Venezuela: extensão dos EUA? - créditos: divulgação
17-05-2026 às 14h12
Rogério Reis Devisate
Os jornais divulgaram a postagem de Trump, com a Venezuela pintada com as cores dos Estados Unidos. Quem se surpreendeu com isso não conhece a relação entre os dois países. A história demonstra que as coisas são muito maiores e mais antigas, complexas e envolvendo muito, muito dinheiro.
Para começar, a 1ª Guerra Mundial deixou claro que os exércitos precisariam de petróleo. Foi ali que o carvão foi substituído, como combustível com imenso poderio estratégico. Não daria mais para que as tropas se deslocassem a pé ou a cavalo ou que trens e navios dependessem do carvão. O petróleo seria a solução e até a poderosa Marinha Britânica migrou da força propulsora do carvão para o combustível derivado de petróleo, em decorrência da decisão do então Primeiro Lorde do Almirantado, Winston Churchill.
À época, iniciou-se um tipo de “corrida do outro negro” e países se lançaram em busca de fontes de fornecimento do petróleo. Ficou claro que quem controlasse o petróleo, controlaria o destino do mundo. No período entre guerras, a Alemanha e o Reino-Unido buscaram garantir essas bases de suprimento de energia. Paralelamente, John D. Rockfeller e a Standard Oil ampliavam os seus tentáculos. Quando estourou a 2ª Guerra Mundial, apesar dos tanques de guerra que possuía e das ágeis manobras militares alemãs, muito do seu exército era dependente do cavalo e das longas marchas. Enquanto tinha uma frente ocidental em curso, a Alemanha abriu outra contra a Rússia. Muitos não entenderam a “repetição do erro de Napoleão” e uma outras e simultânea frente de batalha. Mas, parece que não tinham alternativa, pois invadiram a Rússia por necessidade de obter petróleo e alimentos. No final da guerra, eram imensas a mecanização dos exércitos dos principais países e a dependência do petróleo.
Esse valor estratégico absurdamente fundamental para o Século XX, encontrou um campo de batalhas especificamente complexo na Venezuela onde, desde 1913, empresa britânica já agia, nas cercanias da região de Maracaibo, iniciando produção em 1914. Após a 1ª Guerra Mundial, nos anos 1920, os Estados Unidos e a Inglaterra buscaram ampliar as suas fontes de petróleo, temendo não ter o controle necessário para o desenvolvimento das indústrias e passar por escassez em caso de novas guerras. A disputa voltou-se para a Venezuela. A Royal Dutch-Shell, em seu relatório de 1920, dizia que os britânicos não poderiam perder espaço e precisavam conquistar novos territórios e os seus geólogos estavam em qualquer lugar onde pudesse haver sucesso nessas buscas. A previsão não era exclusiva para os britânicos. O mundo pensava assim.
Naquele tempo, na Venezuela havia um ditador que governou o país por 27 anos e enriqueceu, tratando tudo como a “sua fazenda” (hacienda). Chamava-se Juan Vicente Gómez e enriqueceu, enquanto o povo seguia empobrecido. Gómez posicionava-se a favor da Alemanha e agia como imperador. A valorização estratégica do petróleo caiu no colo do ditador, como oportunidade sem igual para mais poder e riquezas. Mas, para garantir investimentos estrangeiros, precisava estabilizar o país.
Embora fizessem pesquisas por lá, os norte-americanos tiveram parecer de um geólogo seu, desaconselhando investimentos locais. Outro, com visão mais ampla, discordou, partindo da premissa de que a Shell – inglesa – já havia investido muito em pesquisas e continuava a fazê-lo. Pensava que isso não poderia ser mal exemplo e, mesmo com um parecer contrário, certa concessão foi negociada pela Standard Oil junto ao general ditador e… ela foi dada ao Julio Mendez, que era genro do ditador. As coisas seguiram e, logo depois, os investimentos em pesquisa deram resultado. Um poço gerou um imenso fluxo de petróleo, estimado em 100 mil barris diários. Em 1929 a Venezuela já era o 2º maior produtor do mundo.
