Justiça ainda que tarde - créditos: Maria Reis
18-04-2026 às 12h10
Por Daniel Deslandes
No último dia 12 de abril, o bairro Goiânia, em Belo Horizonte, foi palco de um acontecimento que marcou a agenda cultural: o 1º Festejo Pai Guiné de Aruanda. Muito mais que celebração, o evento foi um ato de afirmação de direitos e ocupação do espaço público pela memória ancestral.
Sob a condução da Mãe Adriana Quintão, a Casa Pai Guiné demonstrou a força do terreiro como polo de resistência e união comunitária. Viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), a festa uniu a alegria das ruas de lazer para crianças à economia dos empreendedores locais. A cultura, quando incentivada, movimenta o território em todas as suas dimensões.
“Eu sou muito grata por todo o axé que compartilhamos na Casa Pai Guiné de Aruanda e com toda a comunidade. Também agradeço aos nossos ancestrais, que permitem que a gente viva tudo isso que estamos vivendo hoje”, afirma Mãe Adriana, zeladora da Casa.
Como presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão da OAB Barro Preto, destaco o projeto “Arroz Carreteiro: Saberes Ancestrais em Prática”. Ao capacitar moradores em audiovisual e produção cultural, a iniciativa registrou a tradição e deu aos detentores desse saber as ferramentas para narrarem sua própria história. Afinal, a liberdade de expressão só é plena quando democratizamos o direito à plena manifestação.
Contudo, a beleza do encontro não passou imune ao dissabor do preconceito. Relatos de ofensas verbais dirigidas aos presentes e tentativas de abafar o som dos tambores com ruídos externos serviram como um amargo lembrete: o desafio contra a intolerância religiosa ainda é imenso. O episódio, ocorrido em ambiente que deveria ser de respeito mútuo, evidencia que a nossa luta pelo direito ao culto e à manifestação cultural, como uma caminhada ao horizonte, está longe de terminar.
Mas, entre as batidas da banda OriStamba e a partilha do arroz carreteiro — que estava uma delícia, devo registrar —, o que prevaleceu foi o fortalecimento de vínculos que o ódio não consegue romper. Defender festejos como este é defender a própria Constituição e a pluralidade que sustenta a nossa democracia.
No bairro Goiânia, a mensagem foi nítida: quando a política pública encontra o solo fértil da organização comunitária, o resultado é respeito e pertencimento. A cultura brasileira é feita de muitas vozes e, para o bem da nossa história, definitivamente, os tambores não serão calados.
Daniel Deslandes é advogado e presidente da Comissão de Imprensa e Liberdade de Expressão e colunista do Diário de Minas

