Créditos: Divulgação
17-05-2026 às 10h26
Sérgio Soares*
Rubem Alves, em sua crônica “Esquecer para lembrar”, relata a história de um sujeito que comprou uma casa centenária nos Estados Unidos, cheia de reformas por fazer. Antes de dar a demão de tinta definitiva, o novo proprietário decidiu raspar camadas de histórias sobrepostas em cores, até descobrir a original: um lindo pinho de riga!
A simbologia da construção da identidade através das camadas de memória representa a vida de cada um de nós – somos verdadeiramente a soma das cores, sons, impressões, ideais e traumas que vão se sobrepondo ao longo de nossa trajetória. Não é por acaso que Walter Benjamin nos lembra que “a memória não é um instrumento para a exploração do passado”, mas sim o “meio onde se deu a vivência”, uma espécie de solo de uma antiga cidade soterrada.
Esse processo de escavação, de auto(re)conhecimento, é o caminho traçado por Drummond no livro de crônicas intitulado “Confissões de Minas”, publicado em 1944. Um livro de retalhos no qual o autor se reconhece como um narrador onisciente, um modernista que reúne as inconfidências de um itabirano e revê a lousa de d. Emerenciana em busca de histórias capazes de lhe dar sentido, ou, melhor dizendo, camadas de tinta que teriam formado a sua essência.
Como nos lembra Janice Theodoro, “a narrativa pode permanecer integrada, vinculando o homem ao seu mundo de origem de tal forma que, mesmo migrando para a cidade, permanecerá ligado ao campo enquanto tiver histórias para contar”. E é isso que de fato encontramos no conto “Um escritor nasce e morre”: “Nasci numa tarde de julho, na pequena cidade onde havia uma cadeia, uma igreja e uma escola bem próximas umas das outras, e que se chamava Turmalina. ”
Nessa obra, cada história carrega um pedaço da história do escritor, ainda que às vezes o resultado disso seja a negação, como ele mesmo lembra: “As páginas foram-se escrevendo mais para contar ou consolar o indivíduo das Minas Gerais, e dizem bem pouco das relações desse indivíduo com o formidável período histórico em que lhe é dado viver”, e conclui enfático: “Mesmo assim, não as desprezo. Dou-as como um depoimento negativo, indicando aos mais novos que devem formular depoimentos positivos, autênticos e até mesmo impiedosos, se for o caso.”
O poeta-prosador reencontrou seu passado em um universo de verossimilhanças, em que as estruturas de poder, que sua verve modernista tanto criticou, são retratadas pelo estado e pelo clero, ambos velhos, carcomidos pelo tempo. Em sua viagem proustiana, Itabira, sua terra natal, reconhecida pelo “chão de ferro” das hematitas, tornou-se uma gema preciosa – a turmalina, uma pedra de mil cores e lembranças.
Nessas narrativas, a escola representa o novo e, mais do que isso, o lugar onde nasceu pela segunda vez: “Foi aí que nasci. Nasci na sala do terceiro ano, sendo professora d. Emerenciana Barbosa, que Deus tenha”. E foi nesse mesmo espaço que o garoto, analfabeto despretensioso, descobriu-se escritor apaixonado pelas letras: “De repente nasci, isto é, senti necessidade de escrever”. E explicou: “Eu escrevia com o rosto ardendo, e a mão veloz tropeçando sobre complicações ortográficas, mas passava adiante.”
Drummond rememora, ainda, o desconforto e o susto por ele sentidos ao se deparar, na mais tenra idade, com seu primeiro leitor. Contudo, relata que, para sua surpresa, o resultado foi diverso ao que um menino intimidado por uma classe inteira poderia esperar: “– Vocês estão rindo do Juquita. Não façam isso. Ele fez uma descrição muito chique, mostrou que está entendendo as aulas.” E arrematou a professora com um vaticínio: “– Continue Juquita, você ainda será um grande escritor.”
