Créditos: Divulgação
25-10-2026 às 15h47
Rogério Reis Devisate*
Outrora, os exércitos marchavam exibindo seus estandartes, identificando seus agrupamentos e anunciando a disposição para o combate. A imagem bem representa a antiga Europa de guerras sucessivas, onde bandeiras, insígnias e uniformes distinguiam soldados, demonstravam poder, reuniam tropas e intimidavam adversários. Cada símbolo representava uma autoridade, causa ou pertencimento pelo qual se esperava que seus portadores lutassem e, se necessário, morressem. É curioso perceber como, guardadas as diferenças, algumas imagens daquele passado encontram correspondência em nossos dias.
Bandeiras nas janelas, faixas nas ruas, camisas com símbolos e cores, manifestações de apoio e rejeição, mensagens nos telefones, tudo compondo um ambiente em que a identificação política parece exigir demonstrações permanentes e busca por aprovação. Essas cenas não se limitam às eleições, repetindo-se há anos, através de governos e campanhas, como se estivéssemos incorporados a exércitos imaginários, incumbidos de defender posições, afrontar adversários, proteger lideranças e vigiar o outro lado. Não estamos numa guerra, evidentemente, mas seus símbolos e sua linguagem de confronto passaram a ocupar espaços antes reservados a outras situações.
Há um cansaço que nasce dessa mobilização prolongada, distinto daquele decorrente do trabalho, da idade ou das preocupações habituais. É o desgaste de viver num ambiente em que até a tranquilidade parece alcançada pelas disputas políticas, presentes nas conversas familiares, nos encontros entre amigos, nas mensagens recebidas e naquele silêncio desconfortável que surge quando certos assuntos deixam de ser vistos como naturais ou bem-vindos. Parece que todos estamos em julgamento permanente! Às vésperas do segundo turno presidencial, é crível que muitos brasileiros experimentem esse sentimento, menos pelas normais divergências do que pela dificuldade de descansar dos seus efeitos.
Houve um tempo em que os cabos eleitorais eram pessoas ligadas a partidos e candidatos, encarregadas de distribuir propaganda, organizar reuniões e conquistar votos durante as campanhas. Não estamos dizendo que a política brasileira tenha conhecido permanente cordialidade, pois outras disputas também foram marcadas por paixões e intolerâncias, mas percebemos que algo mudou.
E quantos porta-estandartes surgiram! Cidadãos sem experiência política organizada assumem a defesa de candidatos como se dela dependesse a própria identidade, transformando divergências em questões de fidelidade pessoal. O antigo cabo eleitoral procurava conquistar adesões, enquanto muitos dos novos militantes espontâneos parecem precisar proteger lideranças até de críticas pertinentes, como se reconhecer um equívoco representasse deslealdade. Isso significa perda de senso crítico e a escolha eleitoral, que deveria permitir examinar as qualidades e limitações daqueles que pretendem governar, aproxima-se da relação dos admiradores com seus ídolos, embora a responsabilidade pública não se confunda com admiração pessoal.
Com alguma frequência tenho citado esses pensadores em nossos artigos, pois são absolutamente pertinentes os ensinamentos de Freud, em Psicologia das massas e análise do eu, quando examinou os vínculos afetivos entre integrantes de grupos e lideranças, enquanto Erich Fromm, ao investigar liberdade, insegurança e pertencimento, ajuda a compreender como a identificação coletiva pode oferecer proteção sem dispensar a autonomia individual. Charles Wright Mills permite refletir sobre a distância entre os centros de decisão e a efetiva participação do público, ao passo que Georges Balandier destaca os símbolos na representação do poder. São perspectivas distintas, mas que ajudam a compreender como uma preferência política pode transformar-se em demonstração de fidelidade, como se abandonar uma bandeira significasse deixar o próprio grupo.
Essa transformação dispensa formal participação partidária, bastando, muitas vezes, um telefone celular, grupos de mensagens e disposição para compartilhar notícias que confirmem convicções anteriores. De fato, a facilidade para encaminhar mensagens pelos aplicativos telefônicos é um fator do nosso tempo e um inovador mecanismo de engajamento político, sem que seja preciso sequer pisar nas ruas. Mas, com isso, a campanha começa ao despertar e prolonga-se até a hora de dormir, enquanto o cidadão se converte em cabo eleitoral permanente, não por designação de alguém, mas porque passou a considerar essa atividade uma obrigação pessoal, exercida diante de familiares, colegas e desconhecidos.
