tanta aversão sinto a tudo que me tolhe ainda mais a liberdade e me distancia de ser quem sou, confesso não lidar muito bem com ele. Sempre achei cafona a arte de gerir séquitos. Acho chique de verdade a liberdade (ainda que sempre vigiada e com algum grau de comprometimento) de me expressar de forma mais fiel aos meus sentimentos, amar e ser amado sem a dúvida dos interesses motivados por dinheiro, cargo ou qualquer tipo de vantagem. Preguiça é o que me define quando o assunto é poder.
A maioria das pessoas é ótima, até que se sinta com algum poder nas mãos. Quando se é inseguro então… Vixe! E se eu perder o patamar que alcancei? E se eu for julgado dessa ou daquela maneira? Será que o outro, que era tão meu amigo, está almejando meu cargo? Por esses e outros motivos, Clarice Lispector recusava o título de imortal da Academia Brasileira de Letras, por não conseguir lidar com a triste consciência de que sua morte pudesse ser a esperança da “imortalidade” de alguém.
Fulano é sincero comigo ou apenas me bajula? Sicrano me criticou! Ah! Só pode estar com inveja ou de olho em meu cargo! Quando alguém recebe a investidura do poder, para de experimentar a vida com aquela gostosa espontaneidade. Tudo ao seu redor passa a ter um preço. Muitas vezes, um preço bem alto, que se paga com a alma, com a dignidade, com a vida. De repente, tudo parece ter a necessidade de estar sob o seu controle, porque você passa a enxergar a vida como um tabuleiro de xadrez, repleto de estratégicos jogadores, prestes a lhe puxarem o tapete a qualquer momento. E sabe qual é a ironia disso tudo? É que, muitas vezes, quem mais quer o seu bem passa a ser visto como seu pior inimigo. Quem lhe abre os olhos se torna, através de seu olhar distorcido pela egolatria do poder, seu inimigo. O puxa-saco não! Como no clássico conto de Hans Christian Andersen, ele nunca diz que o rei está nu, mesmo estando diante da mais horripilante nudez. Sua postura é muito mais agradável, porque seu objetivo é criar simulacros de conforto em tudo que diz, fazendo o bajulado acreditar que errados são sempre os que divergem e o expõem ao contraditório. A um bajulador, o poder transforma qualquer bobagem de alguém em pensamento brilhante. Qualquer trivialidade é motivo de palmas e confetes. Uma boa estratégia para distrair a vítima enquanto se estuda a melhor maneira de lhe puxar o tapete.
O poder, há de convir, é mesquinho. Ele também é limitador. Digo mais: emburrecedor. Através dele, você se enquadra, se encaixa, faz o mundo caber na caixinha de seus interesses. Ele, o poder, torna-se a lente por meio da qual você enxerga a realidade. Há quem perca, inclusive, a noção da realidade e, na primeira oportunidade, surta, porque já se esqueceu de quem foi. Acostumado a viver apenas com o “eu exterior” (lembrei-me do conto “O Espelho” de Machado de Assis), desaprende a viver com a solitude. Não suporta a própria companhia, porque seu mundo se povoou de bajuladores e dependentes. Ao desaprender o que é um riso sincero, um gesto de carinho desinteressado, um conselho de amigo de verdade, surta porque só enxerga no espelho a armadura ou o exoesqueleto do cargo ou do dinheiro. E, quando acorda, pode ser tarde. Tarde demais. Sarcófago vazio. Sepulcro caiado, que não tarda a se decompor em puro mofo.
*Sérgio Augusto Vicente é historiador, professor, escritor e curador, com graduação, mestrado e doutorado em História pela UFJF. Trabalha na Fundação Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG). Editor de cultura do Diário de Minas, no qual coordenou as colunas “D. Pedro II – 200 anos” e “Diário de Minas 160 anos – um tributo a Carlos Drummond de Andrade”.

