Peso da imcompetência - créditos: divulgação
07-06-2026 às 14h40
Raphael Silva Rodrigues*
A sensação de incompetência é tão comum quanto silenciosa. Ela chega sem avisar. Pode ser durante uma reunião importante, ao comparar seu trabalho com o de um colega, ou simplesmente ao acordar com a certeza de que você não é suficiente.
Psicólogos chamam isso de síndrome do impostor. Filósofos, de angústia existencial. O povo, de um sentimento que corrói por dentro. Mas o que exatamente acontece quando nos sentimos incompetentes?
A psicologia cognitiva nos oferece uma resposta clara: nossa percepção de competência raramente corresponde à realidade. As pessoas com baixa competência tendem a superestimar suas habilidades, enquanto pessoas altamente competentes frequentemente as subestimam.
Isso significa que você pode ser muito mais capaz do que acredita. Mas por que a mente insiste em nos sabotar?
A resposta está na comparação social. Quando nos medimos contra os outros, especialmente contra aqueles que parecem ter tudo resolvido, criamos um padrão impossível. Vemos o resultado do trabalho alheio, mas não o processo. Vemos a confiança na apresentação, mas não as noites mal dormidas que a precederam. Essa assimetria de informação alimenta a ilusão de incompetência.
Além disso, nosso cérebro é programado para a sobrevivência, não para a satisfação. Ele detecta ameaças com muito mais facilidade do que celebra conquistas. Evolutivamente, isso fazia sentido, pois estar atento aos perigos aumentava as chances de sobreviver. Hoje, essa mesma tendência nos faz focar obsessivamente nos erros e ignorar os sucessos.
A filosofia, por sua vez, nos convida a uma reflexão mais profunda. O existencialista Jean-Paul Sartre argumentava que somos “condenados à liberdade”, responsáveis por nossas escolhas e, portanto, pela construção de nossa própria essência. Nessa perspectiva, o sentimento de incompetência não é um diagnóstico, mas um sinal de que você está consciente de suas limitações. E essa consciência é, paradoxalmente, um sinal de maturidade.
Heidegger falava sobre a “angústia” como uma experiência fundamental do ser humano. Não é medo de algo específico, mas uma inquietação diante da própria existência e das possibilidades que ela oferece. O sentimento de ser “menos” pode ser interpretado como essa angústia. Ou seja, o reconhecimento de que você não é perfeito, de que pode falhar, de que suas escolhas têm peso.
Mas aqui está o ponto relevante: essa imperfeição não é um defeito. É a condição humana. Os estoicos, particularmente Marco Aurélio, nos lembravam que não controlamos os resultados, apenas nossos esforços. A incompetência, nessa lógica, é uma ilusão criada pela expectativa de perfeição. Se você fez o melhor que pôde com o conhecimento que tinha naquele momento, você foi competente.
Reconhecer que você se sente incompetente é o primeiro passo. Não é fraqueza, é honestidade. A maioria das pessoas que realiza algo significativo passou por essa sensação. O escritor que acha seu livro ruim. O médico que duvida de seu diagnóstico. O professor que questiona se realmente ensina bem.
A diferença entre aqueles que avançam e aqueles que ficam presos nesse sentimento é simples: ação. Não a ação perfeita, mas a ação imperfeita, repetida, ajustada, melhorada.
A psicologia positiva nos mostra que a autocompaixão é mais eficaz que a autocrítica. Quando você erra, em vez de se punir mentalmente, reconheça que errar é humano. Quando se sente incompetente, lembre-se de que competência é um processo, não um estado final.
Filosoficamente, isso significa abraçar a ideia de que você está sempre em construção. Não há versão “pronta” de você esperando para ser descoberta. Você se faz a cada dia, a cada decisão, a cada tentativa.
O sentimento de incompetência é real, mas sua interpretação é negociável. Você pode vê-lo como evidência de que não é suficiente, ou como evidência de que está consciente o bastante para saber que sempre há espaço para crescer.
A verdade incômoda é que ninguém sabe exatamente o que está fazendo. Todos estamos improvisando com mais ou menos criatividade. A diferença é que alguns aceitam isso e seguem em frente, enquanto outros ficam paralisados pela ilusão de que deveriam saber. Afinal, somos apenas humanos e falíveis por natureza.
*Doutor e Mestre em Direito (UFMG), com pesquisa Pós-doutoral pela Universitat de Barcelona, na Espanha. Especialista em Direito Tributário e Financeiro (PUC/MG). Professor do PPGA/Unihorizontes. Professor de cursos de Graduação e de Especialização (Unihorizontes e PUC/MG). Advogado e Consultor tributário.

