Candidatos à presidência da República, Flávio Bolsonaro e Lula, candidato a reeleição - créditos: divulgação
14-08-2026 às 09h40
Por Samuel Arruda*
A eleição presidencial de 2026 entra em sua fase decisiva com um cenário que, até poucos meses atrás, parecia menos provável: Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro consolidaram-se como os dois nomes mais competitivos da corrida ao Palácio do Planalto. Lula mantém a dianteira na maioria das pesquisas de primeiro turno, mas Flávio reduziu a distância e, em alguns levantamentos, aparece tecnicamente empatado com o presidente em uma eventual segunda rodada.
Ao mesmo tempo, existe uma contradição que pode definir a eleição: os dois candidatos concentram votos, mas também concentram rejeição.
A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta semana mostra Lula com 40% e Flávio com 35% no primeiro turno. No segundo turno, o resultado é de 47% para Lula contra 44% para Flávio, dentro de uma disputa muito mais apertada do que a diferença do primeiro turno poderia sugerir.
Outro levantamento recente, da Palver, apontou Lula com 44% e Flávio com 40% no primeiro turno e empate de 46% a 46% em uma eventual segunda rodada. Já a CNT/MDA encontrou uma vantagem maior para Lula: 42,4% contra 28,7% no primeiro turno.
A fotografia, portanto, não é de uma eleição decidida. É de uma disputa em movimento.
Lula aposta na experiência, na economia e na ampliação do centro
Nos bastidores da campanha petista, a estratégia é transformar a vantagem de Lula em algo maior do que a simples força do eleitorado tradicional do PT.
A candidatura foi oficialmente confirmada com Geraldo Alckmin novamente como vice. A composição preserva uma fórmula que procura falar simultaneamente com a esquerda, o centro político e setores empresariais. O PT também conseguiu reunir os partidos do campo progressista em torno de Lula já no primeiro turno, algo que a legenda apresenta como demonstração de unidade.
Mas o principal movimento de Lula parece estar justamente fora de sua base tradicional.
O novo programa de governo adota um tom mais conciliador em relação ao agronegócio. A proposta reconhece a importância econômica do setor e fala em crédito, inovação, modernização produtiva e apoio à produção rural. É uma tentativa evidente de reduzir resistências entre produtores e eleitores conservadores que não necessariamente se identificam com o PT.
A lógica eleitoral é simples: Lula não precisa apenas preservar o lulismo; precisa diminuir o antibolsonarismo e, principalmente, conquistar parte do eleitor que não quer votar em nenhum dos dois polos.
Há, porém, um problema.
A rejeição ao presidente continua elevada. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 5 de agosto, 52% disseram que não votariam em Lula de jeito nenhum. Flávio apareceu ainda pior, com 54%.
Isso significa que a vantagem de Lula não é necessariamente uma demonstração de entusiasmo majoritário pelo governo. Em parte, ela também é resultado da resistência de uma parcela do eleitorado ao campo bolsonarista.
Flávio tenta transformar a eleição em um plebiscito contra Lula
Do outro lado, Flávio Bolsonaro trabalha para fazer da disputa uma eleição menos sobre sua própria trajetória e mais sobre a avaliação do governo Lula e a continuidade do projeto político associado à família Bolsonaro.
A escolha do deputado Alfredo Gaspar para vice é reveladora. A chapa exclusivamente ligada ao PL abriu mão, pelo menos neste momento, de uma composição mais ampla com setores do chamado Centrão. Gaspar traz para a campanha temas como segurança pública, combate à corrupção e a investigação sobre fraudes no INSS, além de possuir origem política nordestina.
A aposta é importante porque o Nordeste continua sendo uma das maiores fortalezas eleitorais de Lula.
Flávio precisa, portanto, fazer duas coisas simultaneamente: manter a enorme fidelidade do eleitorado bolsonarista e ampliar sua votação entre eleitores que não são bolsonaristas convictos.
Esse é talvez o maior desafio da candidatura.
A pesquisa BTG/Nexus mostra Flávio com 50% de rejeição, contra 48% de Lula. Em outras palavras, o senador conseguiu crescer eleitoralmente, mas ainda carrega um nível de resistência muito alto.
O risco para Flávio é transformar a eleição em uma repetição automática do confronto Bolsonaro x Lula. Isso mobiliza sua base, mas pode assustar justamente o eleitor que será decisivo em um segundo turno.
