Manifestação Pró-Europa reuni milhares de pessoas em Roma - créditos: divulgação
13-11-2026 às 13h32
Rogério Reis Devisate*
Em diferentes países europeus, multidões tomaram as ruas, protestando contra salários insuficientes, serviços públicos deteriorados, dificuldades de acesso à moradia, incertezas quanto às aposentadorias, reformas impopulares e denúncias de corrupção, além de manifestarem posições divergentes sobre políticas de imigração. Mudam as bandeiras, os governos e as palavras de ordem, mas uma inquietação atravessa essas diferenças, como se muitos repentinamente reconhecessem que o amanhã já não será melhor do que o presente.
O progresso foi uma das grandes promessas das sociedades europeias do pós-guerra, mas o que acontece quando os cidadãos começam a desconfiar de que essa promessa já não poderá ser cumprida? Os protestos atravessam governos de esquerda, centro e direita, o que recomenda procurar suas causas para além das diferenças partidárias e sugere que a Europa começa a perceber que a preservação do bem-estar social exige permanente esforço coletivo, produtividade e escolhas políticas que nem sempre encontram disposição ou consenso para serem realizadas.
PRIMEIRO ATO — O DESENCANTO QUE JÁ CHEGOU
Durante décadas, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, milhões de famílias europeias acreditaram que estudar, trabalhar e economizar permitiriam aos seus filhos viver melhor do que os pais. Hoje, quem conclui a universidade, fala idiomas e trabalha integralmente pode descobrir que seu salário não basta para alugar uma residência sem comprometer quase toda a renda, o que causa um choque com o fato de que a geração anterior, talvez menos escolarizada, conseguiu ter uma casa, enquanto ele adia a independência e a família, até perceber que não está apenas adiando decisões, mas a própria vida para a qual se preparou. Uma casa não é somente patrimônio: é o lugar onde os projetos deixam de ser abstrações e começam a adquirir existência.
A instabilidade do mercado de trabalho dificulta a construção de uma narrativa pessoal duradoura, enquanto a condição salarial e a proteção social também inserem o indivíduo numa comunidade, o que não envolve apenas o rendimento, mas atributos de felicidade, reconhecimento e realização. Isso nos faz perceber que não é apenas a falta material que causa a maior revolta, mas o choque para o ego e a vivência ética e moral de cada indivíduo que cumpriu as suas metas e as exigências da sociedade para descobrir que as regras mudaram depois que a partida começou, sem que ninguém o tivesse avisado. A falta de reconhecimento machuca e a sensação de impotência e de ser utilizado pelas maquinações políticas certamente motivam essa ida às ruas.
O universo da globalização não entregou a bonança que alguns esperavam e as concretas oportunidades de trabalho e renda não acompanharam um ideal de bem-estar coletivo, em meio à competição internacional, às transformações produtivas e à crescente pressão sobre os salários e a moradia. Havia fissuras, sinais e exemplos, mas as sociedades não perceberam que tais mudanças avançariam e afetariam sua prosperidade.
Parte do problema estava na atração por respostas fáceis e numa aposta de que o tempo curaria tudo, mesmo que não se fizesse nada. Aí, quando a crise chega, alguém até poderá dizer “eu avisei”, mas já não será ouvido, novamente, até porque será, mesmo, tarde demais.
Quem não se lembra das manifestações de 1968, em Paris, das mobilizações brasileiras de 2013 e da Primavera Árabe? Tiveram origens e desfechos profundamente distintos, mas mostram como as ruas são tomadas em decorrência de tensões que vinham silenciosamente se acumulando muito antes — aliás, com os terremotos acontece algo parecido. Le Bon investigou o contágio emocional das multidões, Freud o modo com que o Eu se porta nas massas e Elias Canetti como o coletivo altera a experiência do indivíduo. Não nos iludamos: as redes digitais acrescentam uma condição nova, ao facilitar a aproximação das frustrações dispersas, mas não criam, por si mesmas, a insatisfação que ajudam a propagar. Podemos inclusive dizer que as pessoas já estão conectadas muito antes de se vincularem por aplicativos ou de chegarem às praças e ruas.
SEGUNDO ATO — A IA E O DESENCANTO QUE AINDA PODERÁ CHEGAR
Há, entretanto, uma contradição inquietante: milhares de europeus protestam porque o trabalho já não lhes permite construir a vida que imaginaram, enquanto a inteligência artificial começa a transformar muitas das atividades das quais dependem. Se hoje muitos reclamam porque suas ocupações já não rendem o bastante, poderão as próximas gerações protestar pelo próprio direito de continuar a ter alguma utilidade no mercado de trabalho?
No livro Charada do Fim do Mundo, examinei a inteligência artificial diante da ética da nossa própria inteligência, preocupação que retomei ao estudar a automação do sistema de Justiça, inclusive em artigo publicado no Consultor Jurídico sobre experiências de Singapura e de uma comarca brasileira. Não se trata de negar vantagens técnicas, muitas delas extraordinárias, mas de perguntar quem conservará o poder de decidir e de escolher finalidades, controlar procedimentos e responder pelos resultados. Se sistemas passam a executar tarefas antes associadas à qualificação, ao discernimento e à experiência humana, a distribuição dos ganhos de produtividade poderá tornar-se inseparável de outra disputa, menos perceptível e, talvez por isso mesmo, mais profunda e perigosa: a de saber quem continuará participando, como sujeito e não apenas destinatário, do mundo que estamos construindo.
A renda básica universal aparece, nesse debate, como uma possibilidade de proteção material, mas não, jamais, como resposta completa e única. Temos mais necessidade do que apenas a subsistência e, se hoje o desencanto está em um trabalho que não garante o futuro, o amanhã poderá reservar a muitos uma sociedade sem trabalho nem voz, e isso é quase uma prisão sem grades.
ÚLTIMO ATO — ANTES QUE A CORTINA SE FECHE
Como no teatro, as consequências de um ato atravessam o seguinte, e as decisões europeias de hoje alcançarão gerações que viverão sob os efeitos da inteligência artificial, tornando ainda mais importante que a resposta às inquietações contemporâneas encontre o equilíbrio adequado, sem confundir a liberdade de manifestação com a licença para a violência, nem a preservação da ordem com o silenciamento da divergência, pois seria uma trágica ironia que uma civilização construída sobre a conquista das liberdades terminasse desafinando a ponto de buscar, na dureza e nas restrições que marcaram os tempos da cortina de ferro, a solução para problemas que exigem precisamente mais habilidade política, responsabilidade e capacidade de escuta.
Que a cortina deste último ato não desça, portanto, sobre uma sociedade silenciada, mas sobre uma democracia capaz de corrigir seus rumos e preservar, para aqueles que virão, a possibilidade de construir o próprio futuro, porque o progresso não será medido apenas pelo que nossas máquinas conseguirão fazer, mas também pela liberdade que os seres humanos conseguirão conservar.
*Rogério Reis Devisate é Advogado/RJ. Membro da Academia Brasileira de Letras Agrárias, da União Brasileira de Escritores e da Academia Fluminense de Letras. Presidente da Comissão Nacional de Assuntos Fundiários da UBAU. Membro da Comissão de Direito Agrário da OAB/RJ. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ.

