17-10-2026 às 12h00
Araciara Macedo para o Diário de Minas
A tecnologia anda numa velocidade tão absurda que, se a gente piscar os olhos, corre o risco de virar peça de museu sem nem perceber. E eu descobri isso da maneira mais cruel possível: dentro da minha própria casa, durante uma faxina.
Quando minha filha Anna Ariel nasceu, os discos de vinil já estavam praticamente aposentados. O CD era a grande sensação do momento, moderno, bonito e com aquela promessa de que a música nunca mais teria chiado. O vinil, coitado, já tinha sido promovido a relíquia. Mas, como boa guardadora de coisas que um dia poderiam ser úteis, eu ainda tinha alguns discos antigos escondidos nos meus guardados.
Vai que um dia eu precisasse deles, não é mesmo? A gente nunca sabe quando vai precisar de um disco do Chico Buarque ou de qualquer outra preciosidade musical que sobreviveu a várias mudanças de endereço, reformas e crises de desapego.
O tempo passou, e Anna Ariel chegou aos oito anos. Um belo dia, resolvi fazer uma faxina naqueles guardados. A missão era simples: separar o que prestava, jogar fora o que não servia e abrir espaço para novas tralhas. Porque, convenhamos, a gente faz faxina para se livrar das coisas, mas sempre acaba encontrando um motivo sentimental para guardar tudo de novo.
Foi aí que começou a viagem no tempo.
Primeiro, apareceu um velho toca-fitas. Ariel olhou para aquilo com a mesma expressão de quem encontra uma nave espacial caída no quintal. Depois vieram algumas fitas cassete, aquelas que a gente rebobinava com uma caneta quando a fita enroscava. Tentei explicar, mas percebi que minha filha me olhava com uma mistura de curiosidade e pena. Parecia pensar: “Coitada da mamãe! Ela viveu numa época muito difícil”.
Em seguida, surgiram as fitas de vídeo. Aquelas enormes, que a gente colocava no videocassete e rezava para não mastigar a fita inteira. Expliquei que, antigamente, para assistir a um filme, era preciso ter o aparelho, a fita e uma boa dose de paciência.
Ariel continuava impressionada, mas nada se comparou ao momento em que encontrei os discos de vinil.
Peguei um deles e entreguei à menina. Ela segurou a capa, abriu, retirou o disco e começou a examiná-lo. Virava de um lado, olhava do outro, observava o tamanho, o buraco no meio, os riscos fininhos que percorriam toda a superfície. Eu, quieta, esperando que ela reconhecesse aquela maravilha que já embalou tantas histórias de amor, festas de família e tardes de domingo.
A menina examinou mais um pouco. Parecia uma cientista diante de uma descoberta revolucionária. Eu quase podia imaginar os pensamentos passando pela cabecinha dela.
De repente, ela arregalou os olhos e soltou, com a espontaneidade de quem acabara de descobrir a pólvora:
— Égua, do cedesão!
Pronto! Foi ali que minha juventude acabou oficialmente.
Na cabeça de Anna Ariel, aquele disco enorme não passava de um CD em tamanho família. Uma espécie de cedesão, uma versão gigante, talvez para tocar músicas mais compridas ou para gente que gostava de ouvir som em volume maior.
Fiquei olhando para ela, sem saber se ria, chorava ou procurava meu documento de identidade para confirmar a minha idade. Tantos anos de história musical, tantos artistas, tantas lembranças guardadas naqueles sulcos, e minha filha resumiu tudo a um CD que tinha exagerado na academia.
O pior é que, do ponto de vista dela, fazia todo sentido. Se existia o CD pequeno, por que não poderia existir o CD grande? Afinal, ela já tinha nascido num mundo em que a tecnologia fazia tudo parecer mágico. A música estava no computador, no celular, na internet. Bastava apertar um botão e pronto! Nenhuma agulha, nenhuma vitrola, nenhum cuidado para não arranhar o disco.
Como explicar que, antes de a música morar na nuvem, ela já tinha morado em discos, fitas e aparelhos que ocupavam metade da sala?
Naquele dia, aprendi duas coisas. A primeira é que a tecnologia não espera ninguém. A segunda é que os filhos têm uma capacidade extraordinária de nos transformar em peças de exposição sem a menor intenção de ofender.
Hoje, basta eu mencionar uma fita cassete para imaginar Ariel perguntando se era um pen drive antigo. Se eu falar em videocassete, talvez ela pense que era uma impressora de filmes. E, se eu mostrar uma vitrola, corre o risco de perguntar onde fica a entrada USB.
O engraçado é que, quando eu era menina, achava meus pais antigos demais. Eles contavam histórias de um mundo que parecia ter existido antes da invenção da roda. Eu escutava, sorria e pensava que aquelas coisas nunca fariam parte da minha realidade.
Pois é. O tempo passou, e agora sou eu quem precisa explicar como o mundo funcionava antes de tudo virar digital.
E pensar que, para ouvir uma música antigamente, a gente precisava escolher o disco, tirar a poeira, colocar na vitrola, posicionar a agulha com todo o cuidado e torcer para que o gato não resolvesse passear em cima do aparelho.
Hoje, a juventude escolhe uma música com um toque na tela. Se não gostar, pula para outra. Se gostar, salva numa playlist. Se a internet cair, pronto: instala-se uma tragédia internacional.
Eu sobrevivi ao vinil, à fita cassete, ao videocassete, ao CD, ao DVD, ao MP3 e a tantas outras invenções que mal tive tempo de aprender a usar antes de serem substituídas.
Mas confesso que nenhuma dessas mudanças me fez sentir tão velha quanto ouvir minha filha chamar um disco de vinil de “cedesão”.
Naquele instante, tive vontade de guardar o disco novamente, junto com as fitas, o toca-fitas e o restante da minha dignidade.
Afinal, se aquilo era um cedesão, eu só podia ser uma senhora do tempo dos dinossauros musicais. E o pior é que, se a tecnologia continuar avançando nesse ritmo, daqui a alguns anos meus netos vão encontrar meu celular antigo numa gaveta, olhar para ele com espanto e perguntar:
— Vovó, isso era um telefone ou uma televisão portátil?
Nesse dia, não vou explicar nada. Vou apenas respirar fundo, pegar meu disco de vinil e responder:
— Meu filho, respeite a história! Isso aqui é um cedesão dos bons!
E, se alguém perguntar por que estou rindo sozinha, direi que é saudade.
Saudade da época em que a gente ficava velha aos poucos, sem que a tecnologia entregasse a nossa idade numa faxina de domingo.
*Araciara Macedo é diretora de Jornalismo do grupo de comunicação “A Gazeta do Amapá”.

