Senador Cleitinho, Deputado Federal Patrus Ananias, Kalil e Mateus Simões - créditos: divulgação
13-08-2026 às 15h40
Por Samuel Arruda*
A sucessão no governo de Minas Gerais chega a uma fase decisiva com um cenário ainda aberto, mas marcado por uma vantagem clara nas pesquisas: o senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, lidera a corrida, enquanto Alexandre Kalil, Patrus Ananias e o governador Mateus Simões aparecem disputando espaço na faixa intermediária. Flávio Roscoe, empresário e ex-presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), corre por fora e ainda enfrenta o desafio de tornar seu nome conhecido do eleitorado.
A pesquisa Genial/Quaest divulgada em 28 de julho, realizada com 1.482 eleitores mineiros, mostra Cleitinho com 35% das intenções de voto no principal cenário estimulado. Kalil aparece com 12%, Patrus com 10%, Mateus Simões com 6% e Roscoe com 2%. A margem de erro é de três pontos percentuais.
O dado mais importante, porém, talvez esteja além da liderança de Cleitinho: 88% dos entrevistados não apontaram espontaneamente nenhum candidato. Isso indica que, apesar de algumas candidaturas já estarem consolidadas, a eleição ainda está longe de estar decidida.
E há outro componente que pode pesar na campanha: a lembrança de administrações anteriores. Nesse aspecto, o nome de Patrus Ananias representa uma espécie de parâmetro histórico para parte do eleitorado de Belo Horizonte. Prefeito entre 1993 e 1996, Patrus deixou o cargo com avaliação positiva, segundo pesquisas da época, graças a uma combinação de participação popular, políticas sociais e serviços públicos.
Cleitinho: a força da política de confronto
Senador desde 2023, Cleitinho Azevedo construiu sua imagem política principalmente pela comunicação direta, pelas redes sociais e por uma postura de oposição a estruturas tradicionais da política. Natural de Divinópolis, ele iniciou sua trajetória como vereador e deputado estadual antes de chegar ao Senado.
Seu principal patrimônio eleitoral é justamente a identificação com o eleitor que se sente distante da política profissional. Cleitinho fala uma linguagem popular, aposta em vídeos curtos e frequentemente se apresenta como alguém de fora da estrutura tradicional de poder.
O resultado aparece com força na pesquisa: 46% dizem conhecê-lo e votar nele, enquanto 20% o conhecem, mas afirmam que não votariam. É, entre os cinco nomes analisados, o candidato com maior potencial de voto.
Mas sua candidatura também carrega vulnerabilidades.
A principal crítica é justamente a dúvida sobre a passagem de uma atuação parlamentar e de fiscalização para a complexidade administrativa de um Estado com orçamento bilionário, dívida elevada, centenas de municípios e uma máquina pública extensa.
O próprio senador reconheceu recentemente que a demora em decidir pela candidatura prejudicou sua articulação política. Cleitinho chegou a anunciar que não disputaria o governo, voltou atrás e acabou sendo oficializado pelo Republicanos. O episódio abriu espaço para o PL lançar Roscoe, dividindo parte do campo político que pretendia se apresentar como alternativa à esquerda.
Cleitinho rebate as críticas sobre falta de experiência administrativa dizendo que pretende montar uma equipe técnica e negociar com o governo federal uma solução para a dívida mineira.
O eleitor que simpatiza com Cleitinho vê nele coragem, autenticidade e independência. O eleitor crítico enxerga risco de improvisação e excesso de confronto.
Mateus Simões: experiência de governo, mas com a marca de Zema
Mateus Simões representa o extremo oposto. Advogado, professor e político com experiência dentro da máquina pública, ele foi vice-governador de Romeu Zema e secretário-geral de Governo antes de assumir o Palácio Tiradentes em março de 2026, após a saída de Zema para disputar a Presidência.
Seu discurso é o da continuidade com aperfeiçoamento. Simões procura apresentar-se como alguém que conhece as contas, os problemas administrativos e a estrutura do Estado por dentro.
Essa experiência, porém, é também sua principal dificuldade eleitoral.
Na prática, o eleitor não separa facilmente Mateus Simões do legado de Zema. Ele próprio se apresenta como responsável por dar continuidade ao projeto iniciado pelo ex-governador.
Críticos, especialmente setores ligados ao funcionalismo e à oposição, acusam Simões de representar uma visão de Estado mais enxuta, de ampliar concessões ao setor privado e de manter uma política considerada excessivamente rígida nas relações com servidores.
A dívida de Minas é outro ponto sensível. Simões defende a negociação feita pelo Estado e questiona os adversários que criticam os termos do acordo sem apresentar alternativas.
