FIA - Fundação Instituto de Administração; renomada escola de negócios e consultoria brasileira - créditos: divulgação
30-05-2026 às 09h00
IBEVAR-FIA Business School para Redação do Diário de Minas
O CENÁRIO
A extinção da escala 6×1 — que permite ao empregador escalar o trabalhador por seis dias consecutivos com apenas um de folga — promete ser um dos debates trabalhistas mais complexos dos últimos anos. Mas além das trincheiras ideológicas, há números concretos em jogo: um estudo técnico acaba de calcular quanto essa mudança pode custar à economia brasileira, e o resultado é expressivo.
O varejo, setor que emprega milhões de brasileiros e responde por 7% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, seria o principal absorvedor do choque. A razão é estrutural: shoppings, supermercados e farmácias operam frequentemente sete dias por semana, com jornadas de 10 a 14 horas diárias. Reduzir os dias trabalhados cria uma lacuna imediata na operação — e preenchê-la tem custo.
Para o Presidente do IBEVAR e Professor da FIA Business School: “O varejo não para. Quando o funcionário folga, alguém precisa ocupar o balcão.”
A CONTA IMEDIATA
Se a mudança for implementada de uma vez — o que os pesquisadores chamam de ‘implantação imediata’ —, a perda de geração de riqueza no varejo variaria entre 3,6% e 6,1%, dependendo do segmento e do porte da operação. O setor de tecidos, vestuário e calçados seria o mais impactado nas pequenas lojas: queda de 6,1%. Os postos de combustíveis estruturados em rede seriam os menos afetados: 3,6%.
Impacto na geração de riqueza — implantação imediata
| Segmento | Pequenas | Grandes Redes | % do PIB |
| Supermercados | -5,9% | -5,0% | 2,80% |
| Tecidos, vestuário, calçados | -6,1% | -5,0% | 0,60% |
| Material de construção | -5,6% | -4,7% | 0,60% |
| Material de escritório | -5,5% | -4,6% | 0,20% |
| Móveis e eletrodomésticos | -5,5% | -4,6% | 0,60% |
| Informática e comunicação | -5,3% | -4,4% | 0,40% |
| Automóveis | -5,0% | -4,1% | 1,00% |
| Combustíveis e lubrificantes | -4,6% | -3,6% | 0,80% |
Fonte: Estudo ‘Impacto da Mudança da Escala 6 por 1 na Geração de Riqueza pelo Varejo’
O mecanismo é matemático. O varejo físico depende de dois fatores de produção — trabalho e capital — e as margens do setor são historicamente estreitas. Um choque repentino nos custos de folha de pagamento dificilmente consegue ser absorvido pelo caixa. A consequência mais provável, apontam os pesquisadores, é o repasse ao consumidor: produtos mais caros e pressão inflacionária.
Para as grandes redes, há uma válvula de escape que o pequeno comércio não tem: a automação. Supermercados já operam com dezenas de caixas de self-checkout. O pequeno comerciante de bairro não tem esse fôlego financeiro — e pode simplesmente fechar as portas.
O IMPACTO NO PIB
Redução mínima estimada de 0,32 ponto percentual do PIB no cenário de implantação imediata
Considerando que o varejo de bens representa cerca de 8% do PIB brasileiro, a redução na geração de riqueza do setor se traduziria em uma queda de pelo menos 0,32 ponto percentual do PIB — apenas pelas operações varejistas. Não estão contabilizados efeitos indiretos sobre fornecedores, logística e consumo.
E SE A MUDANÇA FOR GRADUAL?
O estudo também projeta um cenário alternativo: a implantação ao longo de dez anos, o que daria tempo para que empresas e trabalhadores se adaptassem. Nesse caso, o impacto dependeria do ritmo de adoção de tecnologia e do crescimento da produtividade do setor.
Três situações foram modeladas: conservadora (produtividade crescendo 0,25% ao ano), realista (1,25% a.a.) e otimista (2,5% a.a.). Em todas elas, a perda existe — mas diminui com o tempo e com a modernização das operações.
