Créditos: Divulgação
25-07-2026 às 15h41
Sérgio Augusto Vicente*
Muito já se publicou sobre d. Pedro II, o que, obviamente, não significa que todas as abordagens possíveis sobre esse personagem histórico tenham se esgotado. Há que se levar em consideração que os objetos de estudo, além de multifacetados, são passíveis de revisões ao longo da história. Em 2025, ano em que foram comemorados os duzentos anos de nascimento do segundo imperador brasileiro, relevantes contribuições apareceram em cena, como a monumental obra do professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, Dr. Leandro Garcia.
D. Pedro II e a cultura hebraica, editado pela Francisco Alves, com lançamento em Portugal e no Brasil, é uma obra não apenas cuidadosamente organizada, mas também de enorme generosidade para com a comunidade de pesquisadores de diferentes campos de investigação científica. O livro aborda um capítulo importante da trajetória de d. Pedro II a partir da sua relação com a cultura hebraica. Uma relevante obra de referência, que acaba de se tornar consulta obrigatória para quem se dedica a investigar esse personagem histórico. Além do generoso esforço de reunir e organizar uma grande massa documental, Leandro nos faz refletir criticamente sobre como lidar com as fontes de forma criteriosa, sobretudo com os diários e as cartas.
O autor não se prendeu ao “fetiche” dos documentos. “Feitiço” que os vestígios históricos deixados por figuras tão mitificadas como d. Pedro II podem facilmente lançar sobre o pesquisador. Sem deixar de transmitir ao leitor o fascínio pelo personagem abordado, fornece uma série de dados e fatos sobre a viagem de d. Pedro II à Terra Santa, em 1876. Mas não só isso: ensina o leitor a ler com cuidado os chamados “textos autorreferencias”, também conhecidos como “escritas de si”.
O livro nos convida a participar de um relevante diálogo interdisciplinar entre a história e a teoria literária, área em que o autor de D. Pedro II e a cultura hebraica atua de forma mais específica, no exercício de seu ofício de pesquisador e professor de graduação e pós-graduação da UFMG. Há décadas, Leandro se dedica à pesquisa no campo da epistolografia, tornando-se grande referência na área.
Dom Pedro II e a cultura hebraica vem a coroar essa relevante trajetória de estudos epistolográficos, demonstrando como história e teoria literária podem – e devem – estreitar relações sem perder as identidades que as distinguem. Se, por um lado, os historiadores se dedicam com afinco ao combate de todo e qualquer tipo de anacronismo que se pode incorrer na escrita da história, por outro lado, os profissionais da teoria literária, com todo seu meticuloso cuidado com a análise do discurso, da estrutura linguística e dos elementos formais que constituem os textos, também têm muito a contribuir com a contextualização das fontes. Poderíamos citar aqui inúmeros exemplos, a começar pela noção de “pacto epistolar”, que Garcia tão bem aplica em seus estudos. Afinal, não se pode ignorar os códigos, as linguagens e as convenções compartilhadas entre os correspondentes, o que, no caso das cartas, consideradas gênero híbrido e lacunar por excelência, acaba por constituir verdadeiras mensagens cifradas, que necessitam de outros textos e referências para serem decodificadas.
Talvez a maior contribuição desse livro esteja na identificação e mapeamento das redes de sociabilidade e de interlocução do segundo imperador brasileiro, sobretudo no que concerne à história, à cultura e à religião hebraica, temáticas centrais do livro. As cartas trocadas com o Frei Liéven de Hamme e com outros correspondentes exemplificam o perfil epistolográfico de d. Pedro II, tão bem delineado como o de um escritor de “cartas humanistas”, cuja forma muito se assemelha às revistas científicas de sua época, dado o patente comprometimento e dedicação à difusão do conhecimento. Os leitores dessas missivas precisam estar cientes de que têm em mãos registros marcados por uma tênue fronteira entre o público e o privado, em que o destinatário não apenas tem um lugar de destaque, mas a própria mensagem ultrapassa a relação remetente-destinatário.
Quanto aos diários, Leandro Garcia opta por lhes conferir um tratamento semelhante ao das cartas, como se fossem “cartas de si para si”. Se, por um lado, identifica um d. Pedro II detalhista, de quem dominava as línguas hebraica e árabe ao registrar sua passagem pela Terra Santa, por outro, verifica um estilo sucinto e irreflexivo nos registros da imperatriz Teresa Cristina, que usa os diários como se fossem “agendas de compromisso”. Ao mesmo tempo, porém, Leandro não abre mão de sua sofisticação e refinamento de pesquisador sensível e experiente ao enxergar certo grau de autonomia da imperatriz nessa viagem, constatando que ela, além de religiosa, católica e com forte formação humanística, esteve longe de reproduzir passivamente o roteiro e os compromissos do marido. Do mesmo modo, constata que Visconde do Bom Retiro (Luís Pedreira do Couto Ferraz), embora fosse organizador da logística dessa e de outras viagens de d. Pedro II e possuísse notável conhecimento de geografia, não dominava as línguas hebraica e árabe, lacuna denunciada pelos erros de grafia encontrados em seus diários. Leandro também atribui a causa da escrita retroativa do visconde e de seus relatos baseados em depoimentos de terceiros ao seu problema de saúde, que lhe restringia a mobilidade e, por consequência, o impedia de acompanhar o imperador e sua comitiva nas visitas a diversos pontos da região. Outro ponto curioso: teriam sido os registros diarísticos desse mesmo visconde solicitados pelo imperador?
