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26-07-2026 às 10h13
Rogério Reis Devisate*
Talvez o maior erro da humanidade não tenha sido a falta de respostas, mas a insistência em fazer perguntas a partir de uma imagem viciada de nós mesmos. O avanço da inteligência artificial e as propostas associadas ao transumanismo nos obrigam a resgatar uma pergunta que durante muito tempo pareceu pertencer apenas ao campo da filosofia, mas que agora se tornou uma questão urgente do presente: afinal, o que define o ser humano?
Durante séculos, vimos o ser humano como um organismo biológico individual, separado do mundo, dentro do qual existiria uma mente privada responsável por produzir pensamentos, sentimentos, memórias e consciência. Essa imagem foi extremamente poderosa, embora possa também ter limitado novas formas de compreender a consciência. A inteligência artificial torna essa questão inevitável ao exigir novas perguntas para velhos dilemas, ao mesmo tempo em que as propostas transumanistas discutem a possibilidade de ampliar capacidades humanas por meio da tecnologia e de integrar cérebro e máquina, para transformar radicalmente a experiência humana.
Mas, diante desse cenário, ainda se impõe uma antiga pergunta: será que compreendemos verdadeiramente aquilo que estamos tentando reproduzir ou ampliar?
Uma inteligência capaz de responder é necessariamente uma consciência? Uma informação processada é uma experiência vivida? Uma máquina que simula uma conversa compreende aquilo que diz? Talvez a questão mais profunda seja antropológica e, antes de pensar no futuro das máquinas, precisamos revisitar a imagem que temos de nós mesmos.
Há mais de dois mil anos, Sócrates ajudou a deslocar a filosofia para o exame do próprio ser humano, com sua imagem associada ao preceito “conhece-te a ti mesmo”. Platão aprofundou essa inquietação ao explorar a tensão entre o que percebemos pelos sentidos e aquilo que buscamos compreender pela razão. A realidade humana não se esgota no que é imediatamente visível e a tradição platônica contribuiu para reflexões sobre uma separação posterior entre corpo e alma. Existe algo na experiência humana além da dimensão física?
A história ocidental oscilou entre essas duas possibilidades: somos apenas matéria organizada de determinada maneira ou existe uma dimensão da experiência que ultrapassa a descrição puramente material? A ciência moderna trouxe respostas fundamentais, mas talvez ainda estejamos diante de uma pergunta aberta.
O cérebro é individual. Cada pessoa possui um cérebro único. Talvez seja justamente por isso que tantas vezes imaginemos a consciência como algo igualmente individual. Pode ser que exatamente nesse ponto nossa investigação tenha seguido um rumo equivocado. E se a consciência não se esgotar naquilo que acontece dentro dessa “casa” que chamamos de cérebro? Nossa própria experiência cotidiana revela isso. Achamos que dominamos o pensamento, ao mesmo tempo em que sabemos que não funciona assim. Pensamentos aparecem do nada. Uma lembrança retorna sem ser chamada. Uma música desperta uma cena antiga. Uma preocupação invade um momento de tranquilidade. Uma associação inesperada conecta ideias distantes. Às vezes queremos pensar em algo específico e nossa mente segue outro caminho. Noutro momento tentamos afastar um pensamento que insiste em voltar. Os pensamentos intrusivos revelam algo importante sobre a natureza da mente: nós não somos absolutamente proprietários de tudo aquilo que acontece em nossa própria experiência mental.
Isso não significa que sejamos incapazes de escolher ou decidir como ou quando agir. A questão é mais complexa, pois a mente humana é um processo vivo, dinâmico, que envolve dimensões conscientes e não conscientes. O pensamento não é apenas algo que fazemos; é também algo que acontece conosco. Sigmund Freud questionou profundamente a ideia de que a consciência governa integralmente a vida psíquica ao afirmar que “o eu não é senhor em sua própria casa”. Com essa formulação, procurou mostrar que desejos, conflitos, lembranças e impulsos inconscientes participam continuamente da nossa vida mental sem estar completamente submetidos à vontade consciente. Isso não elimina a capacidade humana de escolher ou deliberar, mas sugere que nossa experiência mental é mais ampla do que aquilo que alcança a consciência imediata.
