Créditos: Divulgação
22-08-2026 às 09h34
Rogério Reis Devisate*
A expressão “mar de lama” ficou gravada na história política brasileira pela voz e pela pena de Carlos Lacerda, tornando-se uma das imagens mais poderosas da crise que culminaria no suicídio de Getúlio Vargas. Essa memória, de tempos em tempos, insiste em retornar e, por vezes, imagino o que aconteceria se Lacerda pudesse abrir os jornais, passar lentamente os olhos pelas manchetes e descobrir que, mais de setenta anos depois das tempestades políticas que ajudou a produzir, o Brasil continua oferecendo matéria-prima abundante para aquela expressão que marcou a crise final do governo Vargas.
Provavelmente se surpreenderia menos com as notícias do que com a velocidade delas, porque, no nosso tempo, uma denúncia mal começa a ser compreendida e outra já ocupa o seu lugar, uma investigação sucede a anterior, um personagem é substituído pelo seguinte e a indignação pública, submetida a essa espécie de rotação permanente, termina sofrendo um curioso processo de desinteresse e envelhecimento precoce: aquilo que nos escandalizou na segunda-feira parece antigo na sexta.
Nos tempos de Vargas, Lacerda encontrou no “mar de lama” uma imagem politicamente devastadora. Depois do atentado da Rua Tonelero, em agosto de 1954, quando a investigação alcançou pessoas ligadas à guarda pessoal do presidente, aquela expressão deixou de ser apenas retórica oposicionista e passou a compor uma crise que cresceu vertiginosamente até o suicídio. Lacerda era um adversário implacável, que fazia jornalismo e política quase com a mesma tinta, e aquela metáfora acabou condensando, em poucas palavras, toda a atmosfera de suspeição que cercava os últimos dias daquele governo.
O que ele diria, então, diante das investigações e suspeitas que, fartamente divulgadas pelos jornais, envolvem nomes importantes, reuniões e relações pessoais em circunstâncias que ainda precisam ser esclarecidas? Em um Estado de Direito, isso importa muito, pois investigação não é condenação, suspeita não significa culpa e nada autoriza uma sentença ou uma imunidade antecipada. Mas talvez o aspecto mais interessante esteja um pouco além desse episódio, porque o Brasil parece ter desenvolvido, ao longo dos anos, uma extraordinária capacidade de substituir crises sem necessariamente resolvê-las. Surge um escândalo, abre-se uma investigação, começam as discussões, dividem-se as torcidas, cada lado descobre razões jurídicas e morais para condenar os adversários e compreender os amigos e, quando talvez estivéssemos chegando ao momento de retirar alguma aprendizagem institucional do episódio, aparece outro, depois outro, depois mais outro. Mudam os governos, mudam os partidos, mudam os personagens e mudam os slogans, mas permanece a sensação de que estamos sempre começando a mesma conversa.
Isso nos faz andar em círculos, consumindo tempo, dinheiro e energia, enquanto existe outro Brasil, menos ruidoso, que não costuma figurar em manchetes tão emocionantes, mas continua vivendo todos os dias. É o Brasil da família que senta à mesa para decidir qual conta pagará primeiro; do trabalhador que percebe que o salário compra menos do que comprava — algo real, não mera sensação — e das empresas que pedem recuperação judicial, fecham lojas e demitem funcionários, enquanto outras adiam investimentos e projetos de crescimento porque o crédito custa demais; da indústria que precisa competir num ambiente internacional em que outros países defendem seus mercados, suas empresas, seus empregos e suas tecnologias com planejamento cada vez mais agressivo; é também o Brasil de uma infraestrutura que atravessa décadas entre projetos, revisões, aditivos e obras intermináveis, enquanto países que começaram em condições muito piores aprenderam que desenvolvimento resulta da acumulação paciente de foco e de boas decisões tomadas durante muito tempo.
