18-10-2026 às 09h42
Mauro Bomfim*
Pacote de Bondades 1: O pacote de bondades do governo Lula no ano eleitoral de 2026 pode ter um impacto de 178 bilhões de reais. As medidas vão desde o fim da taxa das blusinhas, passando pelo Desenrola 2.0, reajuste do Bolsa Família, Move Brasil (táxis e apps), até o Perdão Fiscal das MEI e o Pix MEI. Um saco de bondades que coloca no chinelo o antológico Samwise Gamgee, de O Senhor dos Anéis, celebrado por sua bondade genuína, lealdade inabalável e pureza de coração, guiado pelo amor aos amigos e pelo desejo de proteger o que é bom no mundo. Mas e a Lei Eleitoral? A Lei 9504 não proíbe a criação de programa novo em ano eleitoral. Ah, a lei eleitoral. Esta a gente “encomprida para os amigos e encurta para os adversários”, na célebre máxima da política, onde vale tudo e o maior crime é perder eleição.
Pacote de Bondades 2: Lula superou todos os governantes em matéria de programa novo durante o ano da eleição. Tudo sob as barbas do Tribunal Superior Eleitoral. É bem verdade que em 2022, Bolsonaro era também candidato à reeleição e concedeu o ‘voucher caminhoneiro’, o aumento do Auxílio Brasil, o bolsa taxista e a compensação financeira à cadeia produtiva do etanol. O impacto orçamentário da época foi de 68 bilhões, muito abaixo do pacotão de Lula. E o mais interessante é que em 2022 Bolsonaro perdeu a eleição.
Eleição e mineração: Apenas o peru morre de véspera. Atordoado, com uma boa dose de cachaça, na véspera do Natal. Numa eleição presidencial, porém, o imponderável é a tônica. Ainda mais em clima de empate técnico no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Clima do já ganhou, salto alto, cantar vitória antes da hora, são cenas de um filme que sempre se repete na telinha do processo eleitoral. Em 1985, ficou conhecido o episódio do candidato a prefeito de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso posando para foto sentado na cadeira de prefeito, no Gabinete da Prefeitura da capital paulistana, em verdadeiro clima do “já ganhou”. O vencedor, porém, foi Jânio Quadros, 39% a 35%. Com a vitória nas mãos, o extravagante professor de Português, Jânio Quadros, com suas próclises e mesóclises, em mais uma de suas marcas registradas ironizou o adversário ao se deixar fotografar limpando a poltrona, não sem antes dizer que que estava “desinfetando” o móvel do Gabinete porque “nádegas indevidas a usaram”. Daí, a salomônica sabedoria da política mineira ao advertir os desavisados: “Eleição e mineração, só depois da apuração”.
Leito de Procusto 1: O debate final da Globo, que este ano está previsto para 23 de outubro de 2026, sexta-feira que antecede ao segundo turno, logo após o Jornal Nacional, mais uma vez pode se transformar em verdadeiro leito de Procusto, armadilha fatal, seja para o candidato ausente ou o presente que protagonizar momento que pode viralizar, positiva ou negativamente. Um dos mais emblemáticos encontros foi entre Collor e Lula em 1989, na primeira eleição presidencial direta com o fim do regime militar e a transição Tancredo\Sarney. Atribui-se ao então editor de Política da TV Globo, Ronald de Carvalho e ao mineiro Alberico Souza Cruz, então diretor de telejornais, a tarefa de ter feito uma edição mais ampla do debate nas partes em que Collor se saiu vitorioso. A era da televisão reinava isoladamente. A Globo era a onisciente e onipresente. O impacto foi brutal em milhões de telespectadores. Collor venceu nas urnas e até os dias de hoje a polêmica edição é assunto que vem à baila nos meios políticos e televisivos.
Leito de Procusto 2: Estou a evocar a figura do leito de Procusto, modesto estudioso da mitologia grega que sou. Procusto vivia em Elêusis, na região da Ática. Era um bandido sádico, muito alto e forte, que forçava seus convidados, viajantes cansados, a se acomodarem no seu leito de ferro. Mas à medida em que o hóspede ia se ajeitando na cama, parte de seu corpo era amputando. Se o visitante fosse alto demais e sobrasse na cama, Procusto cortava suas pernas ou cabeça. Se o hóspede fosse pequeno e não preenchesse o tamanho da cama, ele o esticava ou quebrava seus ossos para igualá-lo ao leito. Esse terror da Ática somente chegou ao fim quando Procusto foi capturado e executado pelo herói ateniense Teseu, que aplicou nele o mesmo castigo, cortando sua cabeça e seus pés.
Leito de Procusto 3: Esse é o cenário que povoa os dias que antecedem ao último debate presidencial na Rede Globo. O mito de Procusto simboliza a violência da uniformidade forçada, a recusa da diversidade e a intolerância contra quem pensa ou age de forma diferente. O debate é exatamente o espaço do contraditório. Do respeito à opinião do outro. O seu direito que começa quando termina o do outro. Difícil é lidar com esse panorama num país dividido pelo “apartheid” político, clima de ódio e de barbárie nas milícias e patrulhas digitais. A alegoria de Procusto é lembrada para descrever situações em que a realidade, as pessoas ou as ideias são violentamente distorcidas ou mutiladas para se ajustarem a um padrão, regra ou teoria rígida e artificial.
Em tempo de figos não há amigos
10. As explicações que se oferecem às inúmeras frases em que entra
a palavra figo são também infinitas, a começar pelo ficus vult – o “quer
figos” com que em Atenas e em Roma se respondia aos lisonjeiros.
Não diremos nada aqui acerca desta variedade.
A locução portuguesa é bem antiga. No Pranto de Maria Parda:
Olhade, molher de bem,
Dizem que em tempo de figos
Não ha hi nenhuns amigo
*Mauro Bonfim é advogado com especialização em direito administrativo, constitucional, tributário e municipal; é jornalista, radialista; foi assessor especial da Constituinte Mineira e consultor da ALMG

