Créditos: Divulgação
05-06-2026 às 14h39
Anna Marchesini*
Chico Buarque escreveu “Geni e o Zepelim” em 1978. A história é simples: uma cidade apedrejava uma mulher, Geni. Um dia, atraca um zepelim. Um forasteiro poderoso, violento, ameaça destruir tudo. Só Geni pode salvar a cidade. Ela serve. A noite inteira. Faz tudo que mandam.
De manhã, o forasteiro pega seu zepelim gigante, cospe no chão e vai embora. Saciado. A Geni fica. Com a sujeira. E volta a ser apedrejada.
O Vale do Jequitinhonha é a Geni.
O forasteiro agora tem nome: mercado global. O zepelim são os trens da MRS, os navios no porto de Tubarão, as carretas na BR-116. E o que ele quer da Geni não é o corpo. É o que tem debaixo dele.
Terras Raras.
O nome engana. Não são “terras”. São metais. Lítio, nióbio, tântalo, neodímio, disprósio. Nomes que a maioria nunca ouviu, mas que decidem quem manda no século 21. Estão no celular que você lê este texto. Estão no carro elétrico que o europeu dirige para se sentir sustentável. Estão no míssil, no satélite, na turbina eólica, na ressonância magnética. Sem eles, o mundo apaga.
E a maior província de lítio do Brasil está aqui. No chão da Geni. Em Araçuaí, em Itinga, em Salinas, em Coronel Murta. No Vale que o país finge que não vê, a não ser na hora de medir a miséria para o IBGE.
A lógica é a mesma de 1978.
O forasteiro chega. Promete emprego, progresso, salvação. Abre a terra. A Geni deita. Aguenta a poeira de sílica, o rio que some, a montanha que vira cratera. Entrega o minério. O “zepelim” parte lotado. Bilhões de dólares em rocha bruta cruzam o oceano.
O que volta para a Geni?
Volta o buraco. Volta a água contaminada. Volta a estatística de câncer de pulmão. Volta o emprego terceirizado, insalubre, de mil e quinhentos reais para arriscar a vida a trezentos metros abaixo do chão. Volta a cidade fantasma quando a jazida seca.
A riqueza que move foguete sai daqui e vira bateria na China. Vira carro na Alemanha. Vira lucro em um escritório em Toronto que não sabe apontar Araçuaí no mapa.
Pertencer a essa terra é diferente de invadir.
Forasteiro tem GPS. Tem planilha. Chega, extrai, calcula o tempo de vida útil da mina e vai embora quando acaba. Não enterra ninguém aqui. Não bebe dessa água. Não respira esse pó.
Filho da terra enterra o umbigo no chão. Tem o avô no cemitério atrás da igreja. Conhece o nome de cada córrego que o mapa da mineradora chama de “recurso hídrico a ser suprimido”. Sabe que riqueza de verdade é o rio correndo limpo, não é pilha de lítio num contêiner.
Filho da terra fica. Quando o último quilo de lítio embarcar no zepelim, é ele quem vai ter que explicar para o neto por que o morro virou poeira.
Por isso a frase do vídeo que circula: “Nossas riquezas têm que gerar tecnologias e indústrias de transformação AQUI. Temos que ir além dos empregos!”.
Emprego é esmola.
Justiça é a refinaria em Salinas. É a fábrica de baterias em Itaobim. É o centro de pesquisa em Teófilo Otoni. É a universidade federal de engenharia de materiais em Almenara. É o hospital de referência em Jequitinhonha.
Justiça é o filho do minerador se tornar o engenheiro-químico, o dono da patente, o acionista da tecnologia que beneficia o minério retirado do quintal da casa onde ele nasceu. É o ciclo fechar AQUI.
Enquanto isso não acontece, a Geni continua servindo de graça. A noite inteira. E de manhã, o forasteiro vai embora saciado, cuspindo no chão da cidade que ele chama de “vazio demográfico”.
O Vale não quer favor. O Vale não quer cestas básicas de mitigação de impacto. O Vale não quer ser chamado de “Vale da Miséria” em reportagem de domingo para, na segunda, ter seu subsolo negociado na Bolsa de Toronto.
O Vale quer justiça.Quer que a conta feche. Que a tonelada de lítio que sai daqui volte como quilômetro de asfalto, como sala de aula, como leito de UTI, como salário que não seja ofensa.
Porque zepelim vai embora. Trem vai embora. Navio vai embora.
Mas a Geni fica.
E uma hora a Geni cansa de apanhar.
O corpo como último território. O Vale como primeiro.
Os dois não se negociam. Se defendem.
*Anna Marchesini é Palestrante

