Créditos: Divulgação
14-04-2026 às 07h00
Anna Marchesini*
O Brasil acordou em abril de 2026 em banho-maria.
Não ferve, não esfria. Juros altos segurando o preço do arroz, mas segurando também o sonho da casa própria. PIB que cresce 1,8% e a gente comemora como se fosse 4%. Dólar que dá uma trégua, inflação que disfarça, e o bolso do mineiro que continua fazendo conta na ponta do lápis antes de passar no caixa.
É o país do “quase”. Quase dá pra contratar. Quase dá pra investir. Quase dá pra respirar sem olhar o aplicativo do banco três vezes por dia.
E no meio desse “quase”, tem eleição batendo na porta. Outubro vem aí. E com ele, aquela sensação de que todo problema de quatro anos vai ser resolvido em quatro meses de promessa. Prefeitura, Câmara, Assembleia. Todo mundo vira especialista em ponte, asfalto e “cuidar das pessoas”.
O brasileiro não é bobo. Ele só é cansado. Cansado de ser pauta só de dois em dois anos. Cansado de ouvir que “o melhor está por vir” enquanto o melhor que chega é o boleto.
Nas ruas de Contagem, a conversa é a mesma de Belo Horizonte, do Espírito Santo e do resto do país: “Vai melhorar?”. A resposta vem em relatório do Banco Central, em projeção de economista, em “espera que 2027 será melhor”. Mas o menino que tá com fome hoje não come projeção. A mãe que perdeu o emprego não paga aluguel com gráfico.
E ainda assim, o Brasil anda. Devagar, em banho-maria, mas anda. O comércio vende. A indústria produz minério, petróleo, gás. O agro não para. O pequeno empresário abre a porta todo dia às 7h mesmo devendo imposto. Porque se ele parar, o país para. E ninguém quer ser o primeiro a desligar a máquina.
2026 é o ano do “segura mais um pouco”. Segura o juro. Segura o funcionário. Segura a esperança.
Só que tem uma hora que banho-maria vira fervura ou vira gelo. Não tem meio termo pra sempre. Uma hora o país vai ter que decidir se cresce pra valer ou se acostuma com o morno.
E essa decisão não tá só em Brasília. Tá no vereador que vota orçamento. Tá no prefeito que escolhe onde gastar. Tá no empresário que decide se arrisca mais uma vaga de emprego. Tá em mim e em você, quando a gente decide se reclama ou se age.
Banho-maria conserva. Mas não cozinha futuro.
Abril começou. Outubro tá logo ali. O Brasil tá olhando pro termômetro e esperando alguém mexer no fogo.
*Anna marchesini é Educadora e Palestrante