Impacto no PIB (pp.) — cenário de 10 anos
| Ano | Conservador (0,25% a.a.) | Realista (1,25% a.a.) | Otimista (2,5% a.a.) |
| 1 | 0,32% | 0,32% | 0,31% |
| 3 | 0,32% | 0,31% | 0,30% |
| 5 | 0,32% | 0,30% | 0,28% |
| 7 | 0,31% | 0,29% | 0,27% |
| 10 | 0,31% | 0,28% | 0,25% |
Fonte: Estudo ‘Impacto da Mudança da Escala 6 por 1 na Geração de Riqueza pelo Varejo’
No cenário otimista — com forte consolidação do setor, automação ampla em centros de distribuição e lojas, e inteligência artificial integrada a toda a operação —, o impacto cai de 0,31 ponto percentual no primeiro ano para 0,25 no décimo. Ou seja: mesmo no melhor dos mundos, a perda não desaparece. Ela encolhe.
O QUE ESTÁ EM JOGO
O debate sobre a escala 6×1 não é apenas trabalhista — é econômico. A questão central, como aponta o estudo, é a produtividade: se a redução de jornada vier acompanhada de ganhos tecnológicos e organizacionais, o custo pode ser absorvido ao longo do tempo. Se vier de forma abrupta, sem adaptação, o risco é transferir o ônus para quem compra — o próprio trabalhador que a medida pretende proteger.
O varejo brasileiro está diante de uma equação delicada: mais descanso para quem trabalha, sem esvaziar as prateleiras — e o caixa — de quem vende.
Sobre a FIA Business School – Criada em 1980, a FIA Business School é referência entre as escolas globais de negócios do Brasil e da América Latina. Atua em educação executiva, pesquisa e consultoria com soluções customizadas para organizações do setor privado e público – uma referência no Brasil e no mundo. Porque ensina você a transformar conhecimento em resultados que mudam o jogo – no mundo dos negócios e na sociedade. Sua fundação se deu por professores da Faculdade de Administração, Economia e Contabilidade (FEA-USP) com a missão de desenvolver e disseminar o conhecimento e as melhores práticas em Administração. Os MBAs da FIA são credenciados pela AMBA (Association of MBAs), sediada em Londres e, desde 2004, frequenta as publicações internacionais de melhores MBAs, e EuropeanCEO. A graduação em Administração de Empresas foi avaliada pelo ENADE como a melhor em Administração em Negócios na cidade de São Paulo, e alcançou por três vezes consecutivas 5 estrelas na avaliação do Guia do Estudante.
Sobre o IBEVAR – O IBEVAR – Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo é referência em pesquisas e conteúdos sobre Varejo e Consumo e principal plataforma de relacionamento de executivos do setor. Realiza mais de 40 pesquisas periódicas anuais que contribuem com o mapeamento do setor, como projeções relacionadas a vendas e intenção de compra, inflação e inadimplência, além de realizar pesquisas de tendências das principais datas sazonais e comemorativas do Varejo e de proporcionar a capacitação contínua de profissionais do setor por meio de parcerias educacionais. Fundado em 2009, a organização, que reúne mais de 19 mil associados e tem como missão ser uma Instituição que congregue executivos e executivas de varejo, indústria e serviços, promovendo relacionamento profissional e social aos executivos que atuam direta ou indiretamente no mercado de varejo e consumo no Brasil. Nesse sentido, além de celebrar junto ao mercado o reconhecimento às empresas posicionadas no Ranking anual IBEVAR – FIAem variadas categorias do varejo, desenvolveu também o Prêmio de Inovação para estimular a criação de projetos inovadores e apresentar ao mercado soluções para os desafios do Varejo. E ainda, cria debates relevantes e networking de alto nível nos Encontros Temáticos e Encontros com Varejistas, eventos que acontecem periodicamente ao longo do ano.

