Ilustração - créditos: divulgação
21-04-2026 às 08h18
Caio Brandão*
Quem te viu, quem te vê, diria Asdrúbal Guimarães, jornalista da velha guarda, repórter de escol, conhecedor da política, das manhas e das articulações eleitorais e eleitoreiras. Mas isto passou, disse-me o Asdrúbal, porque o vaticínio político agora está em outras mãos. Já nos relatou pela imprensa a ministra Cármen Lúcia, de presença honorária no Supremo Tribunal Federal, que ouviu atenta os conselhos do motorista de táxi que a conduziu em data recente, o qual apontou os deslizes de alguns colegas seus.
Vou repassar isto ao ex-deputado José Santana de Vasconcelos, que sete vezes se reelegeu, alternando-se entre federal e estadual. Agora que o “Grande Jornal dos Mineiros” já não influencia o nosso meio, ele deverá consultar a manicure de sua esposa, ora promovida a consultora de formadores de opinião.
Noticia o jornal O Globo, em sua edição desta segunda-feira, dia 20 de abril — ocupando metade da página 7 e com direito a foto —, que o maquiador Agustin Fernandez, amigo próximo de Michelle Bolsonaro, defendeu em entrevista que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem um perfil “engessado” e, por isso, não consegue dialogar com a classe trabalhadora. Agustin previu dificuldades eleitorais para o pré-candidato, antecipando uma derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e teceu críticas pessoais ao filho de Jair Bolsonaro, que teria um “ego maior do que a causa”.
O prestígio do maquiador me impressionou e procurei conhecê-lo melhor. Pensei tratar-se de algum político enrustido em nova e rentável profissão entre madames, ou de algum publicitário travestido de pesquisador, entendido nas nuances dos votos e de suas raízes móveis — fenômeno que só acontece na política — e estáticas e profundas.
Ora, convenhamos: se o desejo do jornal é abrir espaço para Michelle Bolsonaro e tecer críticas à escolha de Flávio como sucessor do pai, a seleção do maquiador como porta-voz não foi a mais feliz.
Aliás, o tabuleiro de xadrez da política dispõe de inúmeros atores com influência e estofo para defender o ponto de vista esposado por Fernandez. Este, em face do seu histórico de envolvimento com a política, carece de autoridade para o convencimento.
Fernandez, uruguaio de nascimento, natural de Lavalleja, está há quinze anos no Brasil e já se posiciona como imponente áulico de presidenciável, o que não deixa de ser notável. O jornal O Globo reforça esse cenário sob o título “Relatos de Desconforto”: antes da definição, Michelle vinha ganhando espaço na articulação política, interferindo em decisões estratégicas e sendo apontada por aliados como alternativa competitiva para 2026. Nesse ponto, Asdrúbal intervém e faz valer a experiência adquirida, ao perguntar:
— E se o comentário fosse do Valdemar Costa Neto, você teria lido?
Respondi que não, ao que o Asdrúbal aduziu:
— Então a matéria chamou a atenção e a moça deu o seu recado com a “mão do gato”.
No que fui obrigado a concordar. Recados à parte, o descontentamento de dona Michelle com a escolha de Flávio é patente. Ficou notório que ela queria ser a “ungida” e que agora terá de se contentar com o Senado — o que, aliás, é um prêmio superlativo para ela.
Ora, dona Michelle, vá devagar com o andor. Contente-se com o bilhete premiado que recebeu, diria Luiz Bernardi, curitibano da gema e egresso das Forças Armadas. Michelle tem valor, sim; cresceu, soube aproveitar a oportunidade e em breve ganhará assento no Senado da República. Vai para lá com as limitações de sua trajetória “escada acima”, vinda de baixo e oriunda de família que mais atrapalha do que ajuda. Diria Demerval Quaresma, guerreiro das barrancas do Jequitinhonha: abrace o possível e não faça marola.
Certo é que, se Flávio tem como nota máxima na atividade privada a gerência de uma loja de chocolates, dona Michelle nem isto tem para provar competência e vocação gestora.
Sobre isto, Tarcísio, o Governador de São Paulo, mais experiente, entendeu a regra do jogo: Bolsonaro jamais entregaria o bastão para alguém que não fosse do seu sangue. A esposa de hoje pode ser a inimiga de amanhã, enquanto o amigo de agora sempre encarna a figura da criatura que pode se voltar contra o criador.
Michelle vai “apanhar” muito na campanha. Os adversários jogarão luz sobre a sua vida, criarão versões, injúrias e até calúnias. Tarcísio — cria de dona Dilma Rousseff —, entretanto, vai orar pela derrota de Flávio Bolsonaro, e de sua força política despenderá o mínimo para ajudar na eleição. A vitória de Flávio enterra o futuro presidencial de Tarcísio; sua derrota, porém, o liberta dos grilhões para buscar espaço próprio e seu propósito.
Esta será uma eleição de fogueira nos bastidores, inclusive no PT, com repercussões sinistras na mídia. Ser vice de Lula pode ser apontado como o nirvana: a possibilidade de sentar-se na cadeira sem muito esforço e defenestrar a soldadesca que, da cabeça, vai arrancar até o último fio de cabelo.
(*) Caio Brandão é jornalista

