Prof. Dr. Pe. Mauro Luiz Silva - créditos: divulgação
31-05-2026 às 09h00
Por Prof. Dr. Pe. Mauro Luiz Silva
“Se o Senhor não edificar a cidade, em vão trabalharão os que a constroem.” Salmo 127,1
“Fui estrangeiro e me acolhestes… estive preso e viestes a mim.” Mateus 25,35-36
Fomos escravizados e a Igreja demorou a nos ver…
Irmãs e irmãos,
Eu, padre negro desta Arquidiocese de Belo Horizonte, tomo a palavra neste Ato de Reparação Histórica.
Se Deus não edificar a cidade, em vão trabalham os que a constroem. Belo Horizonte foi edificada sobre os escombros do Curral Del Rey, mas Deus não estava no projeto que demoliu capela, que removeu gente, que embranqueceu o centro. Deus estava com os removidos. Deus estava com os que choravam no Largo do Rosário vendo as paredes da Igreja dos Homens Pretos virem ao chão. Por isso a cidade nasceu com uma dívida. E dívida com Deus só se paga com justiça!
Hoje, o retrato do Padre Francisco Martins Dias sobe à galeria de párocos da Boa Viagem. Ele foi o último pároco do Arraial do Curral Del Rey e o primeiro da nova capital. Negro, filho de Nova Lima, ordenado em Mariana em 1891. Chegou aqui em 1894, apenas seis anos depois da Lei Áurea. Fundou o primeiro jornal da cidade, o _Bello Horizonte_, e teve coragem de denunciar Aarão Reis quando a “cidade planejada” começou a empurrar os pobres e negros para longe do centro. Se Deus não edifica a cidade, em vão trabalham os construtores. Aarão Reis trabalhou. A Comissão Construtora trabalhou. Mas trabalharam em vão, porque edificaram sem os filhos pretos desta terra.
Bem próximo daqui, no cruzamento da Rua da Bahia com a Rua dos Timbiras, existiu a Igreja do Rosário dos Homens Pretos e seu cemitério. Foi demolida e o cemitério foi profanado, para a construção da nova capital. Até onde sabemos, os ossos de nossos ancestrais permanecem ali, sem nome, sem cruz, debaixo do asfalto da cidade dos homens brancos. O Curral Del Rey tinha, em 1890, cerca de quatro mil almas. Mais de sessenta por cento eram negros e mestiços, dizem os livros de batismo desta mesma Matriz. Foram essas mãos que ergueram a primeira Boa Viagem, as capelas, as casas de adobe. Foram esses corpos que, entre 1894 e 1897, viram três mil dos seus serem removidos do arraial. Foram para a Barroca, para a Pedreira Prado Lopes, para a Vila Senhor dos Passos, para a Cabana do Pai Tomás. As primeiras favelas de Belo Horizonte nasceram negras porque o centro foi sistematicamente embranquecido por políticas higienistas e eugenistas. De 1895 até hoje, cento e trinta anos se passaram. Só agora um padre negro volta à parede desta Igreja. Atrasou, porque a cidade foi edificada sem escutar o Senhor.
A Arquidiocese de Belo Horizonte não está sozinha nessa dívida. Em todo o Brasil dioceses, ordens religiosas e santas casas acumularam terras, ouro e patrimônio entre os séculos dezesseis e dezenove com trabalho escravizado. Só beneditinos, carmelitas e franciscanos tiveram, juntos, mais de trinta engenhos e fazendas com milhares de escravizados. No Brasil de hoje, cinquenta e seis por cento da população se declara preta ou parda. Somos maioria nas periferias, nos presídios, nas filas do SUS. Somos minoria nos altares, nas cúrias, nas universidades católicas. Isso não é acaso. É um projeto racista sistemático que atravessou os séculos. É cidade construída sem Deus.
No dia quinze de maio deste ano, o Papa Leão XIV assinou a _Magnifica Humanitas_, sua primeira encíclica, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial. O texto evoca a _Rerum Novarum_ de Leão XIII. Se em 1891 a Igreja falou da questão operária diante da máquina, que em 2026 fale da questão quilombola diante do algoritmo. A primeira tecnologia a desumanizar foi o navio negreiro. A primeira inteligência artificial a falhar foi a teologia que chamou gente preta de peça. E cidade edificada sobre pessoas negras tratadas como peças não fica de pé. Cai. E a sua ruína é completa.
Por isso, daqui deste altar da Boa Viagem, marco zero de Belo Horizonte, falo para o mundo.
Reivindico reparação simbólica: que toda paróquia erguida até 1888 tenha, em lugar visível, a lista dos trabalhadores escravizados que a construíram e o retrato dos padres e leigos negros que foram apagados. Reivindico reparação histórica: que as arquidioceses abram seus arquivos, que os inventários, livros de batismo e assentos de óbito sejam digitalizados e entregues às comunidades negras, para que possamos encontrar nossos ancestrais e recontar nossa história com nossa própria voz. Reivindicamos reparação econômica: que a CNBB, a CELAM e a Santa Sé criem o Fundo Leão XIII – Leão XIV de Reparação. Que um por cento de todo patrimônio eclesiástico acumulado até 1888 seja convertido em terra, bolsas de estudo, clínicas de saúde mental e centros culturais nas periferias e quilombos do Brasil. Começando por Belo Horizonte: Pedreira, Cabana, Morro do Papagaio, Aglomerado da Serra, Ventosa e os Quilombos Urbanos de Belo Horizonte e Região Metropolitana.
Não pedimos esmola. Cobramos dívida. O dízimo de amanhã não paga o trabalho de ontem. Mas pode começar a pagar. Porque se o Senhor edificar a cidade com justiça, aí sim o trabalho não será em vão.
Por que eu falo? Porque hoje, neste altar, sou um corpo negro que anuncia. Sou prova de que a Boa Viagem é preta desde a sua origem. Padre Francisco Martins Dias foi o primeiro. Não serei o último. Mas não basta estar no altar se nosso povo continua nos porões e senzalas dos quartinhos de empregada. A galeria de párocos não pode ser o teto de vidro da Igreja. Tem que ser a porta aberta da casa. Casa que o Senhor edifica com todos os filhos.
Que o retrato do Padre Francisco não suba sozinho. Que suba com ele o compromisso escrito desta Arquidiocese de iniciar, em noventa dias, a comissão de Reparação Econômica. Que a _Magnifica Humanitas_ seja magnífica também para quem teve a humanidade negada.
Nesta semana de Pentecostes, o Papa Leão XIV, sucessor de Pedro, pediu perdão às populações negras escravizadas sob a negligência e a participação da Igreja Católica no genocídio da escravidão. Acolhemos o gesto como passo de verdade. Mas como ensina a própria _Magnifica Humanitas_: a dignidade humana não se protege só com palavras. Perdão sem restituição é meia confissão. Por isso, da Boa Viagem, exigimos: que o pedido do Papa Leão XIV desça dos altares para os caixas e contas bancárias da Igreja Católica. Porque se Deus não edificar a cidade com reparação, em vão trabalharão todos nós que hoje rezamos aqui.
Do Curral Del Rey para o mundo, do Rosário dos Pretos para a Boa Viagem: reparação já. Histórica, simbólica e econômica.
*Prof. Dr. Pe. Mauro Luiz da Silva*
Projeto NegriCidade | MUQUIFU
Capelania dos Reinados Negros
Padre Negro da Arquidiocese de BH
Belo Horizonte, 27 de maio de 2026.
Ano do início da Reparação.

