Segregação - créditos: divulgação
17-05-2026 às 16h14
Por Marcos de Noronha
Recentemente, a partir da briga em campo entre duas equipes mineiras, refleti nesta coluna sobre a violência humana e nosso temperamento. Lembrei também que, em São Paulo, os jogos de futebol acontecem com torcida única, por determinação judicial. A segregação de torcidas, colocando grupos em áreas separadas, é comum em diversos lugares, e os jogos com torcida única, apesar de menos frequentes, têm o mesmo objetivo: evitar conflitos e preservar a sociedade.
Na Argentina, por exemplo, após a morte de um torcedor em 2013 — durante a partida entre Lanús e Estudiantes — foi proibida a entrada da torcida visitante. Essa restrição só começou a ser revista em 2025. No Brasil, embora não exista lei federal determinando tal medida, o Ministério Público e o Governo do Estado passaram a adotar torcida única em jogos entre os principais times da capital. Na Europa, países como Turquia, Grécia, Itália, Sérvia, Croácia e França também implementam ações semelhantes em partidas classificadas como de alto risco.
Gestores esportivos acreditam que a melhor medida para evitar conflitos é segregar ou impedir a presença do adversário. O Brasil é o país onde mais mortes ocorrem em decorrência da violência ligada ao futebol, quando comparado com o resto do planeta. Em 30 anos, foram 384 óbitos. A maioria aconteceu durante o deslocamento das torcidas, em emboscadas, mais do que em brigas dentro dos estádios. Sendo assim, a separação das torcidas seria garantia de paz?
Nosso trabalho em Terapias Sociais, ao longo de três décadas, nos ensinou muito sobre formas de lidar com conflitos. Afastar as partes é apenas uma etapa; se não houver estratégia adequada, pode ser até pior — e ter de durar a vida toda. Os serviços de saúde mental recebem diariamente pessoas emocionalmente descontroladas ou profundamente afetadas pelas repercussões da violência.
Após a segregação das torcidas, observou-se que a violência não desapareceu; apenas se deslocou para outros ambientes. Muitos desses atos violentos envolviam, inclusive, organizações criminosas. Surge então a pergunta: qual é a verdadeira causa da violência, se a segregação apenas atenua os sintomas? Outros fatores com efeito inibitório incluem câmeras, policiamento inteligente e transporte organizado e obrigatório para torcidas visitantes.
Nos estádios, graças às câmeras, torcedores violentos foram identificados e banidos seletivamente. Houve também diálogo entre gestores, autoridades e líderes de torcidas, inspirados em modelos alemães de prevenção. Mas se quisermos compreender as raízes da violência, podemos olhar para nossos parentes biológicos mais próximos: os chimpanzés.
Um estudo em Ngogo, no Parque Nacional de Kibale, na Uganda, revelou algo impressionante. Em 2015, um grande grupo de mais de 200 chimpanzés começou a se dividir. Pesquisadores observaram a formação de duas facções: uma permaneceu no território original, enquanto outra migrou para a região oeste. Durante seis anos, esses primatas realizaram patrulhas, confrontos e mataram dezenas de indivíduos da facção oposta — conforme relatado pelo jornalista André Biernath, da BBC News Brasil.
As imagens são marcantes: antes de 2015, chimpanzés que se afagavam e cooperavam nas caçadas começaram a evitar-se gradualmente. Morton, do grupo central, interagia pacificamente com Garrison, do oeste — até que essa convivência se rompeu. Em 2018, as facções já estavam completamente separadas. Aqui emerge uma reflexão paralela às nossas torcidas organizadas.
Os ataques — inclusive contra filhotes — aumentaram ao longo dos anos, superando expectativas científicas. Gabriela Daly, da Universidade de St. Andrews, avaliou que primeiro ocorreu a separação; só depois, os conflitos[1]. Adriano Reis e Lameira, da Universidade de Warwick, comentou que estudos tão longos em vida selvagem são raros e extremamente difíceis, podendo inspirar análises mais profundas.
Mesmo não sendo comum a separação permanente entre esses primatas, os pesquisadores destacaram três fases no processo:
- Transição (2014): polarização crescente, redução drástica das interações e fechamento dos grupos sobre si mesmos. Por dois anos, evitaram-se. — Uma analogia perfeita ao mundo humano polarizado de hoje.
- Agressões letais: aumento significativo de ataques e patrulhas.
- Conflito aberto: violência generalizada após a ruptura definitiva.
As hipóteses levantadas incluem:
- dificuldade em manter coeso um grupo tão numeroso;
- aumento da competição entre machos pela disputa das fêmeas — inclusive com a chegada de um macho alfa do oeste ao grupo central;
- impacto da epidemia respiratória de 2017, que vitimou vários animais, possivelmente justamente aqueles que faziam a ponte social entre os grupos.
O mesmo acontece conosco. Em sociodramas baseados em minha obra O Cérebro e as Emoções, costumo pedir aos participantes que escolham situações que provocam sentimentos intensos: o time adversário, a religião do outro, o candidato oposto, questões étnicas ou episódios traumáticos. A identidade grupal nos atrai a coletivos por prazer, proteção e poder — é legítimo e humano. Não parece ter sido diferente com nossos parentes primatas.
Concordo que pequenos atos podem deflagrar grandes conflitos. Mas também acredito que pequenos gestos podem nos conduzir à reconciliação. Em vez de segregação, talvez o futuro dos estádios passe por torcedores rivais sentados lado a lado. Parece impensável? Eu aposto que não. Podemos — e devemos — aprender a conviver com a diversidade, inclusive com valores que nos contrariam.
Lembro-me do Rotary Club, que ao me conceder bolsa de estudos, pediu em troca que eu fosse um Embaixador da Boa Vontade: levar informações sobre meu povo e trazer informações sobre os franceses, pois fui estudar na Universidade de Nice. Eles acreditam — com razão — que a aproximação gera paz, e não o afastamento.
Aqui em Florianópolis, participo e estimulo familiares e amigos a continuarem convivendo com grupos de ideias divergentes. Um exercício, às vezes, difícil — mas transformador. O crescimento humano raramente nasce da facilidade; quase sempre, da coragem de permanecer junto, mesmo quando pensamos diferente.
[1] https://www.science.org/doi/10.1126/science.adz4944. Lethal conflict after group fission in wild chimpanzés. Science, 9 Apr 2026, Vol 392, Issue 6794, pp. 216-220