Se contar uma estória preserva o narrador do esquecimento e constrói a sua identidade, há de convir que teria sido isso que o pequeno Juquita (“alter ego” drummondiano) vislumbrou na aula de Geografia: “[…] em meus nove anos achei que a professora me comparava a Rui Barbosa”. Para a mãe, aquela foi certamente a obra literária mais importante do mundo. Quanto ao pai, com pouco interesse, premiou o garoto com a assinatura do Tico-Tico, a revista em quadrinhos da moda à época.
O que poderia ter sido um balde de água fria, um impedimento para se chegar a uma carreira promissora, fortaleceu ainda mais a prática literária do jovem autor. Além disso, ressaltou alguns dos traços que marcariam sua personalidade: independência, crítica e aversão a formalidades institucionais. Drummond foi um “anjo torto”, sujeito mineiramente (des)concertado, que, sem se deixar (en)formar, (en)quadrar e perder a simplicidade, conseguiu alcançar o reconhecimento como um dos maiores escritores da literatura brasileira, tanto na poesia quanto na prosa. Tudo isso em um contexto em que vanguarda era sinônimo de rebeldia e perseguição.
Todo esse caminho, porém, não foi trilhado por um “engomadinho academicista”. Somente um poeta e prosador de olhar armado, dedos rápidos e rosto em brasa poderia descrever tão bem essas vivências. Não é fortuito que o rapaz rebelde de outrora – que, no caminho para o trabalho, caminhava pelos arcos do viaduto de Santa Tereza, preterindo o caminho destinado aos pedestres – seja o mesmo que declinou dos convites que a Academia Brasileira de Letras lhe fez para o posto de “imortal”. Recusou solenemente a clausura de um fardão.
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Bem sabemos que a escrita de textos memorialísticos ou autobiográficos sempre caminhará por espaços perigosos, pois nunca se sabe ao certo o que poderá ser encontrado por detrás da próxima camada de tinta. Por isso mesmo, Luis Costa Lima chama as memórias e autobiografias de “substitutos dos espelhos”: “Se estes, metálicos e implacáveis, assinalam o desgaste dos traços, o torpor dos olhos, a redondez do ventre, fechamo-nos contra a maldade dos espelhos e procuramos nos rever no que fomos, como se o percurso da antiga paisagem nos capacitasse a nos explicar ante nós mesmos”.
Seguindo por essa seara, vale citar aqui um trecho da reflexão de Edimilson de Almeida Pereira: “O que ouço é o texto ou a voz de quem leu? Um e outra atravessam os moradores da casa […]. O chão vocifera, um vaso se parte. Cada um, à sua maneira, engorda os cômodos, quando conversa. As plantas e as pedras nos ocupam com seus dialetos. Mas ouvimos, no meio de tudo, talvez um texto e a voz que o lê. Se é notícia rude ou sorte, se é nossa gente, como saber? No rascunho da tarde, escutar é um ato de espionagem.”
Mas o fato é que, se as narrativas memorialísticas são um terreno pantanoso e mutável, o próprio Drummond não deixou de confessar aos leitores sua consciência crítica depois de revisitar suas próprias origens ancestrais: “[…] sinto que foi um caminho pelo qual cheguei a uma excelente cidade, de ruas largas e populosas. Ele abriu minhas gavetas secretas. Libertou-me de alguns fantasmas particulares. […] Hoje não escreveria quase nada do que aí se contém, mas por isso mesmo a sensação de desprendimento e liberdade é maior.”
Para saber mais!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Confissões de Minas/ Carlos Drummond de Andrade. Posfácio de Milton Ohata. 1. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2020.
LIMA, Luiz Costa. Júbilos e misérias do pequeno eu. In: ______. Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
PEREIRA, Edimilson de Almeida. Casa da palavra: obra poética (3). Belo Horizonte: Mazza, 2003.
THEODORO, Janice. Memória e esquecimento: nos limites da narrativa. In: _______. Tempo Brasileiro: história, memória e esquecimento, Rio de Janeiro, n. 135, out-dez. 1998.