António Damásio desenvolveu uma das contribuições mais influentes da neurociência contemporânea ao defender que pensamento, emoção, corpo e consciência estão profundamente integrados. Não somos uma mente abstrata habitando um corpo, mas um ser que vive uma experiência. Além disso, o cérebro não é uma máquina isolada que recebe informações do mundo exterior, por estar em permanente interação com o corpo e com o ambiente. Assim, aquilo que sentimos modifica aquilo que pensamos, o que experimentamos transforma a maneira como percebemos o mundo e tudo isso participa daquilo que vamos nos tornando. Por isso, podemos dizer que o cérebro é individual, mas nunca existe sozinho.
Talvez tenhamos confundido o lugar onde a consciência acontece com aquilo que ela é.
A filosofia do século XX aprofundou essa mudança de perspectiva e pavimentou a estrada. Martin Heidegger descreveu o ser humano como um “ser-no-mundo”. Não existimos primeiro como uma consciência pronta que depois estabelece relações, na medida em que é nas relações com o mundo que nos constituímos. Maurice Merleau-Ponty desenvolveu a ideia de que a consciência é inseparável do corpo, que é nossa maneira de existir, de estar presente e a abertura pela qual participamos dele.
Erich Fromm, em O Medo à Liberdade, falou em autonomia e pertencimento. Destacou que o ser humano deseja liberdade, mas também sente medo da separação absoluta. Pode ser que a verdadeira liberdade não esteja em romper vínculos, mas em estabelecer relações conscientes. Talvez sejamos indivíduos porque pertencemos ao mundo.
Outro campo que continua despertando interesse científico e filosófico envolve os relatos de experiências de quase morte. Pessoas que passaram por situações críticas relatam, em diferentes culturas, experiências de intensa clareza, revisão da própria vida e sensação de conexão ampliada. Independentemente da interpretação pessoal que seja dada ao tema, esses fenômenos são estudados pela ciência a partir de diferentes perspectivas, incluindo processos neurológicos, fisiológicos e psicológicos relacionados a situações extremas. Eles não comprovam que a consciência existe separada do cérebro, mas provocam-nos reflexões como valor filosófico, lembrando que permanece em aberto a pergunta sobre o problema da consciência.
Talvez o mistério não esteja em descobrir como surge a consciência, mas em compreender como opera e quais possibilidades encerra. Podemos ter feito perguntas erradas porque procuramos o ser humano como uma coisa, tangível e identificada.
Sob esta perspectiva, a inteligência artificial nos força a retomar a pergunta sobre o que significa ser humano. Talvez o maior legado dessa busca não esteja nas respostas que acumulamos, mas na coragem de rever as perguntas que fazemos — questões que, muitas vezes, nascem das respostas que acreditamos já possuir, como se preferíssemos formular indagações capazes de confirmar nossas próprias convicções, em vez de colocá-las verdadeiramente em risco.
Durante séculos, procuramos a consciência como quem busca um objeto perdido ou escondido. Talvez ela nunca tenha sido um objeto à espera de ser encontrado. Se for assim, a questão pode ser outra. Os instrumentos que desenvolvemos para observar o cérebro revelam, com extraordinária precisão, sua estrutura e sua atividade, embora não sejam suficientes, por si, para explicar a experiência subjetiva da consciência. Não porque lhes falte sofisticação, mas por não ser a consciência um fenômeno localizado, já que ela parece realizar-se na relação — conosco, com os outros, com o mundo e, em última instância, com o universo do qual fazemos parte.
Talvez nunca tenha sido a consciência que estivesse escondida. Pode ser que estejamos procurando respostas onde elas jamais possam ser encontradas. Talvez tenhamos feito as perguntas erradas.

