Créditos: Divulgação
15-04-2026 às 09h15
Anna Marchesini*
Tem casa em Minas que tem mais diploma na parede que comida na geladeira.
Abril de 2026 e o Brasil formou outra leva de gente. Engenharia, direito, marketing, pedagogia. Festa, beca, foto com canudo. No dia seguinte, currículo impresso e a frase que ninguém ensina na faculdade: “aceitamos seu cadastro no banco de talentos”.
O jovem sai da faculdade com festa e entra no mercado com fila. Fila do estágio não remunerado. Fila do “precisa ter experiência”. Fila do “manda por e-mail que a gente avalia”. O diploma vira porta-retrato da esperança e o boleto vira relógio marcando a urgência.
A gente vendeu pro menino que estudar era o caminho. E é. Mas esquecemos de avisar que o caminho tá esburacado, sem sinalização e com pedágio em cada esquina. Ele chega no destino e descobre que a porta só abre por dentro. E quem tá dentro não atende.
Não é falta de estudo. É sobra de promessa. O país formou doutor e não formou vaga. Formou currículo e não formou oportunidade. Aí o menino com MBA vira motorista de app. A menina com duas pós vira atendente de loja. E ninguém tá errado. Todo trabalho é digno. O problema é quando o sonho paga 5 anos de faculdade e recebe de volta um “você é qualificado demais pra essa vaga”.
Em 2026, o Brasil discute juro e PIB. Mas devia discutir o que fazer com uma geração que fez o dever de casa e ganhou nota vermelha na vida. Não é sobre dar emprego. É sobre não mentir no enunciado da prova.
Se a gente não abrir porta, o menino pula muro. Vira MEI, vira informal, vira “dá seu jeito”. E dá. Brasileiro é especialista em dar jeito. O triste é um país depender do jeito e não do projeto.
Diploma na parede é orgulho. Boleto na geladeira é realidade. O dia que os dois conversarem sem gritar, a gente cresce pra valer.
Até lá, parabéns aos formandos. E força. Porque o canudo não vem com mapa. Vem com fé. E fé, graças a Deus, o mineiro tem de sobra.
*Anna Marchesini é Educadora e Palestrante

