Ilustração - créditos: IA
22-10-2026 às 13h38
Daniela Rodrigues Machado Vilela*
Se diz que Zeitgeist, em sentido literal: Zeit (tempo) e Geist (espírito), seria “o espírito do tempo”, referindo-se àquele conjunto de ideias, ideais e valores que influenciam de modo contundente o comportamento de uma sociedade em um determinado tempo histórico. Seria uma espécie de força invisível motora, tendências perceptíveis e imperceptíveis que movem as consciências. Termo este amplamente usado por Hegel na filosofia e, anteriormente, criado, por Johann Gottfried Von Harder.
Este “espírito de uma época” dita modos de ser e agir, uma mentalidade e uma maneira de entender e perceber a realidade, regras de convivência escritas e não escritas, seja no mercado de consumo, nas artes, nos comportamentos, nos modos de se trabalhar e em várias outras searas da vida. Ou seja, há de modo peculiar em cada época, uma espécie de clima cultural, intelectual, social e político. Há quem considere este “espírito do tempo” como uma espécie de “lente invisível” através da qual o povo de um dado momento histórico enxerga o que considera como ético, o padrão de normalidade e desejabilidade do comportamento humano.
Um dos grandes desafios para percepção deste “espírito coletivo comportamental” diz respeito ao distanciamento. Se o homem está inserido no tempo histórico, imerso neste, não é fácil notar esta força motora do próprio tempo.
Do ponto de vista do mundo do trabalho, no caso dos trabalhadores plataformizados, “o espírito do tempo” parece ser o de uma proclamada e ilusória maior liberdade para se fazer dinheiro bruto e somado a isto, uma inexistência ou ineficiência de amparo social. Por exemplo, no caso dos motoristas de carro de aplicativo estes se percebem auferindo maiores ganhos financeiros imediatos, porém, muitas vezes, não contabilizam as despesas presentes e o necessário capital para envelhecer com segurança financeira, o que resulta numa alienação quanto a sua condição de fato.
A classe trabalhadora anda despolitizada. De um modo geral, a consciência de classe que é a capacidade do indivíduo de se reconhecer com clareza na posição real da escala socioeconômica que ocupa, tão proclamada por Marx, anda esquecida, apequenada. Uma parcela da classe trabalhadora ainda é assalariada, porém, grande parte dos trabalhadores vivem de bicos, sem carteira assinada ou direitos em geral. Mas se veem como microempreendedores e não como trabalhadores precarizados que são.
Outro aspecto da sociedade hodierna, é que boa parte do povo não contabiliza o que usa ou recebe do Estado, acha que está tudo dado e que sempre será assim, quando na verdade, as políticas públicas adotadas são escolhas dos governantes. Nada é gratuito neste cálculo, pois o Estado escolhe onde empregar recursos e isto tem um custo de investimento e demanda a cobrança de impostos, assim como a alocação dos recursos estatais para esta ou aquela prioridade. Há na economia, do ponto de vista macroeconômico, assim como no microeconômico uma curva de escassez de modo que os recursos são finitos, esgotáveis, já as necessidades infinitas. Desta feita, Estados escolhem onde investir, assim como cada indivíduo estabelece prioridades.
O tempo presente inspira na sua composição um amontado de “espíritos de porcos”, porque caracteriza-se como um momento histórico marcado por muita inconsequência e leviandade. O ser humano está apequenado, mesquinho, rancoroso, não suporta o sucesso alheio, só pensa em matar e encarcerar. Está cruel, ranzinza. É um estraga-prazeres, que reclama de tudo e pouco realiza. É negativo em demasia e nada empático. Palavras como humanidade, solidariedade e coletivismo estão fora de moda. Tudo se resume a empreender, merecer, conseguir. Como se a vida fosse uma corrida na qual é normal passar por cima dos outros, arrematar ganhos indiferente a tudo e todos. É como se a lógica do presente estivesse inclinada para um vale tudo e um salve-se quem puder do tipo: “se o pirão é pouco, o meu primeiro”.
É preciso e urgente que a sociedade incentive outros níveis de comportamento mais elevados para que a consciência social evolua e o ser humano se “humanize” verdadeiramente.
Enfim, que mais pessoas busquem desenvolver sabedoria e benevolência. Que o coração do homem se aqueça de amor ao próximo. Que lide com o que chega de olhar atento e não busque, incessantemente, viver reforçando o próprio viés de confirmação.
Que a educação do sujeito se forje com um viés formativo pleno e não apenas enquanto acumulação de conhecimentos técnicos. É tempo de restabelecer um educar para as virtudes, que preze pelo aperfeiçoamento do caráter.
É necessária uma tomada de consciência rumo a um genuíno sentimento de alteridade, de forma que todos se compadeçam da pobreza do mundo, e da própria. O coletivo necessita, urgentemente, ganhar proeminência sobre o individual. A desigualdade social deve ser tomada como problema estrutural e as políticas públicas adotadas devem estar a serviço de uma busca por soluções que tenham a finalidade precípua de aperfeiçoar a vida das pessoas e não de apenas encher os bolsos de alguns.
Há um local de potência do sujeito e ser sábio consiste em saber ler os sinais do caminho, os bastidores das situações e ainda assim, conseguir jogar o jogo da vida. Todo ser tem suas particularidades e, isto não pode o isolar do mundo. É preciso construir uma identidade, acreditar e lutar não só pelo próprio bem, mas ter senso de coletividade.
O cenário brasileiro, configura-se enquanto polarizado, instável, de grande fragmentação social e “o espírito do tempo” é também uma questão de direcionamento. Que a sociedade se oriente para um senso de humanidade.
O futuro se constrói dia-a-dia, se faz de tijolo a tijolo, que possa o indivíduo superar a própria pequenez interna e viver de modo permanentemente preocupado com educação, saúde e empregos de qualidade. Que construa em si mesmo um espírito elevado e se oponha ao obscurantismo. O coração do sujeito não deve ser um adorno, mas fonte do sentir, que possam todos entender que não há respostas prontas, mas, indiscutivelmente, a última instância de um ser evoluído é a compaixão para consigo e os outros e um ânimo de fazer o bem com generosidade e solidariedade, contra qualquer forma de opressão, desigualdade e desumanidade.
*Doutora, Mestra e Especialista em Direito pela UFMG. Cursou dois anos de Residência Pós-doutoral pelo PPGD-UFMG (Programa de Pós-Graduação em Direito da UFMG). Presidente da Comissão de Direito Premial Trabalhista, Compliance e Inteligências Aplicadas da OAB-MG, subseção Barro Preto. Professora Universitária. Aficionada por pintura e diletante na arte da vida.