É como se as campanhas já não tivessem prazo de duração, pois, embora existam datas para propaganda e votação, a mobilização atravessa mandatos e governos, sem que se identifique quando uma disputa termina e outra começa. Os antigos cabos eleitorais recolhiam suas bandeiras depois das eleições, enquanto muitos dos atuais defensores conservam os estandartes erguidos, como se cada acontecimento significasse vitória para uns e derrota para outros. Talvez esteja aí uma das razões desse cansaço, pois é possível descansar de uma atividade que termina, mas não de uma disputa sem intervalos.
Não significa que o Brasil esteja dividido em duas metades homogêneas, comprometidas com suas candidaturas, pois existem diferentes graus de entusiasmo, dúvida, insatisfação e afastamento da política. Entretanto, a intensidade dos grupos mobilizados transmite a impressão de campos inconciliáveis, como se ninguém pudesse permanecer fora de suas fileiras. Até controvérsias institucionais, como a decisão do STF na ADI 5.889, que modificou dispositivo legal votado pelo Congresso Nacional relativo à impressão do registro individual dos votos eletrônicos, integram divergências que ultrapassam candidaturas e alcançam a confiança nas instituições.
Talvez uma das consequências mais penosas seja transformar o interlocutor em adversário, pois a pessoa com quem compartilhávamos lembranças, dificuldades e afetos passa a ser identificada por sua preferência eleitoral, como se sua individualidade se resumisse à bandeira que carrega. A discordância compromete relações construídas ao longo dos anos, fazendo com que alguns evitem encontros, outros procurem assuntos neutros e muitos descubram que até o silêncio pode ser interpretado como preferência. Quem não deseja participar dos confrontos também experimenta seus efeitos, pois nem sempre consegue afastar-se de uma disputa presente em tantos ambientes.
Hannah Arendt, ao examinar a vida política e a pluralidade humana, oferece elementos para compreender a importância da convivência sem unanimidade, o que não significa recomendar indiferença, pois as decisões públicas interferem no trabalho, na segurança, na saúde, na educação e nas expectativas futuras. O problema não está em acompanhar os acontecimentos ou defender ideias, mas na dificuldade de estabelecer limites entre o interesse pelo país e a transformação da vida cotidiana em sucessivos confrontos.
Há uma circunstância que agrava nosso desgaste: a eleição terminará, mas os sentimentos que desperta nem sempre obedecem ao seu calendário. Concluída a apuração, haverá um resultado institucionalmente definido, sem que desapareçam imediatamente animosidades, desconfianças e palavras que talvez não devessem ter sido pronunciadas. Os candidatos continuarão suas trajetórias, os partidos reorganizarão seus interesses e os governos enfrentarão problemas administrativos, enquanto as pessoas permanecerão nas mesmas famílias, bairros e ambientes de trabalho, convivendo com aqueles de quem eventualmente se afastaram.
Nenhuma vitória eleitoral transformará todos os brasileiros em apoiadores do vencedor, assim como a derrota não retirará dos demais cidadãos o direito de conservar convicções e participar da vida pública. A democracia pressupõe convivência entre diferentes, sem exigir unanimidade para pertencer à comunidade nacional, razão pela qual precisamos recuperar a capacidade de discordar sem transformar divergências em hostilidade permanente.
O cansaço parece estar não apenas nas notícias ou na agressividade das discussões, mas na necessidade de permanecer preparado para defender posições, responder a provocações ou justificar escolhas, mesmo quando desejamos conversar sobre outros assuntos, compartilhar uma refeição ou desfrutar de silêncio. Não deveríamos carregar tantas bandeiras para demonstrar interesse pelo Brasil, nem transformar cada encontro numa disputa para provar fidelidade às nossas convicções.
Quando o segundo turno terminar, seria desejável aceitar que a eleição escolherá um governante, mas não nossos familiares, amigos e vizinhos, nem resolverá, sozinha, os problemas que exigirão esforços comuns. Talvez precisemos aprender a recolher nossos estandartes sem abandonar convicções, porque até os exércitos de outrora podiam encerrar suas marchas e regressar aos seus lugares, enquanto nós continuaremos vivendo uns ao lado dos outros, sem que nossas diferenças precisem converter a convivência numa guerra que nunca termine.