Em seu livro, portanto, Leandro lida com os diários e as cartas como uma espécie de arqueólogo do texto, buscando vestígios e camadas que envolvem os discursos, bem como as circunstâncias, os interesses intelectuais e o lugar ocupado por quem os escreve. Os leitores podem estar certos de que terão nas mãos um compilado de fontes minuciosamente analisadas por meio de rigorosa pesquisa em outros tipos de documentos. Pesquisas que se desenrolaram a partir do cruzamento de dados, comparações, inferências e todo tipo de cuidado que se espera de um competente profissional da área.
Vale ressaltar, contudo, que o livro organizado por Leandro Garcia extrapola a análise das cartas e dos diários. Ele também explora uma outra importante faceta do imperador: a de tradutor, tarefa a que se dedicou durante boa parte de sua vida. Através da apresentação, transcrição e reprodução do livro Poésis Hebraico-Provençale du Rituel Israélite Comtadin, que foi organizado e publicado pelo imperador poucos meses antes de sua morte, em 1891, Leandro nos leva a refletir sobre o perfil tradutório desse chefe de Estado, que demonstrava uma clara preocupação de criar uma espécie de “inteligência tradutológica”. Para d. Pedro II, amante do estudo das línguas, o ato de traduzir não era mero “passa-tempo”, diletantismo ou dicionarização de uma língua para outra.
Citando os especialistas do Núcleo de Estudo de Processos Criativos da UFSC, Garcia vai ainda mais longe: confirma o caráter político dessa faceta de tradutor. A prática tradutória favorecia a inserção do chefe de Estado em determinados grupos internacionais, compatibilizando a vida de amante das letras com a de imperador. Em outras palavras, o imperador pode ser considerado “mediador cultural” e “agente da diplomacia cultural” de seu país. Foi dessa forma que ele inseriu a ainda incipiente literatura brasileira em um “circuito transnacional”, não apenas traduzindo os clássicos de outros países para a língua portuguesa, mas também vertendo os textos de escritores brasileiros para outras línguas. Dessa forma, tentava projetar o Brasil para o mundo, assim como fazia com as participações do ainda jovem estado-nação tropical nas exposições universais, as “vitrines do progresso” do século XIX.
Apesar de sua profícua atuação nas traduções e no incentivo à divulgação histórico-cultural, Poésis Hebraico-Provençale du Rituel Israélite Comtadin foi o único livro que o “mecenas das artes, das letras e da ciência” publicou em vida. Nele, estão reunidos 26 poemas hebraicos por ele escolhidos e traduzidos para o provençal, e não para o português. Tais poemas são cânticos que remontam aos séculos XVI e XVII, sendo um deles identificado como oração de vigília cantada na véspera da tradicional prática da circuncisão. A escolha de Leandro Garcia em inserir esse livro de poemas em sua publicação foi das mais acertadas, tendo em vista que, além de ter sido o único publicado em vida pelo monarca, testemunha o particular interesse deste pela língua hebraica. Outra escolha bem-sucedida e cuidadosa foi a de traduzir esses poemas diretamente do hebraico para o português, tendo em vista que, se o fizesse a partir da versão em provençal, feita por d. Pedro II, incorreria numa tradução feita a partir de outra tradução.
Como se não bastassem os diários, as cartas e os poemas traduzidos pelo imperador, que transformam Dom Pedro II e a cultura hebraica em uma espécie de laboratório de estudo epistolográfico e de “escritas de si”, o autor ainda nos traz dois álbuns de fotografia referentes a essa famosa e instigante viagem de d. Pedro II à Terra Santa em 1876. D. Pedro II diarista, missivista, entusiasta da fotografia e tradutor: todos eles encontrados em um único livro, que já nasceu para durar e deixar sua marca na posteridade.
No contexto em que diversas instituições comemoram os 200 anos de seu nascimento, memórias tradicionais são reiteradas e outras são produzidas acerca do “amante das letras, das artes e da ciência”. Esse movimento faz parte da preservação da memória, que é um desafio constante, sobretudo em tempos radicalmente devotados às mais diversas manifestações do efêmero. Os pesquisadores ainda têm o desafio de fomentar, provocar, problematizar e tensionar, de forma crítica e reflexiva, as relações entre história e memória, por meio das quais podemos compreender os processos políticos e sociais envolvidos na construção das narrativas e no jogo das lembranças e dos esquecimentos. Mais do que nunca, é necessário estar atento às inúmeras formas de apropriação de personagens históricos como d. Pedro II, não raramente alçados a símbolos/mitos usados para legitimar determinadas práticas, ideologias e regimes políticos avessos à democracia e ao estado de direito.
Não há dúvidas de que esse livro contribui para problematizar um personagem histórico na sua dimensão humana, sem ignorar as contradições, as ambivalências, as lacunas e as vicissitudes que o permearam na formulação de respostas às demandas de seu tempo. Que esse monumental trabalho nos inspire a homenageá-lo como um chefe de Estado oitocentista que, mesmo diante das inúmeras mazelas e limitações da única monarquia das Américas, não deixou de ambicionar a construção de uma “República das Letras” de dimensões nacional e transnacional.
*Sérgio Augusto Vicente é doutor, mestre e graduado em História pela UFJF (MG). Professor, historiador, escritor e curador. Editor de cultura do Diário de Minas, no qual organizou e coordenou as colunas “D. Pedro II – 200 anos” (2025) e “Diário de Minas 160 anos: um tributo a Carlos Drummond de Andrade” (2026). Biografou o literato mineiro Belmiro Braga (1870-1937). E-mail: sergioaugustovicente1986@gmail.com.