Os números mostram um problema de conhecimento: 58% dos entrevistados pela Quaest disseram não conhecer Simões; 30% afirmaram conhecê-lo e votar nele, enquanto 12% o conhecem, mas não votariam.
Ou seja: Simões tem uma rejeição relativamente baixa entre os que o conhecem, mas precisa transformar conhecimento administrativo em identificação eleitoral.
Flávio Roscoe: o empresário que tenta transformar liderança industrial em voto
Flávio Roscoe entra na disputa com um currículo muito diferente dos demais. Empresário do setor têxtil, foi presidente da FIEMG e licenciou-se da entidade para entrar na corrida eleitoral. A candidatura ao governo representa sua primeira experiência direta em uma eleição.
Roscoe pretende levar para o governo a lógica empresarial: competitividade, ambiente de negócios, atração de investimentos, redução de burocracia e aproximação com o setor produtivo.
Sua aliança com o PL, entretanto, colocou a candidatura dentro do campo bolsonarista. O deputado Nikolas Ferreira tornou-se um de seus principais apoiadores, e a escolha de Ellen Miziara, ligada ao PL Mulher e próxima de Michelle Bolsonaro, para vice reforçou essa identidade política.
O problema de Roscoe, segundo a pesquisa, é elementar: ele ainda é pouco conhecido.
Em julho, 75% dos mineiros diziam não conhecê-lo. Apenas 16% afirmavam conhecê-lo e votar nele, enquanto 9% o conheciam e rejeitavam seu nome.
Seu desempenho no principal cenário era de apenas 2%, embora, sem Cleitinho, chegasse a 4%.
A crítica central que deverá acompanhá-lo na campanha é a pergunta sobre a transição entre a gestão de uma entidade empresarial e a administração de um Estado. Gerenciar uma federação de indústrias é muito diferente de governar Minas Gerais, que precisa conciliar saúde, educação, segurança, infraestrutura, servidores, municípios e políticas sociais.
Por outro lado, Roscoe pode tentar ocupar o espaço do eleitor que deseja um perfil empresarial sem necessariamente apoiar uma política baseada exclusivamente na polarização ideológica.
Alexandre Kalil: a experiência de prefeito que ainda divide opiniões
Alexandre Kalil chega com uma vantagem que poucos adversários possuem: já governou uma das principais cidades do Estado.
Ex-presidente do Atlético Mineiro, Kalil foi prefeito de Belo Horizonte entre 2017 e 2022 e construiu uma imagem de gestor pragmático, de linguagem direta e pouca preocupação com os rituais tradicionais da política.
Na pesquisa Genial/Quaest, ele tem 30% de potencial de voto e 39% de rejeição entre aqueles que o conhecem. É o maior índice de rejeição entre os cinco nomes analisados.
Isso revela uma característica importante do eleitorado: Kalil é conhecido, mas seu conhecimento não se converte automaticamente em voto.
As críticas à sua gestão municipal passam pelo transporte público, pela relação conflituosa com a Câmara Municipal e pela redução dos recursos destinados ao Orçamento Participativo. Estudo sobre o OP em Belo Horizonte apontou que os valores empenhados na gestão Kalil ficaram entre os mais baixos da série histórica.
Também houve questionamentos envolvendo contratos, CPIs e questões fiscais relacionadas ao ex-prefeito, temas que Kalil contesta.
Na campanha atual, Kalil tenta recuperar sua imagem de administrador e se apresentar como alternativa de centro. Em sabatina realizada nesta quinta-feira, ele defendeu a necessidade de diálogo para enfrentar a dívida estadual, criticou a administração Zema e afirmou ser contrário à privatização da Cemig.
Há, entretanto, uma ironia eleitoral: Kalil disputa espaço justamente com a memória de outro ex-prefeito de Belo Horizonte, Patrus Ananias.
Patrus Ananias: a memória de uma administração que virou referência
Patrus Ananias é um caso diferente. Sua força eleitoral não está apenas na estrutura partidária ou na comunicação digital, mas na memória de uma experiência concreta de governo municipal.
Eleito prefeito em 1992, Patrus administrou Belo Horizonte de 1993 a 1996. Implantou o Orçamento Participativo, ampliou políticas de segurança alimentar, criou o Restaurante Popular, desenvolveu programas de combate à pobreza e promoveu mudanças na saúde e na educação.
Uma pesquisa publicada pela Folha no final de 1996 mostrou que 59% dos moradores avaliavam sua administração como ótima ou boa, enquanto apenas 7% a classificavam como péssima. A nota média foi de 6,9.
Outra fonte histórica registra que Patrus deixou a prefeitura com aprovação ainda maior, de 85%. As diferenças entre os levantamentos decorrem de metodologia e momento da pesquisa, mas ambos apontam para uma conclusão comum: a avaliação final de seu governo foi fortemente positiva.
