Créditos: Divulgação
23-08-2026 às 10h20
Giovana Devisate*
Quando pensei no futuro, aos 10, 15, 20 anos, muita coisa era imaginada de forma diferente. A vida real, muitas vezes-quase sempre, não cumpre às expectativas. Ainda assim, consigo ter memórias muito definidas sobre algumas coisas, que podem ou não ter relação com a maneira como tudo foi se encaixando com o tempo.
Eu sempre fui artística, criativa, expansiva, ainda que dentro de mim mesma. Nunca fui super extrovertida, pelo contrário! Porém, sempre fiz amizade com facilidade e me dei bem com a grande maioria das pessoas que cruzaram o meu caminho. Quando menor, era mais divertida e, acho, sabia me divertir mais também. A gente perde certa leveza conforme crescemos. Acredito que isso faça parte…
Lembro que, quando era bem pequena, a minha irmã ganhou uma câmera fotográfica. Se não me falha a memória, ela era rosa, talvez de algum personagem que costumávamos assistir naquele tempo. A câmera, de filme ainda, bem com cara do início dos anos 2000, foi deixada em algum lugar que tive acesso. Eu era mais baixa, menor, mais nova, apesar da pequena diferença de idade entre nós duas, e provavelmente não tinha idade para ganhar uma câmera ainda. Acho que minha irmã tinha uns 7 anos e, eu, uns 5 ou 6 aninhos.
Nesse dia, usei um filme inteirinho fotografando o quarto de brinquedos que eu e minha irmã ocupávamos tão lindamente em casa. Lembro que levei bronca, claro! Afinal, como pude pegar o que não me pertence e ainda gastar um filme inteiro fotografando qualquer coisa?
Não sei por qual razão fiz isso, até porque foi há mais de 20 anos! Ainda assim, pensei nisso esses dias, porque dia 19 de Agosto é comemorado o Dia Mundial da Fotografia, algo que, apesar de ter existido de maneiras distintas ao longo da minha história, sempre fez parte dela.
Tenho muitas fotos da infância, o que considero um imenso privilégio. Meus pais cuidaram de registrar todas as etapas da gente. Tem alfabetização da minha irmã e minha, tem viagens, tem a família inteira reunida no natal e em aniversários… Tem a gente em dias comuns, brincando no quintal fantasiadas de princesas da Disney, abraçada com a vovó na cadeira da varanda, com o papai, com a mamãe e amiguinhas que nem sempre lembro o nome. Acho lindo como os meus pais fizeram questão de encapsular o tempo, para que possamos revisitá-lo e para que nunca esqueçamos do que passou. Foi lindo.
A fotografia é como uma máquina do tempo, mas não do tipo bizarro como é mostrado nos filmes de ficção científica. É diferente, uma máquina do tempo que age no campo da memória, do afeto, da história, com o registro do tempo que se transporta para o futuro e que, no futuro, nos faz voltar para o passado: um momento, um abraço, um sorriso, um som, um cheiro, um dia feliz em uma viagem, um dia comum na casa que a minha infância habitou.
Para além de nós, a fotografia registra fatos históricos, acontecimentos de ordem mundial, coisas que mudam o rumo da humanidade… Antigamente, a história se valia de pinturas e ilustrações e, depois da criação da câmera fotográfica, a técnica foi sendo usada nessas situações.
Uma forma de nunca esquecermos disso é quando pensamos nas imagens da Guerra Civil Americana, por exemplo, que mostram os horrores do período. Também, a famosa foto de 14 de Agosto de 1945, que retrata um beijo não consensual entre um homem e uma mulher, em Nova York, no dia da rendição do Japão. Além de tudo sobre a história, o momento, essa fotografia representa como funcionava a sociedade em meados do século XX.
Aqui no Brasil, um grande caso é o da Guerra de Canudos. O fotógrafo espanhol Juan Gutierrez acompanhou o exército brasileiro, até morrer em 1897. Na expedição seguinte, em agosto do mesmo ano, quem assumiu o posto foi o baiano Flávio de Barros, que fez duas das fotos mais famosas do conflito: a da rendição dos canudenses e a do corpo do Antônio Conselheiro.
Recentemente, por ter ficado tanto tempo sem sair por aí com a minha câmera, me dei conta de que são poucas as coisas que realmente gosto de fazer como fotografar. Quando comecei, mais nova, era uma brincadeira. Até que, em uns anos, comecei a fazer vários cursos e, quando percebi, estava dentro da Escola de Artes Visuais Parque Lage, tradicional aqui no Rio de Janeiro. Na Escola, fui acolhida, incentivada e, mais importante, encorajada a testar novas técnicas, o que me permitiu redescobrir o meu próprio processo criativo e definir, de certa forma, a estética do que faço.
Outro dia, em um livro, a personagem dizia ter fotografado a saudade. Acho que fazemos isso mesmo através das imagens, eternizando o amor, tanto de quem aparece nos momentos registrados ou o amor, nobre como é, de quem aperta o disparador.
Há 14 anos eu ando com uma câmera por aí, registrando o que merece destaque e o que quero que exista para além da minha memória. É com a fotografia que dou corpo ao que os meus olhos registram em mim. Como já disse no meu Instagram, @giovanadevisate, é através da fotografia que compartilho com o outro os pequenos e delicados pedaços do meu mundo. É da sensibilidade do meu olhar, do meu sentir, do meu existir, que nasce a missão que, quando lembro daquela história da infância, entendo que sempre fez parte de mim.