Em 1935, Gomés faleceu. Sem aquele ditador, poderia surgir um novo tempo, em que o petróleo pudesse jorrar e o povo não seguisse pobre? Os sucessores começaram a reformar o sistema de regulação do petróleo… E veio a 2ª Guerra Mundial, quando os EUA, atentos aos movimentos da geopolítica, buscariam garantir a fonte petrolífera venezuelana. Os EUA e a Inglaterra não poderiam arriscar a perda daquela poderosa mina de petróleo, mas o país tinha outras forças políticas e, em 1945, novo golpe encenou outra negociação com as empresas. Surge, então, Nelson Rockfeller, então coordenador para Assuntos Interamericanos do Departamento de Estado, que veio com novo fôlego para representar os interesses das empresas e do governo norte-americano. Para ele, a Venezuela era especial, tida como o seu segundo lar, onde ficava sua imensa fazenda Monte Sacro – que, anos depois, foi tomada pelos guerrilheiros.
Quando o governo do Marcos Pérez Jiménez – outro ditador – foi derrubado, em 1958, “a Venezuela era um vasto poço de petróleo rodeado de cárceres e câmaras de tortura”, como registrou Eduardo Galeano.
Saltando para o ano de 1970, temos ainda essas empresas operando por lá e a Venezuela seguindo – desde os anos 1920 e até os dias atuais – como o país rico em petróleo que convive com pobreza e violência. Durante os governos Chaves e Maduro – outros ditadores – nada mudou e o povo migrava, por desespero e desesperança. O fim da Era Maduro não deixou lágrimas e o mundo parece que já se esqueceu dele. Não vimos protestos pelas ruas.
Interessante é notar que há pouco tempo a Venezuela, por Maduro, movimentou-se para invadir a Guiana em busca do petróleo de Essequibo. A China é um dos países que tem o pé ali, pela China National Offshore Oil Corporation (CNOOC), que integra consórcio com a Exxom Mobil.
Na Venezuela, a China tem concessão de 20 anos para exploração de petróleo e do país compra 90% do petróleo exportado. Mas, como a produção venezuelana nos últimos anos é muito pequena diante do seu potencial, fruto de escolhas administrativas erradas e maquinário e tecnologia obsoletas, os EUA tendem a gerenciar essa produção e ampliá-la ao limite possível e, mesmo assim, respeitar os contratos firmados por Chaves com a China, focando no excedente.
Em meio a tudo isso, durante os sucessivos processos de centralização governamental, ditaduras e estatização do petróleo, houve nacionalização de instalações e apropriação de tecnologias, elementos que sustentam a base teórica de Trump ao fazer um laço de interesse em torno do petróleo venezuelano. A questão envolve, portanto, história e economia, disputas legais e compensações como causas ainda presentes e o atual tabuleiro geopolítico.
Continua valendo o pensamento de Eduardo Galeano, na sua obra intitulada As veias abertas da América Latina, mas o sangradouro permanente não envolve os EUA ou, como dizem alguns, o “imperialismo americano”, porquanto esta forma de expansionismo, notadamente no mundo globalizado e especificamente acerca do petróleo e das fontes de energia, envolve outros atores, como os ingleses, os russos e os chineses. Em certa medida, os países do sul não têm como resistir ao imperialismo dos grandes atores e nem se tornar independentes das tecnologias que nos fornecem, incluindo as novidades relacionadas à inteligência artificial.
O mapa venezuelano com as cores dos Estados Unidos foi mais um sinal de que os EUA estão cuidando da região do que uma apropriação das terras daquela Nação. Se não fossem eles, seriam outros a fincar a bandeira por ali.
*Rogério Reis Devisate, currículo na galeria de colunistas

