Ilustração comemorativa - créditos: Sérgio Vicente
19-04-2026 às 10h08
Rodrigo Barbosa*
Em sua coluna no jornal “O Estado de São Paulo”, no dia 12 de março de 1976, o cronista Luís Martins comete o que ele mesmo define como uma “indiscrição”: publica um trecho de uma “carta íntima” do poeta Carlos Drummond de Andrade, que ele havia recebido há poucos dias. Martins “trai” sua troca de correspondências com Drummond porque estava atrás de uma explicação para o fato de que praticamente todos os grandes escritores brasileiros (romancistas, como Machado e Clarice; poetas, como Drummond e Mário de Andrade; dramaturgos, como Nélson Rodrigues e etc. e etc.), em algum momento – ou por toda a vida – tornaram-se cronistas.
Para Martins, há uma razão, prosaica até, mas nem por isso menos relevante. É aí que ele “entrega” o que o poeta contou na sua carta, falando de aposentadorias. Confessa Drummond: “Compreendo plenamente o seu desejo ansioso de chegar à aposentadoria como libertação de tarefas chatas. Não se iluda, porém, julgando que os aposentados estão isentos de chateação. Tenho dois supostos ócios “com dignidade” (o de funcionário e o de jornalista) e vivo sonhando uma aposentadoria de todas as aposentadorias, que não seja a morte, mas uma vida calma e segura. Como parece que isso não existe, continuo cronicando impavidamente até o fim da existência, se os meus patrões o permitirem: é preciso pagar o condomínio, a Light, o Imposto de Renda, a própria vida, esse artigo caríssimo”.
É preciso “pagar” a vida, explica o impávido cronista Carlos Drummond de Andrade. E, se fizermos uma visita rápida aos tempos do surgimento (e rápida consolidação) dos jornais brasileiros, no século XIX, veremos reforçada a tese que pode ser “entrelida” na carta que Martins tornou pública. Senão vejamos o que disse o grande Machado de Assis nas páginas do “Correio Brasiliense”, em 1858: “O jornal, abalando o “Globo”, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de Letras; porque ele diz ao talento: ‘Trabalha! vive pela ideia e cumpre a lei da criação!” (grifo meu). Olavo Bilac, poucos anos depois, é ainda mais explícito: “O jornal é para todo escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal – porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil, como uma necessidade.”
O fato é que o jovem Drummond subiu a escadaria que dava na redação do “Diário de Minas”, em 1921, aos 19 anos, para iniciar uma relação fiel e longeva com os jornais – e, com ela, acertar dois alvos: chegar aos leitores para-além da sua poesia e garantir seu sustento. O próprio Martins vai reforçar essa “motivação” tão relevante na história da literatura (e da imprensa) brasileira e na vida profissional (e criativa) dos seus mais destacados representantes”: “Ela é de natureza econômica, e tem fundamento no fato corriqueiro e conhecido de que o escritor, no Brasil (salvo duas ou três escassas exceções), não pode viver apenas escrevendo livros, como em outros países: então, recorre ao jornal.”
Mas essa delimitação, de natureza histórica, com a qual o leitor há de concordar, pode nos fazer um convite a um outro olhar curioso, a uma nova pergunta: de que forma as particularidades da rotina e do modo criativo do ofício de cronista se refletem nas suas escolhas narrativas, temáticas, estilísticas – e mesmo na sua visão de mundo? Uma das formas de tatear respostas para esta pergunta pode começar pelo reconhecimento de algumas características peculiares do processo de escrita de crônicas. Do lugar do cronista na “indústria jornalística”.
O escritor de crônicas, como Drummond, ao inserir-se no ritmo de produção de jornais, submete-se a uma rotina que passa a fazer parte de sua criação. Assim como os jornalistas, ele trabalha com uma restrição objetiva de espaço para publicação (que delimita o tamanho de seu texto), sob a pressão dos prazos definidos pelo processo industrial de impressão e distribuição dos jornais e revistas (os famosos “horários de fechamento”) e “de olho na audiência”, pois o público-leitor vai dar respostas imediatas de seu interesse pelo cronista, através de uma interação direta com os editores e os autores dos textos (antes, por cartas de leitores e pesquisas de satisfação; hoje, com likes, compartilhamentos e comentários no próprio espaço do texto).
Para satisfazer estas condições, o escritor de literatura que mergulha nas páginas dos jornais precisa se adaptar. Não tem mais o livre-arbítrio de escolher a extensão de seu texto: um hai-kai ou um extenso poema épico; um mini-conto ou um robusto romance russo? Não, agora ele tem que entregar uma lauda de 30 linhas (ou, modernamente, 3.000 caracteres, incluindo espaço). Não tem mais o “seu” tempo, o tempo da inspiração, da maturação das ideias, das escritas e reescritas do texto de seu romance ou poema. Não, agora o editor cobra um texto a ser entregue, religiosamente, até às 18h de sexta (ou terça) – e não há negociação com o chamado “deadline”, a linha mortal para o ponto final.
