Segundo pouso forçado de Soelson em 1988 em Gouveia MG - créditos: arquivo pessoal
19-04-2026 às 08h28
Por Carlos Mota*
Como escreveu o genial carioca e pleonasticamente hilário, Millôr Fernandes: Rir é o melhor remédio, e me ponho agora a escrever esta crônica rachando os meus bicos de tanto rir, coisa que desbragadamente eu não fazia desde setembro do ano passado – há seis meses passados, portanto- quando o meu médico, Doutor Undenbergue , me disse, num tom bem grave, que eu estava com câncer!
Mas não estou mais, pois me livrei do câncer e de quebra do mau humor de que padeci nesses últimos seis meses (não sei dessas doenças graves, qual a pior?), sobretudo aos esgurijar este telefone celular em que escrevo por horas e mais horas e me deparar com um vídeo que me foi mandado pelo amigo Roberto Carvalho, poeta e ex-deputado dos bons.
Abaixo do link do vídeo, Roberto escreveu: “acho que você vai gostar!”, mas menino, nem precisava que ele dissesse isso, pois vi e ri do vídeo de cabo a rabo, onde dois outros gênios – os humoristas Zé de Vasconcellos e Jô Soares – protagonizam ao vivo um dos melhores esquetes da tevê em todo o mundo!
E eu quase que mijando na cama de tanto rir, Roberto Carvalho acabou por me receitar o melhor remédio e mais tiro-e-queda do que os que me foram prescritos pelos doutores que me curaram, sobretudo o genial cirurgião pernambucano Doutor Jairo: uma dose cavalar de risadas.
Em tal vídeo – e que vale a pena o leitor assistir- Jô Soares, entrevistando o impagável Zé Vasconcellos, só o pede: – Conta aquela, Zé?
E Zé se levanta, vira pra plateia do Jô, e dá um dos melhores shows de humor jamais vistos por mim nesses setenta anos de idade, contando a história de um motorista de táxi do Rio de Janeiro e a vingança de um passageiro “medroso”que ele levou a duzentos km por hora ao aeroporto Santos Dumont, sem saber que ele era um temido coronel da Aeronáutica e ao tempo da ditadura militar.
Nem conto o resto, para não tirar de você, leitor, a curiosidade em querer assistir ao video, mas aqui estou me lembrando agora de minha parecida história com o impagável amigo Soelson Barbosa, hoje meu confrade ou compadre de ALVA, o nome da academia de letras do Jequitinhonha e a que pertencemos.
E posso contar tal história, posto que, se nela houve crime aeronáutico, ele já está prescrito, pois cometido no longínquo ano de 1982, quando voávamos de Minas Novas para Belo Horizonte, após assistirmos à posse de meu primo, Doutor Geraldo Coelho e o meu jovem irmão, Felipe Mota, como prefeito e vice-prefeito de Minas Novas.
Para quem não sabe, Soelson, como o major do causo de Zé de Vasconcelos, é exímio piloto de avião desde menino, quando em sua Turmalina natal, ele protagonizou uma história digna de Jô Soares e do Jornal Nacional, e da qual até hoje racho os bicos de tanto rir.
Soelson simplesmente resolveu construir – e construiu – asas de cera de abelha e penas de galinha, após ouvir na escola a história do mitológico Ícaro, (mais tarde ele disse-me que as asas eram de forro de plástico).
E foi vestido naquela marmota que Soelson saltou do altíssimo Buracão de Turmalina, apinhando de gente, mas só nao morreu porque se enganchou na copa de uma árvore cujo nome os turmalinenses nem gostam de ouvir, e que em respeito a eles nem vou aqui o declinar: pau bosta!
Mas essa é outra história, pois assim que o avião tirou as rodas do sagrado chão de terra de Minas Novas, pedi a Soelson que desse um rasante sobre Minas Novas, e Soelson, primeiro e muito habilidosamente, puxou o manche e logo passamos quase no entremeio do exíguo espaço entre as duas torres da Igreja do Rosário, eu vendo os meus atônitos conterrâneos olhando para cima.
Mas o que se deu em seguida foi de matar, pois Soelson moveu o manche e pôs o bico do avião para cima, gritando comigo: “é um looping, CaosMota!?! Segura, menino!” e o Cessna urrou e zumbiu feito uma flecha em direção ao céu! Mas como os seus motores não deram conta de alcançar o ponto máximo daquele arco pretendido por Soelson, uma manobra fez o avião estolar, e só não espatifamos sobre o Rio Fanado porque Soelson deu conta de o nivelar.
A nossa meta seria Beagá, mas tivemos que fazer um pouso forçado em Turmalina, pois feito o taxista carioca de Zé Vasconcelos, minhas calças eu tive que trocar!
*Carlos Mota é procurador federal, ex-deputado federal, escritor e membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha


