Créditos: Divulgação
13-06-2026 às 08h34
Anna Marchesini*
O feminicídio de uma menina de 12 anos por conversar com um menino escancara que violência doméstica não tem idade mínima. Dados de 2024 e 2025 mostram Brasil batendo recorde de mortes de mulheres, com 4 vítimas por dia. Até quando vamos chamar posse de “criação de macho”?
Olga tinha 12 anos. Idade de caderno, recreio e primeiras descobertas. Teve uma conversa com um menino pelo celular. Conversa de criança que começa a entender afeto.
Quem deveria orientar, proteger, acolher, virou executor. O pai tirou a vida dela.
Isso tem nome, e não é “tragédia familiar”. É feminicídio. É violência contra a mulher, mesmo quando a vítima ainda veste uniforme escolar. Porque o agressor não escolhe idade. Para ele o perfil é um só: “meu”. Filha, mulher, menina = território. Objeto. E objeto que desobedece é punido com a violência máxima.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 registrou 1.492 feminicídios em 2024, a maior marca desde a tipificação do crime em 2015. Em 2025 o recorde foi superado: 1.470 casos, média de 4 mulheres assassinadas por dia no Brasil. Em uma década, 13.448 mulheres mortas por serem mulheres. Alta de 316% em 10 anos.
A casa, que deveria ser abrigo, virou cena do crime. 64% dos feminicídios aconteceram dentro da residência da vítima. 66,3% das mortes ocorreram em casa. Em 80% dos casos, o assassino era companheiro ou ex-companheiro. Em 97,3% das ocorrências, o autor era homem.
Crianças e adolescentes não estão a salvo. 76,8% das vítimas de estupro em 2024 tinham até 14 anos. Quase 68% dos estupros aconteceram dentro de casa. Entre 2021 e 2024, 5,1% das vítimas de feminicídio eram menores de 18 anos. Olga entrou nessa estatística.
Só nos últimos 12 meses, 3,7 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência doméstica no país. Pesquisa DataSenado 2025 aponta que 20% dos agressores estavam em “crise de saúde mental” no momento da agressão. Doença mental explica comportamento, não justifica
Ainda se cria menino ouvindo “homem não chora”, “mulher tem que obedecer”, “isso é coisa de viado”. Ainda se acha graça quando criança de 5 anos diz “essa menina é minha”. Ainda se cala diante do pai que revira celular da filha “pra proteger a honra”.
Isso não é educação. É treinamento. Aula 1: posse. Aula 2: controle. Aula 3: “se não for minha, não vai ser de ninguém”. A aula final se chama Olga.
“Ser macho tem que ser assim, sabe?” Não. Macho mata. Homem protege. Homem respeita. Homem chora, pede desculpa, divide, cuida. O resto é covardia disfarçada de masculinidade.
Não foi ciúme. Ciúme dói, não mata. Foi poder. Não foi “educação dura”. Foi crime. Não foi “perda de controle”. Foi execução de tudo que ele aprendeu: que mulher e filha pertencem a ele. Que honra se lava com sangue. Que controlar é amar.
Justiça e responsabilidade coletiva
Feminicídio é crime hediondo. Pai que mata filha precisa responder com pena máxima, sem atenuantes e sem a fantasma da “legítima defesa da honra” que a jurisprudência já sepultou, mas que ainda assombra tribunais.
Mas punir depois não devolve Olga. A prevenção começa antes. Escola precisa ensinar consentimento, respeito e igualdade desde a infância. Menino precisa aprender que “não” é não. Menina precisa aprender que o corpo é dela. Ponto.
A sociedade precisa perder o medo de se meter. Conselho Tutelar, Disque 100, escola, vizinho. Criança controlada, isolada, ameaçada é sinal de alerta. Disque 100 é anônimo. É melhor ser chamado de chato do que carregar a culpa de omissão.
O ciclo só quebra quando alguém fala “comigo não”. Pai que bate, mãe que cala, avô que diz “no meu tempo era assim” alimentam a próxima Olga.
Olga não fará 13 anos.
Não terá formatura, primeiro emprego, primeiro amor. Roubaram a infância e o futuro dela.
Que o nome dela vire incômodo nas rodas de conversa. Que toda vez que alguém disser “menino é assim mesmo, tem que ser macho”, a resposta seja imediata: “Macho mata. Homem protege. Qual tu quer criar?”
Olga, perdão por falharmos contigo. Prometemos gritar por você e por todas as meninas que ainda dá tempo de salvar.

*Anna Marchesini é educadora, palestrante e atua na defesa dos direitos de mulheres e crianças.

