Créditos: Divulgação
23-08-2026 às 11h30
Daniel Deslandes*
Em tempos de comunicação acelerada, palavras perdidas e muita cacofonia, a capital mineira ganha um convite singular para contemplar a própria essência da linguagem. A Galeria Minas Contemporânea, fincada no coração da Savassi, abre espaço para a exposição “CLAVERB”, nova série de artes visuais do artista, músico, arquiteto e poeta João Diniz. O que se apresenta ali é o exercício de reconstrução do sentido, onde a matéria bruta do aço, ferro e fuligem ganha a leveza da poesia visual.
A palavra-chave que dá título à mostra — uma fusão perfeita entre chave e verbo — revela a proposta de Diniz: transformar esculturas de aço em letras que, ao se encontrarem, dão corpo a vocábulos vitais como AR, PAZ, ATO, BIO, ECO e RIR. Há um sopro lúdico nessa dinâmica que remete ao frescor das primeiras descobertas da infância, quando aprender a ler era, acima de tudo, inventar. Mas não se engane o espectador desavisado: sob a aparente simplicidade, reside uma densa reflexão sobre a nossa própria identidade territorial e mineral, acerca do ferro que pulsa em nossas veias.
A oxidação e a textura rústica que marcam as peças não são casuais. Elas evocam a geografia das Minas Gerais, nossa ancestralidade siderúrgica e o inevitável dilema entre o progresso que constrói e os riscos do impacto ambiental. Ao moldar o aço para dar forma à arte e à poesia, João Diniz propõe uma redenção da própria matéria. O mesmo elemento associado à exploração pesada converte-se em veículo de delicadeza, cultura e reflexão. O ferro, tradicionalmente símbolo de dureza e rigidez, passa a ter voz.
Como bem sintetizou a artista multimídia, curadora e performer Andréa Dário sobre essa inquietação criativa do artista:
“Não importa o suporte, a linguagem, o processo criativo, o que o Artista Multimídia João Diniz faz o tempo todo é poesia. Seja no metal, no papel, na tela, nas linhas, nas entrelinhas, seja na ficção ou na ‘realidade mágica’, ele é um poeta com todos os sentidos. Nas horas vagas ou nas esquinas, está sempre arquitetando novas formas de estimular os nossos imaginários, seja nas imagens das palavras ou simplesmente nas palavras das imagens que brotam de seus silêncios ou de seus sons ou ruídos… Eu sou toda ouvidos! Porque sempre que nos toca, nos afeta, surpreende e transforma nossas percepções, e tudo que sentimos transborda generosamente.”
A percepção de Andréa ilumina com precisão a essência da mostra. Além disso, a exposição traz a beleza do diálogo intermidiático e das contaminações poéticas. Ao resgatar memórias de intervenções urbanas anteriores — como as instalações em Ouro Branco, Três Marias e o conhecido CUBOESIA no Palácio das Mangabeiras —, o artista estabelece ainda uma ponte sutil com o mestre Jorge dos Anjos. Onde a arte afro-brasileira de Jorge gravava os símbolos dos orixás, Diniz inscreve a arquitetura das letras, demonstrando que a criação artística é um fluxo vivo, contínuo e comunitário.
Como Presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão da OAB/Barro Preto, enxergo em “CLAVERB” uma celebração fundamental do direito primordial de manifestação. O verbo é o instrumento maior do pensamento livre e da democracia. Quando o artista o esculpe no aço e o coloca em espaço público, ele nos lembra de que a palavra não deve ser aprisionada nem banalizada, mas sim livre para fundar novas realidades.
Belo Horizonte celebra mais um encontro potente entre a forma, a matéria e a palavra. Uma exposição imperdível para quem busca reaprender a ler o mundo com sensibilidade e espírito crítico.
Serviço:
A exposição “CLAVERB”, de João Diniz, foi inaugurada em 8 de agosto na Minas Contemporânea – Gabinete de Arte (Rua Alagoas, 989, loja 14, Savassi). Visitação de segunda a sexta-feira, das 14h às 19h, e aos sábados, das 10h às 13h. Uma visita indispensável — de olhos atentos e mente aberta.
*DANIEL DESLANDES, advogado, Presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão da OAB/Barro Preto e Colunista do Jornal Diário de Minas

