08-11-2026 às 14h20
Giovana Devisate*
Recentemente, tomei café da manhã com algumas amigas da escola. Nem sempre nos encontramos, mas quando nos vemos é sempre como voltar no tempo… Não no sentido de me sentir novamente com 15 ou 16 anos, mas no sentido de que, encontrá-las, é como se eu pudesse tocar novamente o conforto de uma época que não volta. Era um período que, enquanto vivíamos, não sabíamos que faria tanta falta.
Se ainda fôssemos bem jovens, a gente não precisaria tentar organizar a vida inteira, porque a nossa vida seria basicamente aquilo que vivíamos. A gente teria a sensação do futuro em aberto, como uma eterna reticência. Os problemas até pareceriam enormes, mas, hoje, veríamos como eram pequenos!
As longas férias de verão sempre teriam cheiro de maresia e protetor solar. As festas e sociais seriam muito mais sobre a gente, as bebidas, as músicas e o frio na barriga de quem sente que tem um mundo inteiro para desvendar.
O recreio seria o auge das manhãs porque poderíamos fofocar sobre os outros, os amores, as famílias… Faríamos piadas sobre nós mesmas, falaríamos sobre o futuro e os pequenos acontecimentos do dia a dia. Depois, continuaríamos o papo na sala até levar bronca dos professores. Então trocaríamos bilhetes ou mensagens, para não deixar o assunto morrer. Nessa época, a gente criaria as piadas internas que sobreviveriam até o para sempre das nossas amizades e falaríamos sobre os primeiros amores e desilusões, sem acreditar que alguém do grupo casaria com o mesmo namorado, dez anos depois.
A gente desejaria passar logo pelas semanas de provas e pelos testes semanais e compartilharia ideias e estratégias para facilitar os estudos. A gente ficaria para a monitoria e seria bom, porque teríamos mais tempo umas com as outras. A gente também falaria sobre o novo lançamento musical da banda favorita, os shows, as músicas, os artistas e ídolos de cada uma, os livros, as séries e os filmes… Em casa, revisaríamos matérias e estudaríamos sozinhas até não aguentar mais. À noite, sem a facilidade dos streamings de hoje, veríamos pelo menos um episódio de alguma série, mas o caçaríamos em sites como sériesonlinegrátis e sofreríamos com as abas de anúncios e a falta de tradução dos episódios recém lançados.
Nesse café da manhã recente com as minhas amigas, começamos uma conversa sobre viagens. Não temos mais longas férias de verão, mas ainda amamos passar o ano novo na praia. Ilha Grande, Ubatuba, Caraíva, Miami, Positano… Cada uma com um destino diferente, mas todas com a sensação de que ainda é possível ser feliz como antes, apesar de sermos adultas. Mais tarde, nesse mesmo dia, comecei a assistir The Summer I Turned Pretty.
Eu amo as séries adolescentes que me fazem adolescente de novo e, com streamings, as coisas ficam ainda mais fáceis e conseguimos não só assistir as séries que já amamos, como as séries que chegam e conquistam as novas (e velhas) gerações.
A minha, teoricamente, é a geração Z, mas já conversamos por aqui sobre como eu me considero muito mais millennial, por ter nascido em 1998, na virada das duas gerações. A minha pré-adolescência, por exemplo, foi com todos os programas da Disney, Gossip Girl e Pretty Little Liars (que nunca acabei de assistir). Um pouco mais velha, passei a amar Sex and the City, que pertence a geração X.
Cada série carrega um pouco do período em que foi feita e, claro, assistida. Tem as roupas, as músicas, as expectativas… Quando reassisto Gossip Girl, por exemplo, não revejo apenas uma história que já conheço, mas revisito uma época em que aquela história fazia parte da minha vida. Lembro da adolescência, mas me reconheço na série, no hoje! Penso que é legal demais assistir a mesma história aos 14 e aos 28 porque consigo pensar nos sonhos que tinha quando jovem e já consegui realizar e também em todos os outros, novos e velhos, que ainda não realizei. Reencontro sensações, expectativas e até mesmo preocupações que pareciam ter ficado para trás.
Às vezes, penso que amo mesmo as séries que se passam em Nova York, têm a moda como um personagem e abordam amores impossíveis. Em The Summer I Turned Pretty não tem moda e também não tem Nova York, mas tem amor (quase) impossível e o tipo de drama que faz a gente voltar para os nossos dilemas adolescentes que, na verdade, continuam existindo na vida adulta, só que de outras maneiras…
Esses dilemas apenas mudam de cenário, ganham outras consequências e formas de existência… Agora temos problemas exclusivos da vida adulta, mas dramas e relacionamentos não são exclusivos da adolescência. Aos 15, o futuro parece existir inteiro à nossa frente. Aos 28, ele já está acontecendo.
Talvez seja por isso que assistir a séries adolescentes na vida adulta seja tão gostoso: acompanhamos personagens que ainda estão diante de todas as possibilidades do amanhã, revisitamos não apenas as histórias que já vivemos, mas os sonhos, as expectativas e até as incertezas de uma época em que ainda não sabíamos quais caminhos íamos escolher. Será que sinto saudade das possibilidades que existiam quando tinha aquela idade?
Não quero que esse texto seja uma defesa excessivamente romântica da adolescência… Ela é muito difícil. Também não quero que o texto pareça uma sentença da vida adulta… Ela tem as suas delícias! Só que, ao ver a Belly crescer, percebi que a gente não supera quem a gente foi um dia. Mais velhos, não queremos voltar a ser quem éramos, mas, sim, continuar tendo acesso a tudo aquilo que nos fez ser quem somos.
Hoje, não temos mais as férias escolares, mas ainda temos as viagens. Não temos mais o recreio, mas temos os cafés da manhã. Não nos esbarramos nas festas, bebendo e achando que o amanhã é um dia distante, mas nos mantemos perto vivendo um hoje que merece aconchego. Não temos mais as manhãs na escola, mas temos cenrários e personagens absolutamente novos, que servem de assunto a cada novo encontro! Não acompanhamos as séries da mesma maneira, mas sempre podemos revisitar as nossas partes que habitam essas histórias, nas séries e nos filmes, mas que também permanecem nas amizades que construímos e que continuam nas nossas vidas
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

