13-04-2026 às 17h00
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho (*)
Subíamos a avenida em curva, como sempre. Havia algo naquela subida que nos devolvia aos anos em que tudo ainda parecia urgente. Josafá caminhava com a mesma firmeza da manhã anterior, mas percebi que seus passos estavam menos geométricos, menos cadenciados, um pouco hesitante, como se a lembrança tivesse alterado o peso do corpo.
— Eu sempre precisei estar pronto para sair — disse ele, quase como quem pede desculpas por ainda falar da prisão. — Porque aqui fora muito teria que ser feito.
Inconscientemente eu sabia o que vinha depois. Não porque ele já tivesse contado tudo, mas porque certas histórias vivem entre dois homens como uma terceira presença. Opaca, mas presente.
— Na cela — continuou — eu repetia que precisava manter o corpo inteiro. Quando a porta abrisse, não poderia estar quebrado.
Ele não falava apenas da porta da prisão. Nós dois sabíamos disso.
Caminhamos alguns metros em silêncio, e foi no silêncio que o nome surgiu.
— Maria Berenice.
O som daquele nome antigo sempre produzia em nós uma leve mudança de respiração. Não era apenas um codinome. Era o começo.
— Você lembra — ele disse, sem me olhar.
Lembrava. Só lembrava e não demonstrava nada.
A expropriação ocorrida no Rio de Janeiro fora quase banal perto do que viria depois. O plano funcionou, os recibos assinados, nenhuma bala disparada. Mas quarenta e oito horas mais tarde, no ponto combinado, a história deixou de ser política e passou a ser humana.
Ela entrou no carro: pequena demais para o banco de trás. Tremia. Não era um tremor teatral; era um tremor que parecia vir de dentro dos ossos, que era visto no olhar. Você dirigia. Eu observava pelo retrovisor. Nenhum de nós sabia exatamente o que dizer.
— Ofereci bombons — Josafá murmurou agora, como se ainda segurasse a sacola.
Na época, aquele gesto nos pareceu enorme. Hoje sabemos que era apenas o que dois homens podiam oferecer diante de algo que não sabiam consertar.
Ela tinha sido arrancada de um hospital. Trazia no corpo marcas que evitávamos olhar diretamente. O medo dela não era pânico — era vigilância permanente. Cada farol na estrada parecia um interrogatório.
Lembro que, em determinado momento, você baixou o volume do rádio sem perceber. O silêncio ficou pesado demais para música.
Não falávamos muito entre nós. Não era necessário. Bastava um ajuste de velocidade, um olhar pelo retrovisor, uma mudança de rota improvisada. A cumplicidade vinha do perigo, mas não só dele.
Veio dali, talvez, algo que nunca nomeamos.
Tivemos de alterar o plano. A primeira célula não era segura o suficiente para alguém tão visivelmente quebrada. Cruzamos fronteiras como quem segura água nas mãos.
Quando penso nela hoje, não penso naquela conferência internacional, algumas décadas depois, no palco, onde pude vê-la e ouvir sua voz firme, para um auditório atento. Penso naquele dia, quando ela estava no banco de trás. No modo como tentava ocupar menos espaço do que seu próprio corpo permitia. Foi impossível não lembrar do seu olhar visto pelo retrovisor.
— Ela não nos reconheceu naquela conferência — disse Josafá, e havia mais curiosidade do que mágoa na frase.
Talvez não precisasse reconhecer. Nós éramos parte de uma travessia, não do destino.
Naquela noite, no bar, rimos do termo que ela usara em um livro.
— Uns homens sensíveis.
Rimos como quem aceita um papel secundário numa história que ajudou a começar.
Mas, quando a vimos entrar no restaurante ao lado de Bolívar Agustini, compreendemos que o mundo dela tinha encontrado outra forma de abrigo. Nós a havíamos ajudado a fugir. Ele a ajudava a permanecer.
Não comentamos isso diretamente. Nunca fomos bons em comentar o que realmente importava.
Josafá ajustou o passo ao meu lado.
— Cada um se salva como pode — disse ele.
E eu soube que ele não falava apenas dela.
(*) Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas

