Ainda existe almas gêmeas - créditos: Vecteezy
12-06-2026 às 10h14
Daniela Rodrigues Machado Vilela*
Quando se pensa no amor, a primeira coisa que deveria vir à cabeça, seriam duas pessoas plenas, bem resolvidas, que se gostam e não seres que esperam ser complementados. Não há metade da laranja ou par idealmente perfeito, tampouco, pessoas que se complementam. Indivíduos são seres singulares e já completos por si mesmos, mas que buscam parceria, conexão profunda, “agregar-se”, o que difere de “complementar-se”.
O encontro de almas é, também, desencontro, não se ama somente as qualidades e o que é belo. A admiração surge de aspectos singulares, inesperados, gostos e predileções. Há quem goste de determinadas características e outros que as odeiem, em igual medida.
O amor, é antes de tudo, um acordo de vontades, quando se “quer dar certo” e se “está disposto” a fazer concessões e adequações, facilita bastante. O que não quer dizer que alguém deva se anular para satisfazer ao outro, pois é crucial entender que muitas expectativas podem resultar em uma quantidade correspondente de decepções. Na vida é sempre premente trabalhar com os dados da realidade e com a imperfeição que a tudo permeia.
Amor não é apenas o que se sente por outra pessoa, mas o que se deveria sentir-se por si mesmo, o respeito com quem se é. Aprender a se amar é um grande desafio. De outro lado, o risco do narcisismo não é bom, afinal Narciso se apaixonou pela própria imagem, portanto, amor é ato de entrega e não apenas um voltar-se para si mesmo.
O amor se desenvolve na relação com os pais, irmãos, amigos e tantos outros. É necessário, cultivar e administrar várias formas de amar. O amor pelo debate, por uma boa leitura, pelo próprio espaço ou profissão, por um bom papo. Não se deve perseguir o amor, mas, se esforçar para encontrá-lo, eis uma estratégia.
O amor é ainda, um salto no desconhecido. Acreditar, dar chances para que aconteça. Deixar de lado arquétipos, oportunizar o que não está preestabelecido, como “par idealmente perfeito”. Olhar para o outro e para si, com simpatia e empatia. Dar chance para o que foge a idealizações.
Ninguém ama outrem, apenas por beleza física. Se assim o fosse, rapidamente se acabaria, pois a idade vem e com os anos a beleza passa a ser acessada e percebida de outras formas. Ama-se por uma mistura de atributos que, por vezes, nem se consegue racionalmente descrever. O amor acontece e floresce de modo complexo, não se vive só de flores.
Olhar amorosamente para a história construída e para si mesmo é uma virtude. O que não significa compactuar com tudo o que se é. Se exigir mais é uma forma de crescer. Só o próprio sujeito pode saber se está satisfeito ou não com a história que construiu e decidir o momento de se reposicionar, mudar atitudes, desbravar novos campos de batalha. Viver, assim como amar, é assumir responsabilidades e tomar as rédeas do próprio crescimento.
O amor e todas as formas de amar são bem-vindas. Mas apreciar e respeitar a si mesmo é o primeiro passo para encontrar alguém que esteja consigo em sua jornada.
Se houver, na cabeça do leitor, um modelo pronto, acabado, um roteiro para encontrar o amor, a vida lhe mostrará que não existem respostas fáceis, uníssonas ou acabadas. Amor é construção diária, parceria, encontros e desencontros. Não existe: “o tudo certo”. Relacionamentos podem ser ou não duradouros, mas que sejam repletos de acontecimentos interessantes enquanto existam. Amor não é algo para se ostentar, mas para apreciar, descobrir e descortinar de modo pessoal. Não é um ponto de chegada é a caminhada cotidiana lado-a-lado, não se trata da conquista do outro, mas de si mesmo.
Que o amor comece no próprio indivíduo e se expanda, enquanto um cuidar, reconhecer da jornada de lutas, fortalecer e engrandecer de modo que a convivência para consigo mesmo faça sentido. Assim, fará também sentido, a outrem, fazer parte disto. Eis que amor é partilha.
Para uma vida a dois, é essencial, estar com alguém com quem se goste de conversar, pois, isto conta muito. Ademais, não existam receitas prontas ou manuais. Será nos desafios do dia a dia que realmente se delineará o amar e se fazer amável. Goste de si, sem ser um Narciso. Cuide-se, seja leve de espírito, gentil e deixe acontecer o amor. Ele não é uma captura, mas uma conquista.
Se algo não está no caminho certo, reposicione a rota: enquanto há vida, tudo pode se renovar. Entre a vida e a morte pode-se reescrever a própria história diversas vezes. Se perdoe se não deu certo hoje, pois um dia dará. Se a tristeza se abateu ao entardecer, amanhã de manhã o sol vai raiar e tudo se renova. Nada como uma noite de sono revigorante para recarregar as energias, reconheça a própria trajetória. Esteja em paz, se concilie com a vida. Viver não se faz de modo linear, curvas, subidas, descidas, alegrias e tristezas fazem parte.
Quando feridas se fecham, as cicatrizes ensinam. É preferível aprender pela alegria, ao invés da dor, no entanto, não costuma ser questão de escolha, circunstâncias se impõem.
Enfim, neste Dia dos Namorados, aproveite se tiver alguém, se não tiver tire proveito igualmente. Se o dia foi bom ou ruim, “amanhã há de ser um outro dia”. Brindemos, ao enamorar-se e a arte de amar e se fazer amado!
*Doutora, Mestra e Especialista em Direito (UFMG), com Pós-doutorado (UFMG) com financiamento público (FAPEMIG). Professora Universitária. Pesquisadora em Trabalho, Filosofia e Linguagem. Diletante na arte da vida e da pintura.

