O Plantir - ilustração IA
17-05-2026 às 13h14
Luís Carlos Silva Eiras (*)
Houve um tempo em que filósofos passavam séculos discutindo se o mundo realmente existia. Infelizmente para eles — e felizmente para as seguradoras — bastava um rio transbordar para encerrar o debate. Bertolt Brecht já havia percebido isso em “Turandot ou o Congresso das Lavadeiras”: enquanto sábios discutiam se o Rio Amarelo existia apenas na mente humana, o próprio rio resolveu participar da discussão, levando mosteiro, monges e metafísica correnteza abaixo.
Dois séculos depois, o problema filosófico permanece, apenas com menos barba e mais servidores em nuvem. O Vale do Silício decidiu que a realidade existe, sim — desde que possa ser modelada, etiquetada, indexada, monetizada e vendida por assinatura anual ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos. E poucas empresas compreenderam isso tão bem quanto a Palantir Technologies.
O nome da empresa já denuncia certa modéstia intelectual. Nos romances de Tolkien, palantíri eram pedras mágicas capazes de enxergar acontecimentos distantes. No mundo corporativo moderno, são plataformas capazes de enxergar tudo: terroristas, caminhões, vacinas, refugiados, batalhões, planilhas Excel esquecidas desde 2009 e provavelmente aquele PDF chamado “versão_final_o_real_é_real.pdf”. A diferença entre magia medieval e software contemporâneo é que a magia medieval costumava vir com mais transparência contratual.
A grande obsessão da Palantir é a tal “ontologia”, um termo que antes fazia estudantes de filosofia dormirem sobre livros de Heidegger e que agora faz generais e CEOs assinarem contratos bilionários. Na filosofia, ontologia era a investigação sobre o que existe. Na computação, tornou-se algo mais pragmático: uma gigantesca tentativa de convencer bancos de dados, sensores, drones, planilhas e seres humanos a falarem a mesma língua sem se matarem mutuamente no processo.
A definição técnica é elegantemente burocrática. Uma ontologia computacional organiza classes, instâncias, propriedades, relacionamentos e axiomas. Traduzindo do dialeto acadêmico para o português humano: é uma maneira sofisticada de dizer que “João Silva” é uma pessoa, trabalha numa organização, dirige um veículo e provavelmente esqueceu a senha do sistema.
Mas a Palantir foi além. Em vez de apenas armazenar dados, resolveu criar um “gêmeo digital” do mundo real. Não basta saber que existe um tanque. O sistema quer saber onde ele está, quem o comanda, quanto combustível possui, qual ponte cruzará, quem forneceu o combustível, qual senador aprovou o orçamento e talvez qual era o signo astrológico do motorista. O objetivo é simples: transformar o caos humano em um tabuleiro lógico, onde tudo pode ser conectado, previsto e operacionalizado.
A empresa descreve sua arquitetura em três camadas, como se estivesse vendendo um bolo militar-industrial gourmet. A primeira é a camada semântica: “o que existe”. Aqui, o sistema pega o amontoado universal de planilhas, APIs, sensores, relatórios e mensagens perdidas no WhatsApp corporativo e converte tudo em objetos compreensíveis. Um tanque vira “Tanque”. Um soldado vira “Soldado”. Um hospital vira “Hospital”. É Platão reescrito por engenheiros de software e financiado pelo Pentágono.
Depois vem a camada cinética: “o que pode ser feito”. A filosofia finalmente encontra a logística. Não basta contemplar a essência metafísica de um batalhão; agora é preciso movê-lo, abastecê-lo e, se necessário, explodi-lo de maneira eficiente. A ontologia deixa de ser apenas um catálogo do universo e torna-se um painel de controle operacional da realidade.
