Créditos: Divulgação
13-05-2026 às 11h30
Sérgio Augusto Vicente*
No próximo sábado, 16/05, às 19h, o grupo Delta Dell’ Arte, dirigido por Paulo Moraes, apresentará “Entre Quatro Paredes” em Juiz de Fora (MG), no teatro Paschoal Carlos Magno. É a segunda vez que o grupo apresenta essa obra-prima nesse equipamento cultural da cidade. Delta Dell’ Arte fez um histórico de sucesso com essa peça na região. No Museu do Crédito Real, já chegou a apresentá-la por quatro vezes. O sucesso fez o elenco levá-la, inclusive, para fora do circuito cultural juiz-forano, no município de Lambari, sul de Minas.
O roteiro é um clássico de Jean-Paul Sartre (1905-1980), um dos grandes filósofos do século XX, que também ficou conhecido pelos 51 anos de relacionamento com Simone de Beauvoir, até hoje considerada uma das mais famosas referências do feminismo.
O filósofo foi precursor do existencialismo, doutrina filosófica que defende a precedência da existência em relação à essência e que postula que o homem é um ser livre, único responsável por suas escolhas, criador de todos seus valores, impedido, dessa maneira, de culpar Deus ou qualquer outra entidade, divina ou mundana, pelas suas próprias ações.
Em “Entre Quatro Paredes”, o autor coloca três pessoas muito diferentes confinadas num inferno nada tradicional: um salão Segundo Império, sem janelas ou espelhos, onde três personagens reconhecem sua culpa e inevitabilidade, refletindo sobre suas mortes. Juntos para sempre, em estado de vigilância constante, sem privacidade e descanso, Estelle, Inês e Garcin se veem refletidos nos olhos uns dos outros, penetrando mutuamente nos recônditos lugares de seus inconscientes. É dessa experiência torturante, em que um responsabiliza ou culpa o outro pelas consequências de suas ações, que nasce a expressão “o inferno são os outros”.
Joseph Garcin é um desertor e jornalista pacifista, cruel com a esposa, mais preocupado com a imagem que as pessoas têm dele do que com as mulheres ao seu redor. Inez Serrano é uma manipuladora, lésbica, intrigante e sarcástica, que deseja Estelle e odeia Garcin. Estelle Rigault é uma mulher esnobe que traiu o marido e cometeu infanticídio, buscando admiração por sua beleza. O triângulo amoroso entre Garcin, Inez e Estelle reflete a busca por reconhecimento e a dificuldade em aceitar as consequências de suas escolhas.
O elenco é composto por atores e atrizes profissionais, que conciliam o ofício da dramaturgia com outras profissões: Anderson Ferigate, que interpreta Garcin, é professor de Filosofia e Língua Portuguesa; Marcia Mello, que interpreta Inez, é advogada; Sibelle Pezarini, que interpreta Estelle, é professora de dança; e Reinaldo Emerson, que dá vida ao “criado”, é trabalhador do comércio e graduando do curso de História da UFJF.



Legenda – Fotos do elenco durante apresentação realizada no Museu do Crédito Real
(Juiz de Fora – MG), em 2025. Créditos: Grupo Dell’Arte
Este último personagem é uma espécie de “chefão” que recebe os indivíduos na sala em que irão viver a infernal tortura psicológica. Segundo Reinaldo Emerson, ator juiz-forano com 30 anos de carreira, este é seu quarto trabalho no gênero drama. Ele destaca que interpretar esse texto “é uma incrível experiência”. Jean-Paul Sartre o levou a “viver um personagem diferente de todos que já fiz [fez], com suas faces sombria, sarcástica, misteriosa e… diabólica”, confessa.
Ao contrário da atmosfera claustrofóbica e infernal que ambienta o enredo de “Entre Quatro paredes”, os palcos foram para Reinaldo uma verdadeira redenção, uma oportunidade de emancipação social, intelectual e humana, após uma série de experiências de opressão e de desigualdade social vividas na infância e na adolescência. Através do teatro, o menino da década de 1990 enxergou e construiu outros mundos possíveis, mergulhou no universo das artes e descobriu os livros, aprendendo a valorizar o conhecimento e a se interessar pela complexidade das múltiplas experiências humanas. O ator já atuou em uma série de peças de relevância e sucesso, como “Chicago”, “As Loucas”, “Tudo Azul no Hemisfério Sul”, “Estado de Sítio”, “A Farsa”, entre outras. Hoje, tenta se equilibrar entre os palcos, seu trabalho no balcão de uma vidraçaria e os estudos acadêmicos.
Reinaldo e os demais colegas de palco convidam a todos e a todas a prestigiarem o espetáculo, que está imperdível. Os ingressos podem ser comprados pela “uniticket“ por 40 reais (inteiro) e por 20 reais (meia). Não percam!
*Sérgio Augusto Vicente é historiador, professor, escritor e curador, com doutorado, mestrado e graduação em História pela UFJF. Trabalha na Fundação Museu Mariano Procópio e atua como editor de cultura do Diário de Minas (Belo Horizonte).

