Créditos: Divulgação
24-10-2026 às 13h38
Giovana Devisate*
Já com o computador aberto, pensava em mil temas sobre os quais poderia desenvolver em um artigo. Sem saber sobre o que escrever, fui até uma estante e peguei um livro que se destaca entre os outros por causa da capa preta de tecido acetinado.
O livro, só de citações do Alexander McQueen, me convida de tempos em tempos para uma visita. O estilista britânico, um gênio da moda, sempre me fez pensar sobre o lado oculto das coisas, exatamente por ser polêmico, subversivo, sensível e absurdamente crítico sobre o mundo… Ao folhear o livro, pensei em algo que não pude deixar escapar da folha em branco: o que a gente não quer ver também faz parte da vida, da cultura e da nossa verdade.
Achei ótimo pensar nesse tema porque não queria mesmo escrever sobre qualquer coisa que fosse, explicitamente, relacionada à política. Estamos todos falando, ouvindo, lendo, assistindo sobre isso constantemente e, na semana do segundo turno, merecemos escapar um pouco dessa loucura. A gente sai para votar no domingo, faz a nossa parte e o resto é cena dos próximos capítulos… O resultado não depende de mim ou de você, exclusivamente, mas do coletivo, da maioria. É assim que funciona em uma república democrática.
Voltando ao que interessa nesse espaço de fuga do mundo insano em que vivemos: McQueen era um ícone que presenteava o seu tempo (e todos os que viriam a seguir) com desfiles marcantes, questionadores e performáticos. Ele criava desfiles excêntricos, absolutamente grandiosos e polêmicos, que são referenciados até hoje pela importância, revolução e impacto, mesmo após 16 anos da sua morte.
McQueen, para se encaixar no sistema, precisou bater o pé para manter a sua estética e identidade. O outro caminho era abraçar as maneiras de fazer e pensar das grandes marcas e abrir mão, até um certo ponto, de si mesmo como designer. Fez isso até onde foi possível suportar, preferindo estar à frente da sua própria marca… Lá ele podia imaginar e criar todos os mundos que quisesse.
As roupas das coleções que criava eram impactantes, mas as performances e os desfiles que as apresentavam marcavam ainda mais a vida dos espectadores. McQueen referenciava diversas fontes em um mesmo fashion show e dizia que não fazia um coquetel, pois preferia que as pessoas saíssem vomitando dos desfiles… Tudo marcava o espectador. Ou melhor, invadia: ele se comunicava com a alma das pessoas e preenchia todos os vazios ali existentes até transbordarem de emoção.
Ele dava forma às coisas que as pessoas queriam esconder, como as relacionadas à guerra, à religião, ao sexo… Eram os temas obscuros e difíceis que o atraíam. Aqueles para os quais, de certo modo, a sociedade insistia em não olhar. As coisas nas quais todos pensam, mas evitam trazer à tona.
Ele prestava atenção nos movimentos sociais e no que ficava de fora. Ele produzia exatamente o que iria chocar e marcar a vida de quem assistia. Ele se sentia atraído pela violência da natureza, pelos aspectos sombrios do sexo, pelo sadomasoquismo, pelo impulso da raiva no seu processo de criação, pelo poder, pela violência, pelo desejo, pela crueldade, pela obsessão, pelas contradições humanas…
Adoro McQueen e estudo sobre ele e suas performances artísticas há anos. Inclusive, esse foi o tema do meu TCC da faculdade de História da Arte, na EBA/UFRJ. O ponto aqui, no entanto, não é falar dele, mas usar de sua forma de criar para falar sobre as coisas ocultas… Ele conseguia ser a pessoa que provoca as expressões desesperadas nos espectadores. Ele criava para expelir os seus demônios, sabendo que quem assiste o que ele cria também os têm.
Isso me faz pensar em como somos todos muito sonsos. Alguns conceitos são definitivos, de fato, mas ninguém é bom o tempo todo ou mau o tempo todo. Não somos categorias fixas e tampouco existe uma linha universal que separa o bem do mal em todas as situações. Aquilo que considero bom pode ser visto como ruim por outra pessoa e vice-versa, porque nossos julgamentos também são atravessados pelos valores e pelas visões de mundo que construímos. Estamos muito acostumados a organizar o mundo entre belo e feio, bom e mau, aceitável e inaceitável, certo e errado, como se essas divisões fossem sempre evidentes e universais.
Não questionando, de forma alguma, os princípios constitucionais – e é por isso que defendo que cada um tem a liberdade de ter sua própria opinião, desde que respeite os direitos dos outros e os limites do Estado democrático de direito. No entanto, o que acontece quando aquilo que considero ruim é justamente o que outra pessoa pensa ser bom? Esquecemos que existem coisas que moram entre cada um desses conceitos… Entre o 8 e o 80, existem dezenas de números. Entre o preto e o branco, existe uma escala inteira de tons cinzas, do mais claro ao mais escuro.
O feio e o belo, por exemplo, são conceitos relativos. O que é feio para mim pode ser bonito para você. Ainda assim, apesar disso, a sociedade têm consensos sobre o que é feio ou belo… O grotesco, como representante do feio, rompe com a imagem organizada. O grotesco chama mais atenção que o belo porque é muito mais fácil lidar com o belo do que com o desconforto da imagem do absurdo, daquilo que te faz questionar o mundo, as pessoas, os sistemas…
Quando um desfile ou uma obra de arte coloca diante dos nossos olhos aquilo que, por tanto, não sabíamos que existia em nós, temos o choque como primeira reação. Repulsa. Desconforto. É mais fácil rejeitar a imagem do que tentar entender porque ela nos incomoda tanto. No entanto, é olhando para esses incômodos que entendemos mais sobre nós mesmos, em esferas antes não imaginadas.
Olhar para o que fica oculto não significa que concordamos com essas coisas ou de fato as desejamos, mas significa reconhecer que elas existem e que fazem parte do mundo em que vivemos, das relações que estabelecemos e da cultura que compartilhamos, onde ninguém é nada 100% do tempo o tempo inteiro.
McQueen não se interessava pelo confortável. Ele queria revolucionar a geração sem ser agressivo, apenas instigando reflexões, fazendo com que cada um lidasse por conta própria com o desconforto que surgisse ao assistir os seus desfiles.
A arte, assim como a moda, têm essa função de dar forma ao que não sabemos ou não conseguimos nomear. Ou ao que preferimos não admitir. Nem toda provocação é profunda ou toda imagem chocante tem algo a dizer, mas às vezes, aquilo que mais queremos afastar da nossa vista é justamente o que merece ser examinado com mais atenção em nós.

