O mais belo quadro, mãe natureza - créditos: divulgação
30-05-2026 às 16h20
Giovana Devisate*
Na semana passada, estive em São Paulo por causa do show do Robert Plant, no C6 Fest. Ao invés de fazer apenas um bate-volta, aproveitei para passar o fim de semana todo na cidade, indo na sexta e voltando na segunda, porque lá tem muitas coisas incríveis para quem ama arte. Sempre que tenho tempo para passear por São Paulo, sou feliz, apesar do ar estranhamente distinto do Rio de Janeiro.
A falta de sol faz piorar a vista cheia de prédios, carros, semáforos, árvores e asfalto. O Rio também tem tudo isso, mas ele consegue ser absurdamente lindo até mesmo em dias nublados. Diferentemente de São Paulo que, em dias assim, fica ainda mais triste. Pode ser porque a cidade é gigante e um verdadeiro nó, mas acho que é porque não tem montanha nem mar. O Rio é, realmente, muito agradável aos olhos.
Adoro visitar a Pinacoteca. Acho o acervo incrível, riquíssimo e as exposições temporárias são muito interessantes. Dessa vez, uma instalação da Cristina Salgado, produzida com mais de 3500m² de feltro, ocupava o octógono do prédio, aquele espaço central que recebe iluminação natural.
Ao me deparar com a obra, que foi pensada exatamente para ocupar aquele espaço, me senti completamente seduzida pela imensidão azul e vermelha. Não entendi com clareza: parei para observar, me direcionei para o título, pensei um pouco, fui até os textos expositivos, voltei a encarar a instalação por mais alguns minutos e, aos poucos, as cores e as formas foram fazendo mais sentido no meu coração.
Gosto, no entanto, de ficar com a primeira impressão que tive. Nesse caso, foi um estranhamento que, de certa forma, me convidou para mais perto e, também, para ficar ali e observar. É têxtil, tem olhos, tem mãos, tem cor, tem móvel, tem mar… Me lembro de pensar, incansavelmente, sobre as garras e de me questionar sobre a escolha das cores.
A instalação chama-se “A mãe contempla o mar” e, com ela, a artista quis falar sobre o excesso de matéria, sobre um corpo que foi casa, sobre o lado de dentro. Para tal, tecidos ocupam o espaço de diversas maneiras. A parte que mais me prendeu a atenção foi a grande massa sinuosa e dramática, sob a qual paira um ar introspectivo e inquieto, como São Paulo em dias tristes.
O mar também é tudo isso: até quando ele está expansivo e agitado, ainda é introspectivo: as ondas que vão para frente, para fora, rapidamente se voltam para si e buscam o retorno para casa, se embolando com o resto de água salgada que existe.
O que Cristina Salgado elabora visualmente são duas situações que dialogam entre si. De um lado, sob uma cadeira e uma mesa de jantar, uma gigante massa de carne e água, em forma de montanha sinuosa, como a fatia de um corpo que deságua no mar, representado por uma televisão com imagens de ondas batendo na praia. Do outro, uma gigante onda têxtil formada por faixas azuis com garras, que estão suspensas e se desmontam até o chão, se prepara para devorar o mundo.
É uma interpretação do corpo feminino e do mar, com diálogos sobre a maneira contemplativa e vaga que esse corpo visceral experimenta os seus sentimentos, transita pelo mundo, espelha o mar e, por vezes, desmonta tudo o que se sabe sobre ele, desaguando de outras formas nas encostas da vida.
O curador Renato Menezes diz que o que une as duas situações que a artista retrata é o excesso de matéria, de carne e de água, o que dá “o tom visceral e sinuoso do drama solitário, subjetivo, perene, que opõe a pequeneza frágil do corpo materno à grandeza violenta do mar do inconsciente”.
A obra, com elementos do corpo, do mar e, também, de uma casa, nos coloca de frente com um diálogo explícito entre os mundos interno e externo, onde o olhar é a chave de encontro entre eles. Por isso os olhos na instalação!
Todos os nossos cinco sentidos cumprem um papel importante ao trazer o invisível para o mundo do visível. Porém, se nos beneficiamos da visão, podemos afirmar que é dela que nasce a contemplação. Ela ganha de todos os outros sentidos do qual fomos contemplados. Da Vinci já dizia que os olhos são o espelho da alma e o espelho do mundo.
Nesse rumo, o curador da exposição conta que é o olhar que “nos leva a observar o interior do corpo, cujas entranhas vemos através de sua forma fatiada, uma metáfora para o interior da própria consciência”.
No texto curatorial, disponível no site da Pinacoteca, é contado que esses corpos com que a artista trabalha atraem para si uma camada de memórias de infância, de paisagens, de objetos do cotidiano que são carregados de sentidos, de familiaridade e de afeto. Como Freud define, a fronteira entre a fantasia e a realidade é apagada quando algo real, que até então víamos como fantástico, é atingido.
Isso se relaciona bem com esse trabalho da artista porque, ao termos a mãe e o mar dispostos, um de frente para o outro ou, de certa forma, misturados, realizamos que são poucas as coisas tão familiares como a figura da mãe, que a psicanálise reconhece como a primeira fonte de amor, de cuidado, de segurança e que, evidentemente, é a nossa primeira casa.
Ana Suy diz que a nossa primeira tarefa na vida é receber amor do outro e que, em seguida, nós “nos identificamos com o lugar de objeto precioso para o outro e passamos a nos amar também”. Seria o que Freud chama de narcisismo primário.
A mãe, para o bebê, é o mundo inteiro. Ao mesmo tempo, para quem nasce e cresce perto do mar, como eu, é difícil se imaginar tão longe dele. Todos nós, segundo a teoria da evolução, viemos do mar. Ele é uma imensidão de água que ocupa cerca de 70% do território terrestre. Mais ou menos a mesma porcentagem de água do corpo humano.
Às vezes, penso que seria legal demais morar em São Paulo, por questões profissionais e porque São Paulo é legal. Ao mesmo tempo, existe uma ideia um pouco triste em viver lá, porque é no Rio de Janeiro que tenho montanha, mar e mãe.
*Giovana Devisate é designer gráfico e historiadora da arte