Tenho escrito sobre isso porque alguns números deveriam provocar em nós um desconforto maior. O elevado endividamento das famílias, a perda acumulada do poder de compra, o custo do crédito, as dificuldades fiscais do Estado e a reduzida capacidade de transformar riqueza potencial em produtividade efetiva não vivem em compartimentos separados, pois, juntos, formam uma mesma paisagem econômica e social, na qual o cidadão trabalha muito, paga muito, espera muito e frequentemente recebe menos do que seria razoável esperar de um país com os recursos, o território e as possibilidades do Brasil. Por que continuamos a ser o país do futuro que não chega? Essa pergunta deveria ser feita todos os dias por cada um de nós.
E justamente agora, enquanto consumimos tanta energia nessas disputas, o mundo atravessa outra profunda transformação. A inteligência artificial deixa rapidamente de ser curiosidade tecnológica para alterar profissões, empregos, relações de trabalho e rotinas que, até pouquíssimo tempo atrás, pareciam protegidas da automação; ao mesmo tempo, as grandes economias reorganizam cadeias produtivas, disputam minerais estratégicos, energia, tecnologia, mercados e segurança alimentar, enquanto guerras convencionais convivem com as disputas comerciais e a velha globalização, que imaginávamos caminhar inexoravelmente para mercados cada vez mais abertos, encontra novamente tarifas, subsídios, barreiras e interesses nacionais.
O mundo, portanto, não está esperando que terminemos nossas brigas domésticas; e este talvez seja um dos aspectos mais graves da questão. Países também perdem tempo. E o tempo perdido por uma nação não aparece imediatamente numa conta bancária, embora termine aparecendo na renda das famílias, na escassez de empregos, no adiamento dos investimentos, na infraestrutura que não se completa, na educação que não melhora e nas expectativas das gerações seguintes. Uma estrada que demora décadas, uma ferrovia que atravessa governos sem terminar, uma escola que não prepara adequadamente uma criança, uma indústria que deixa de existir, uma tecnologia que não desenvolvemos e uma oportunidade comercial que desperdiçamos e que outro país soube aproveitar são derrotas silenciosas: não provocam a comoção de um escândalo político, mas podem custar muito mais. Talvez seja isso que mais deveria nos inquietar às vésperas de uma eleição.
Lemos muito sobre o que existe de errado com alguém ligado ao candidato A e, no dia seguinte, sobre aquilo que comprometeria alguém ligado ao candidato B; os jornais falam sobre quem acusou quem, quem respondeu, quem pediu investigação e quem ganhou ou perdeu alguns pontos nas pesquisas, mas ainda ouvimos pouco sobre questões muito mais difíceis, sobre como melhorar de fato a educação e a saúde, aumentar a produtividade do país, recuperar o poder de compra dos salários, enfrentar o endividamento, criar empregos e preparar milhões de trabalhadores para a inteligência artificial, fortalecer nossa indústria, competir numa economia mundial mais hostil e construir uma estratégia nacional próspera e duradoura.
A eleição não deveria servir apenas para escolher quem derrotará o outro lado.
Precisamos perceber que oportunidades não utilizadas também desaparecem e que riquezas mal administradas não garantem desenvolvimento. Petróleo, terras raras, solo fértil e bom clima são vantagens, mas não representam um projeto de país.
Volto, então, ao Lacerda imaginário do início destas linhas. Depois de percorrer as manchetes, talvez procurasse novamente a velha expressão que associou àquele ambiente do Palácio do Catete: “Mar de lama”? Pode ser. Mas, se permanecesse algum tempo olhando para as outras páginas do jornal — economia, emprego, tecnologia, educação, guerras, comércio internacional, famílias endividadas, empresas lutando para sobreviver —, talvez percebesse que a metáfora adquirira outro significado, porque o perigo da lama não está somente naquilo que ela suja, mas também naquilo que ela imobiliza.
E talvez essa seja a pergunta que deveríamos levar conosco para a próxima eleição, depois que todas as denúncias forem investigadas e todas as defesas forem ouvidas: enquanto discutimos incessantemente quem entrou no mar de lama, quanto tempo o Brasil continuará com os pés presos nele?

