Créditos: Divulgação
07-06-2026 às 11h45
Giovana Devisate*
Uma frase do Kappus habita a minha mente desde a primeira vez que a li. No fantástico livro Cartas a um jovem poeta, ele diz que “aqui, onde meço tudo a partir de padrões grandes, fui acometido novamente pelo temor de estar fazendo algo errado”. É real, é singelo, é um sentimento absolutamente comum aos que se preocupam demais.
Recentemente, comecei a revisitar alguns projetos meus. Queria atualizar o portfólio e melhorar o meu site. Isso porque, no meu momento atual, percebo uma ansiedade gigantesca com a vida, que me afasta das coisas que, além da escrita, preenchem e sustentam a minha existência. Às vezes preciso reafirmar que esses resquícios de vida existem, ainda que sempre haja a necessidade de colocar os sentimentos que me sufocam naquilo que crio.
Outro dia, vi uma publicação no Instagram que ressoou demais com o que acredito, especialmente nesse contexto em que me encontro, de me conectar com o meu processo artístico de uma maneira ainda mais íntima. A publicação dizia que tudo o que criamos, mas não mostramos, nos consome ou paralisa com o passar do tempo.
Acho que me identifiquei porque tenho plena consciência de que apenas um décimo dos meus projetos foram mostrados ao mundo. É difícil deixar que o que crio saia da minha órbita de alguma forma. Porém, tenho bem mais coisa guardada na gaveta, mais coisas ainda guardadas aqui dentro de mim, sobre as quais não consigo parar de pensar.
Para que eu sobreviva às minhas neuroses e angústias, no entanto, preciso criar, experimentar, pirar na batatinha, viajar nos meus próprios pensamentos e fazer alguma coisa com eles.
Nós artistas vivemos em uma espiral, no qual o processo criativo é a inspiração e o ato de mostrar é a expiração. De certo modo, se não mostramos ao outro o que nos é possível imaginar, a arte guardada começa a pesar, a acumular, a sufocar e, ao que ficamos muito cheios de nós mesmos, das nossas ideias, dos próprios sentimentos, nos esvaziamos de outras coisas. Divulgar o que criamos é um risco, mas pode nos gerar certo conforto posteriormente.
A questão é que, para essa exposição acontecer, ainda que comedida, precisamos de coragem, precisamos acessar as vulnerabilidades e mostrá-las ao outro, precisamos confiar nos processos e precisamos, com segurança, confiar no que criamos e no que contamos, o que passa a ser sobre confiar, também, no que sentimos.
Outro dia, falei que escrevo porque não me imagino sem escrever. Acontece que eu também não sei viver sem criar com as mãos. Faz parte de quem eu sou e, por isso, costumo falar que escrevo no tempo: não é sobre linguagem escrita apenas, mas sobre linguagem visual também, sobre tudo o que sei fazer que registra o tempo em que vivo e que registra, de certo modo, o meu olhar e o meu sentir.
Penso, no entanto, que parece tão menos pior escrever e mostrar ao outro o que escrevi do que mostrar ao outro o que produzi artisticamente. Acho que porque a gente cresce com medo de tudo dar errado, supondo que a arte e a criatividade são tratadas como um adorno da nossa existência, algo secundário. Existe, sim, certo medo em assumir para o outro e para si mesmo todas as incertezas que estão nesse caminho da prática artística, ainda que eu produza apesar de tudo.
Rilke, em resposta a Kappus, nesse mesmo livro, disse que “precisamos aceitar nossa existência até onde for possível; tudo, mesmo o inaudito, precisa ser possível ali. Essa é, na verdade, a única coragem que exigem de nós: ser corajoso diante do mais curioso, do mais misterioso e inexplicável que possa cruzar nosso caminho”.
Inaudito significa algo extraordinário, nunca visto, comumente usado para descrever comportamentos e decisões surpreendentes, que fogem da normalidade pré-estabelecida. Ou seja: precisamos aceitar tudo que diz respeito à nossa existência, até mesmo o que parecer mais absurdo. E precisamos ter coragem.
Aceitar tudo, nesse contexto, é aceitar que a nossa existência é uma confusão, que a parte obscura que decide sair do coração é uma necessidade. No processo, é preciso entender que criar não é um complemento, mas uma condição de vida, uma forma de existir, de organizar o pensamento, de se conectar com o caos interno, de sustentar uma identidade que o trabalho formal não contempla. É assumir a subjetividade, a complexidade da forma humana, em sua urgência de ser o que se é, de insistir em uma forma verdadeira de existir e habitar o mundo.
Rosa Montero diz que “a dúvida corrosiva faz parte das pedras da nossa existência. E o ruim é que a insegurança extrema conduz o silêncio”. Ela completa, citando Sylvia Plath, que fala que “o pior inimigo da criatividade é a insegurança, a dúvida interna”.
Ser artista não é uma escolha sobre estética, mas um estado, que parte de uma necessidade vital. Rosa Montero fala bem sobre isso, nesse livro genial intitulado O perigo de estar lúcida. Algo importante que ela fala é que, para nós, artistas, a arte é, em primeiro lugar, comunicação. Ainda que não esteja, de fato, me comunicando com ninguém.
Enquanto consigo escrever, pintar, fotografar, inventar o que for, imaginar mil mundos, acredito que estou viva. No momento em que, por algum motivo, não conseguir mais fazer isso, é porque terei me afundado demais em mim – ou deixado de existir.