O Orçamento Participativo é talvez o símbolo mais forte desse legado. Entre 1993 e 1996, cerca de 96 mil pessoas participaram das discussões que resultaram na aprovação de 427 obras em áreas como saúde, educação, saneamento, pavimentação e urbanização.
Patrus também levou para a administração uma característica que contrasta com boa parte da política contemporânea: a construção de políticas públicas por meio de instituições, conselhos, participação comunitária e planejamento.
É justamente essa comparação que pode ganhar força durante a campanha.
O que os números dizem sobre a reação dos mineiros?
A fotografia atual é paradoxal.
Cleitinho tem a maior intenção de voto, mas a eleição ainda possui enorme contingente de eleitores sem decisão. Na pesquisa espontânea, ele aparece com apenas 6%, enquanto Kalil, Patrus e Simões têm 1% cada. Roscoe não chega a 1%. 88% não escolheram espontaneamente nenhum nome.
Nos cenários estimulados, entretanto, Cleitinho salta para 34% ou 35%.
Sem Cleitinho, o cenário muda radicalmente: Kalil aparece com 15%, Patrus com 13% e Simões com 9%, todos dentro de uma disputa muito mais equilibrada.
O segundo turno também revela diferenças importantes:
- Cleitinho 44% x Kalil 29%;
- Cleitinho 46% x Patrus 31%;
- Cleitinho 46% x Simões 15%;
- Simões 30% x Kalil 29%;
- Simões 30% x Patrus 30%.
Esses números sugerem que a eleição não será simplesmente uma disputa entre esquerda e direita. Existe também uma disputa entre experiência administrativa, rejeição à política tradicional, identificação ideológica e capacidade de comunicação com o eleitor comum.
O fator Patrus
Patrus apresenta um fenômeno curioso. 29% dizem conhecê-lo e votar nele; 35% o conhecem, mas não votariam; e 36% ainda não o conhecem.
Isso significa que sua candidatura tem dois lados.
De um lado, existe uma memória positiva de sua passagem pela Prefeitura de Belo Horizonte, sobretudo entre eleitores que valorizam políticas sociais, participação popular e serviços públicos.
De outro, Patrus enfrenta o desgaste do próprio PT e a distância temporal de seu governo municipal. Para parte dos eleitores mais jovens, seu período na prefeitura pertence a uma época anterior às redes sociais, à atual polarização política e aos problemas contemporâneos do Estado.
A questão para sua campanha será, portanto, transformar memória em proposta.
Em vez de apenas recordar o prefeito dos anos 1990, Patrus precisará convencer o eleitor de 2026 de que a experiência daquele período pode ser adaptada a uma Minas marcada pela dívida, pela crise fiscal, pelas dificuldades na saúde, pela segurança pública e pela necessidade de investimentos.
Uma eleição entre estilos de política
O quadro atual coloca diante do eleitor mineiro cinco estilos bastante diferentes.
Cleitinho representa a política de confronto e comunicação popular.
Mateus Simões representa a continuidade administrativa e o conhecimento da máquina pública.
Flávio Roscoe oferece o perfil empresarial e liberal, mas ainda precisa conquistar conhecimento eleitoral.
Alexandre Kalil aposta na experiência de gestão municipal e no pragmatismo, embora carregue rejeição elevada.
Patrus Ananias oferece experiência política acumulada e uma memória de administração municipal associada a participação social e políticas públicas.
O eleitor, contudo, ainda não deu sua palavra final.
A pesquisa mais recente disponível mostra que a liderança de Cleitinho é consistente, mas também revela um eleitorado altamente aberto à mudança. Sem Cleitinho, três nomes entram em disputa muito mais equilibrada. E mesmo com sua presença, há uma parcela expressiva de indecisos e eleitores que ainda não consolidaram sua escolha.
Nesse ambiente, a campanha deverá responder a uma pergunta que pode ser mais importante do que a polarização nacional: quem tem condições de transformar experiência, discurso e promessas em resultados concretos para Minas?
É aí que a comparação com Patrus pode ganhar importância. O ex-prefeito de Belo Horizonte não deixou apenas slogans ou vídeos de campanha. Deixou uma experiência de governo que, décadas depois, ainda é lembrada por indicadores de aprovação e por políticas públicas que se tornaram referência.
Para Cleitinho, Simões, Roscoe e Kalil, o desafio será demonstrar que também possuem capacidade de entregar resultados. Para Patrus, o desafio será provar que uma experiência política iniciada nos anos 1990 ainda pode responder aos problemas de Minas em 2026.
A eleição, por enquanto, está longe de definida. O que já está definido é a exigência do eleitor: menos promessa e mais prova de capacidade para governar.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

