Créditos: Divulgação
24-04-2026 às 08h34
Anna Marchesini*
A gente inventou a babá mais barata do mundo. Não pede salário, não tira férias, não reclama de hora extra. Cabe no bolso e tem todas as respostas. Chama tela.
O filho chora, a gente entrega o celular. A filha faz pergunta difícil, a gente mostra um vídeo. O menino não come, a gente liga o desenho. Silêncio comprado por R$ 0,00 e uma senha de Wi-Fi.
Funciona. Até a conta chegar.
A conta vem em consulta com fonoaudiólogo porque o menino de 4 anos não forma frase. Vem em bilhete da professora: “seu filho não consegue ficar 10 minutos sem tela”. Vem em crise de ansiedade aos 11 anos porque o like não veio. Vem em quarto trancado, luz apagada, e mãe do outro lado da porta perguntando “o que eu fiz de errado?”.
Não fizemos nada de errado. Fizemos o que deu. A gente trabalha, paga boleto, cozinha, limpa, dirige, resolve. E no meio do furacão, a tela segura a criança pra gente não cair junto. O problema é que a tela não abraça de volta. Não ensina a perder. Não olha no olho quando o menino conta que apanhou na escola.
Em abril de 2026, o Brasil discute juro, PIB, eleição. Mas a revolução mais silenciosa tá acontecendo na sala de casa: uma geração inteira aprendendo a regular emoção com o brilho do algoritmo. Se tá triste, vídeo engraçado. Se tá com raiva, jogo de tiro. Se tá com tédio, dancinha de 15 segundos. E quando a vida real não entrega dopamina em 15 segundos, o menino quebra o quarto. Ou quebra por dentro.
Não é culpa do celular. É culpa da ausência. A nossa. A minha. A sua. A gente terceirizou o olhar. A gente deixou a babá de vidro criar nosso filho porque não tinha braço, não tinha tempo, não tinha paciência.
Só que criança não precisa de babá. Precisa de adulto. Adulto que senta no chão, que perde no jogo de tabuleiro de propósito, que ouve a história do parquinho pela décima vez. Adulto que diz “agora desliga que eu quero te olhar”.
Eu sei que é difícil. Eu sei que o dia tem 24 horas e a gente devia 48. Eu sei que tem conta pra pagar e que 20 minutos de Peppa Pig é o que garante o banho quente. Não tô aqui pra jogar pedra. Tô aqui pra lembrar que tem pedra que a gente coloca sozinha no caminho do filho.
O Brasil tá em banho-maria na economia. E tá em modo avião na conversa. A gente tá online com o mundo e offline com quem mora no quarto ao lado.
Não precisa jogar o celular fora. Precisa lembrar que ele é ferramenta, não parente. Que ele distrai, mas não cria. Que ele acalma, mas não educa.
Desliga por 15 minutos hoje. Olha no olho. Pergunta que cor é o céu. Ouve a resposta errada e ri junto.
Porque se a gente não olhar agora, um dia a tela apaga e o menino também. E aí não tem tutorial no YouTube que ensina a trazer de volta.
*Anna Marchesini é Educadora e Palestrante