Por fim, surge a camada dinâmica, onde a inteligência artificial entra em cena como aquele consultor excessivamente confiante que sempre sugere “soluções disruptivas”. O sistema realiza análises hipotéticas: “e se movermos este batalhão para posição X?”; “e se faltar combustível?”; “e se uma guerra inteira passar a funcionar como um problema de otimização logística?”. A resposta moderna para quase tudo parece ser: “vamos alimentar o modelo e ver o que acontece”.
Naturalmente, o governo americano apaixonou-se pela ideia. O Estado que já possuía satélites, drones, agências de inteligência e capacidade nuclear concluiu que o que realmente faltava era uma interface melhor. Assim, a Gotham — plataforma da Palantir para defesa e inteligência — passou a integrar dados de satélites, comunicações interceptadas e relatórios militares para mapear redes terroristas e operações de guerra.
Durante a pandemia, a mesma lógica foi aplicada às vacinas. O sistema Tiberius transformou frascos, caminhões, hospitais e cidadãos em entidades de uma gigantesca ontologia sanitária nacional. O CDC finalmente pôde visualizar gargalos logísticos em tempo real, uma experiência inédita para governos acostumados a descobrir problemas apenas quando jornalistas já os haviam publicado.
Mas foi na Ucrânia que a imaginação tecnológica do século XXI encontrou seu laboratório mais dramático. A guerra moderna tornou-se uma combinação curiosa de trincheiras do século XX, drones baratos do século XXI e apresentações em PowerPoint do Vale do Silício. Segundo relatos, a Palantir ajuda a integrar dados de satélites, drones, sensores e fontes abertas para construir um retrato operacional contínuo do campo de batalha.
O soldado contemporâneo pode solicitar imagens de satélite, identificar alvos com auxílio de IA e receber sugestões automáticas sobre qual arma utilizar. Clausewitz provavelmente teria um colapso nervoso ao descobrir que “a névoa da guerra” agora possui dashboard, APIs e suporte técnico premium.
A lógica da ontologia expande-se, então, para além da destruição. Pontes destruídas, hospitais, refugiados e ajuda humanitária tornam-se objetos interconectados dentro de um modelo operacional nacional. A guerra deixa de ser apenas combate; transforma-se em gerenciamento sistêmico em tempo real. É o sonho de qualquer tecnocrata: uma sociedade inteira convertida em fluxos monitoráveis, otimizações contínuas e indicadores de desempenho.
Naturalmente, isso produz pequenos inconvenientes filosóficos. Quando uma empresa consegue integrar vigilância, logística, inteligência artificial e tomada de decisão militar numa única arquitetura operacional, surge uma questão delicada: quem exatamente governa? O Estado? Os algoritmos? Ou os engenheiros que ajustam os parâmetros do algoritmo às duas da manhã, enquanto comem pizza fria?
A opacidade também impressiona. Em teoria, os sistemas ajudam humanos a tomar decisões. Na prática, quanto mais complexa a máquina, mais humanos passam a confiar nela precisamente porque não conseguem entendê-la. É uma curiosa inversão da modernidade: construímos inteligências artificiais para eliminar superstições e acabamos produzindo uma nova forma de sacerdócio técnico, onde analistas consultam modelos matemáticos com a mesma reverência que antigos oráculos consultavam entranhas de aves.
A ontologia, afinal, realizou o velho sonho filosófico: criou uma linguagem universal para descrever o mundo. O detalhe é que ela veio acompanhada de contratos governamentais bilionários, sistemas de vigilância planetária e capacidade de sugerir ataques de artilharia em tempo real.
Brecht talvez apreciasse a ironia. Os filósofos do mosteiro de Mi Sang jamais conseguiram provar se o rio existia. Já o século XXI resolveu o problema de maneira mais eficiente: primeiro modela-se o rio na ontologia; depois rastreiam-se seus fluxos por satélite; por fim, um algoritmo recomenda a melhor maneira de atravessá-lo — ou bombardeá-lo. E assim a metafísica finalmente encontrou seu destino natural: tornar-se software corporativo.
(*) Luís Carlos Silva Eiras é escritor.

