João Capiberibe quando senador - créditos: Agência Senado
21-04-2026 às 12h12
João Alberto Capiberibe*
Minhas lembranças das disputas eleitorais que vivi se equilibram entre cinco vitórias e cinco derrotas. Ainda assim, insisto: foram dez vitórias.
Porque eleição não se mede apenas pelo resultado das urnas. Mede-se pelo que se enfrenta, pelo que se resiste, pelo que se constrói — mesmo quando se perde.
Minha primeira disputa foi em 1982. Perdi. Mas saí dela com 1.840 votos para a Câmara Federal — algo como quinze mil eleitores de hoje. Não era pouco.
Era semente.
Era o governo de Aníbal Barcellos, que mandou estacionar uma viatura da Polícia Militar na porta da minha casa. A ditadura ainda respirava, moribunda, mas perigosa. Só viria a terminar, formalmente, com a eleição indireta de Tancredo Neves, em 1985.
A segunda disputa já veio em outro clima. O país reaprendia a respirar. Era o Brasil da Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães — um tempo de abertura, mas não de ingenuidade. Os velhos métodos ainda circulavam.
Na campanha, disseram de tudo: “Capi comunista, terrorista, comedor de criancinha”.
Nada disso colou. Vencemos.
Era 1988. Para surpresa de Aníbal Barcellos, fui eleito prefeito de Macapá.
Em 1990, ele se elegeu governador do Amapá. Em 1994, disputei sua sucessão. O candidato dele era Jonas Pinheiro. A eleição foi para o segundo turno.
Já na reta final da campanha, recebi uma ligação de Jardel Nunes:
— Acabei de ouvir uma conversa tensa entre Sérgio Barcellos (**) e Luís Carlos (***). Ele repetia, aflito: “Calma, meu deputado! Essa é nossa! Esfria a cabeça.”
Perguntei a que horas ele havia escutado aquilo.
— Por volta de 21h30.
Pedi que repetisse exatamente as palavras. Ele repetiu.
Jardel ouvira essa conversa por vazamento de celular na quinta-feira, às 21h30 — duas horas depois de a TV Amapá, com cerca de 85% de audiência na cidade, noticiar um suposto acidente em um garimpo no rio Amapari. Segundo a reportagem, uma adolescente teria sido escalpelada em uma embarcação cuja propriedade me era atribuída, e eu teria negado socorro. A matéria trazia o depoimento da mãe da vítima, em prantos.
Ficamos atônitos.
No dia seguinte, o que já era grave piorou. Logo cedo, meu amigo Balduino avisou que havia mais duas matérias prontas — uma para sexta, outra para sábado. A eleição seria no domingo.
Diante da iminência de perder a eleição por meio de um golpe, não hesitei. Coloquei um cartucho de fita cassete no bolso e fui ao TRE.
Com a fita na mão, entrei no gabinete de Luís Carlos sem pedir licença. Ele se levantou, assustado.
Estendi a fita e perguntei:
— Com quem o senhor falava ao dizer: “Calma, meu deputado! Essa é nossa”? Para quem?
Insisti.
Luís Carlos sentou-se, visivelmente abalado, e perguntou o que eu queria.
— Quero que o senhor seja juiz. Que decida o nosso recurso.
Sem imaginar que se tratava de uma fita virgem, apressou-se em decidir. Determinou a divulgação do nosso direito de resposta e, em seguida, a retirada da TV Amapá do ar até depois da eleição.
Vinte anos depois, em 2014, no exercício do mandato de senador, com base na Lei de Acesso à Informação, requeri ao TRE do Amapá cópias de todos os processos patrocinados pela Coligação Tudo por Nossa Terra. Entreguei várias resmas de papel em branco e recebi de volta cópias de dezenas de processos movidos por nós em defesa da nossa candidatura naquela eleição de 1994.
Vieram todos?
Não.
Faltou um: exatamente o processo que punia a TV Amapá com quarenta e oito horas fora do ar.
Por que não veio?
Não faço ideia.
Mas uma coisa posso assegurar: a fita cassete funcionou, fui eleito governador.
Difícil ganhar deles.
Mas não impossível.
Ganhamos mais uma.
E essa foi apenas uma entre muitas histórias.
Ao longo dos anos, vivi campanhas marcadas por esperança, medo, coragem, injustiças e também grandes conquistas. Histórias que ajudam a entender não apenas o resultado das urnas, mas o que acontece nos bastidores da democracia.
Nas próximas semanas, vou compartilhar outros episódios dessas disputas — vitórias, derrotas e aprendizados.
Porque eleição não é só número.
É história. É disputa de poder. E, sobretudo, o retrato de um tempo.
*Prefeito de Macapá, governador e senador do Amapá. Autor da Lei Complementar nº 131/2009, a Lei da Transparência. Empreendedor da economia da floresta em pé.
(**) Deputado federal Sérgio Barcellos, filho do governador Aníbal Barcellos.
(***) Presidente do TRE à época, desembargador do TJAP, nomeado pelo governador Aníbal Barcelos.