O paradoxo: os dois maiores candidatos são também os mais rejeitados
É aqui que aparece o elemento mais interessante da eleição de 2026.
Lula e Flávio lideram a corrida, mas estão entre os candidatos com maior rejeição. Isso revela que uma parcela significativa do eleitorado não está escolhendo necessariamente seu candidato favorito; está escolhendo aquele que considera menos ruim ou mais capaz de derrotar o adversário.
A pesquisa BTG/Nexus mostra que 65% dos brasileiros reconhecem que existe polarização política no país. Entretanto, 36% afirmam estar cansados ou desconfortáveis com esse ambiente. Apenas 17% dizem estar confortáveis com a polarização.
O dado fica ainda mais interessante quando se observa a escolaridade.
Entre eleitores com ensino superior, 52% afirmam estar cansados ou desconfortáveis com a polarização. O percentual cai para 33% entre aqueles com ensino médio e para 28% entre os que estudaram até o ensino fundamental.
Isso não significa que o eleitor mais escolarizado tenha abandonado Lula ou Flávio. Significa algo mais sutil: há um desconforto crescente com a forma como a política brasileira vem sendo disputada.
O eleitor quer uma alternativa — mas ainda não encontrou quem possa ocupá-la
Outro dado merece atenção.
A chamada terceira via chegou a representar 22% das preferências em levantamento da BTG/Nexus. O problema é que esse eleitorado está extremamente fragmentado. Não existe hoje um candidato capaz de transformar sozinho esse descontentamento em uma candidatura presidencial competitiva.
Isso explica uma das características mais curiosas da eleição.
Um eleitor pode dizer:
“Não quero Lula.”
Mas isso não significa automaticamente:
“Quero Flávio.”
Da mesma maneira, alguém pode dizer:
“Não quero Bolsonaro.”
Sem necessariamente ser:
“Quero Lula.”
É justamente nesse espaço intermediário que a eleição pode ser decidida.
Entre aqueles que preferem uma candidatura que não tenha o apoio nem de Lula nem da família Bolsonaro, apenas metade efetivamente vota em nomes alternativos. Parte acaba migrando para Lula ou Flávio.
Isso demonstra que a polarização continua tendo uma força eleitoral extraordinária mesmo entre pessoas que dizem rejeitá-la.
O eleitor brasileiro está cansado da polarização?
A resposta mais precisa é: sim, mas não necessariamente está disposto a abandoná-la nas urnas.
Uma pesquisa da Futura Inteligência já havia mostrado, em março, que 36,5% dos eleitores diziam que o país estava dividido e que estavam cansados disso. Ao mesmo tempo, 22,6% afirmavam estar do lado de Bolsonaro e 21,7% do lado de Lula.
A pesquisa mais recente da BTG/Nexus confirma que o fenômeno continua.
O eleitor brasileiro parece estar dividido em três grandes grupos.
O primeiro é o eleitor convicto: aquele que vota em Lula ou no candidato apoiado pela família Bolsonaro independentemente das circunstâncias.
O segundo é o eleitor anti: vota principalmente para impedir que o adversário chegue ao poder.
E o terceiro é o eleitor pragmático: observa economia, segurança, emprego, saúde, corrupção, impostos e custo de vida e pode mudar de voto conforme a percepção sobre quem tem mais condições de governar.
É este último grupo que as duas campanhas estão tentando conquistar.
O que é positivo para Lula
Lula chega à reta decisiva com algumas vantagens claras:
1. Liderança na maioria das pesquisas.
Os cinco levantamentos nacionais mais recentes citados pelo UOL colocaram Lula à frente de Flávio no primeiro turno.
2. Maior experiência política.
Lula já disputou e venceu diversas eleições presidenciais e possui uma máquina política nacional consolidada.
3. Alianças no campo progressista.
A candidatura conseguiu reunir sete partidos do campo progressista em torno de seu nome já no primeiro turno.
4. Força no Nordeste.
A região permanece como uma das principais bases eleitorais do presidente.
5. Capacidade de falar com setores fora da esquerda.
A escolha de Alckmin e o novo discurso em relação ao agronegócio mostram uma tentativa de ampliar o eleitorado para além do PT tradicional.
O que é negativo para Lula
O principal problema é a rejeição.
Lula não está disputando uma eleição de aprovação absoluta. Ele enfrenta uma oposição que continua muito mobilizada e que encontrou em Flávio um candidato capaz de herdar grande parte da estrutura eleitoral bolsonarista.
Além disso, qualquer desgaste econômico, aumento do custo de vida ou percepção negativa sobre segurança e corrupção pode atingir diretamente o eleitor pragmático que hoje mantém Lula na frente.
A campanha precisa, portanto, evitar que a eleição seja transformada em um referendo exclusivamente sobre o governo.
O que é positivo para Flávio
1. Abertura de uma disputa competitiva.
Flávio reduziu a distância para Lula em vários levantamentos recentes e chegou a empates técnicos em cenários de segundo turno.
2. Forte fidelidade do eleitorado bolsonarista.
A candidatura possui uma base ideologicamente mobilizada.
3. Capacidade de transformar a eleição em rejeição a Lula.
Quanto maior a insatisfação com o governo, maior o espaço para Flávio.
4. Segurança pública como tema eleitoral.
A presença de Alfredo Gaspar reforça uma agenda que pode conversar com eleitores preocupados com violência e corrupção.
5. Potencial de crescimento no segundo turno.
O desempenho de Flávio em confrontos diretos é significativamente melhor do que seus números de primeiro turno em algumas pesquisas.
O que é negativo para Flávio
O maior obstáculo é igualmente a rejeição.
Ter metade do eleitorado dizendo que não votaria nele de jeito nenhum torna difícil uma expansão para o centro.
Há ainda o problema das alianças. A escolha de uma chapa exclusivamente ligada ao PL pode preservar a identidade bolsonarista, mas limita a capacidade de apresentar Flávio como um candidato capaz de unir diferentes grupos políticos. A ausência de uma composição mais ampla com partidos do centro foi apontada como um sinal de isolamento da candidatura.
E existe um fator adicional: Flávio precisa provar que é mais do que o herdeiro eleitoral de Jair Bolsonaro.
Seu desafio é convencer o eleitor de que existe um projeto próprio de governo, sem perder a identidade política que lhe garante a maior parte de sua força.
A eleição pode ser decidida por quem conseguir despolarizar sem perder sua base
Esse talvez seja o paradoxo central de 2026.
Lula precisa despolarizar sem perder o lulismo.
Flávio precisa despolarizar sem perder o bolsonarismo.
Os dois precisam atrair o eleitor moderado sem provocar uma rebelião entre seus eleitores mais fiéis.
E o eleitor que está no meio não parece querer necessariamente uma política sem esquerda ou direita. Ele parece querer uma política que entregue resultados.
Segurança.
Emprego.
Saúde.
Custo de vida.
Educação.
Combate à corrupção.
Melhoria dos serviços públicos.
É por isso que a eleição pode ser menos definida por discursos ideológicos do que pela capacidade de cada campanha de responder à pergunta que interessa ao eleitor pragmático:
“O que muda na minha vida se eu votar em você?”
A grande incógnita até outubro
As pesquisas de agosto mostram uma eleição aberta.
Lula tem vantagem no primeiro turno na maioria dos levantamentos, mas Flávio aparece suficientemente forte para impedir que a eleição seja tratada como uma vitória antecipada do petista. Em alguns cenários de segundo turno, a distância caiu para poucos pontos ou desapareceu dentro da margem de erro.
Ao mesmo tempo, a elevada rejeição dos dois candidatos e o cansaço com a polarização indicam que existe uma parcela importante do eleitorado ainda disponível.
O grande paradoxo é que o eleitor diz estar cansado da polarização, mas continua escolhendo justamente os dois candidatos que melhor representam os polos em disputa.
Isso ocorre porque a terceira via ainda não conseguiu transformar insatisfação em confiança.
Assim, a eleição de 2026 chega a um ponto decisivo: Lula tenta mostrar que experiência, governo e alianças são suficientes para garantir mais quatro anos; Flávio tenta convencer o eleitor de que a mudança passa pela continuidade do campo bolsonarista.
No meio dos dois está um eleitorado que parece dizer, cada vez mais claramente:
“Não quero apenas escolher contra alguém. Quero saber o que vocês vão fazer por mim.”
E essa pode ser a frase que melhor resume os bastidores da eleição presidencial brasileira neste momento.