Como se estas imposições não bastassem, ainda é preciso chamar a atenção do leitor para a sua crônica, no meio de notícias, reportagens, manchetes “gritantes”, ilustrações, anúncios (e, hoje, vídeos, áudios, animações). Sobre este desafio, o romancista curitibano Cristóvão Tezza, neófito na função de cronista, desabafou certa feita: “A primeira diferença que senti entre escrever livros e escrever crônicas – trabalho novo para mim – foi a onipresença do leitor. Nunca penso no leitor ao escrever ficção, que se cria numa redoma autossuficiente. (…) Já os jornais são folhas escancaradas ao mundo, que gritam para ser lidas desde a primeira página. A mão do texto puxa o leitor pelo colarinho em cada linha, porque tudo é feito diretamente para ele. O jornal do dia sabe que tem vida curta e ofegante e depende desse ser arisco, indócil (…) Ao contrário do escritor, que se esconde, o cronista vive numa agitada reunião social entre textos – todos falam em voz alta ao mesmo tempo, disputam ávidos o olhar do leitor, que logo vira a página, e silenciamos no papel. Renascemos amanhã.”
Você há de convir, insaciável leitor, que é preciso “equilibrar pratos” para viver a dupla identidade de poeta e cronista. O que, certamente, foi menos penoso para Drummond, não apenas por sua imensa intimidade com o reino das palavras, como também pela experiência prática desde os tempos juvenis no “Diário de Minas”. Para dar conta de se adequar ao seu cantinho de página “na agitada reunião social entre textos”, obedecer o relógio inclemente do editor e ainda chegar aos corações e mentes do público, o cronista Drummond lança mão de diferentes estratégias, que combinam seus talentos pessoais com a suposta “função” de seu texto num jornal. E o resultado não é menos saboroso, nem menos relevante, nem menos impactante do que aquele que a sua poesia proporciona. Nem menos literário, eu diria.
Estou a exagerar? Para verificar esta afirmativa que acabo de fazer, ofereço ao desconfiado leitor duas alternativas: a primeira é deixar de lado este artigo e ir logo se deliciar com um livro de crônicas de Drummond (e eles são muitos, como intensa foi sua obra neste gênero: para começar sugiro os clássicos “O observador no escritório” e “Fala, Amendoeira”). Outra possibilidade é seguir comigo por algumas linhas (poucas mais, prometo) num voo panorâmico sobre alguns dos estratagemas do cronista Drummond para “fisgar” o leitor, “arisco e indócil”, e depois para encantá-lo. Tentar (quem sabe?) achar pistas que ajudem a decifrar o seu segredo mágico.
Para se “encaixar” no espaço exíguo das folhas noticiosas e cumprir os prazos de entrega, que tal falar da vida? Aquela que está nas notícias, companheiras das páginas (ou telas), mas também aquela que está nas esquinas, nas praças, nos meios de transportes. Contar, por exemplo, a história do sujeito que cantava sozinho no ônibus (e, assim, refletir sobre o que ele representou para a vida do cronista e talvez de seus companheiros de viagem). É o que ele faz na crônica “No lotação”, transpondo o leitor para uma viagem entre Copacabana e o Centro do Rio na década de 1960: “Com o advento dos rádios transistores, o esporte, os fuxicos internacionais e a música popular passaram a ser nossos companheiros de viagem no ônibus e no lotação. Por isso não estranhei ao ouvir, em surdina, ‘areia da praia branquinha, branquinha, o vento levou o amor que eu tinha’.” Ao tom seco do noticiário contrapõe-se o sussurro, a confidência e sobressai a sensibilidade de ver o detalhe, como a melodia da cantiga do moço do lotação.
Ou que tal remexer uma bolsa esquecida, também num ônibus, que vai ser o fio da meada de quatro crônicas seguidas, nos anos 1950? Drummond vai, aos poucos, envolvendo o leitor na história da bolsa e depois revela o seu intento no prefácio do livro “A Bolsa & A Vida” (título também das tais crônicas): “a bolsa é uma bolsa modesta de comerciária, achada num coletivo. E a vida é isso e tudo mais que o livro procura refletir em estado de crônica, isto é, sem atormentar o leitor – apenas, aqui e ali, recordando-lhe a condição humana.”
Na busca de assunto (“atenção do horário de fechamento!”), por que não dialogar também diretamente com os fatos “famosos”, os grandes assuntos? E é então que se destaca outra artimanha: um olhar de poeta para as notícias. Um olhar que tira da página de esportes a dura derrota da seleção brasileira para a Itália na Copa da Espanha, em 1982, e a transporta para a capa do “Caderno de Cultura”. “Perder, ganhar, viver” é o título de uma crônica que chora junto com tudo aquilo que ele observou depois do jogo (“vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…”) para confessar, ternamente, que “gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores (…) e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária.”
O olhar, pessoal e poético, sobre “pequenos” e “grandes” assuntos. A linguagem que canta, que confidencia, que diverte. São recursos que colocam o cronista Drummond “em diálogo” com o leitor, em tom de conversa fiada. Uma conversa que, de forma explícita ou implícita, escancarada ou sutil, investiga os funcionamentos da “máquina do mundo”, matéria-prima dos jornais – e da poesia, não é mesmo?
Tantas leituras nos oferece o cronista-poeta, inclusive as que se pode fazer, num sentido avesso, sobre a “presença” da crônica em sua poesia. Mas este é assunto para outros pesquisadores. O menino que subiu as escadarias do “Diário de Minas”, em 1921, deixa suas pegadas pela estrada do nosso fazer literário e do nosso fazer jornalístico. Podemos nos dedicar às múltiplas tarefas de identificá-las – ou, simplesmente, a nos deleitar com elas. Escolho encerrar essa prosa cometendo uma inconfidência, ao estilo de Luís Martins, com Drummond. Uma historinha que talvez explique melhor tudo o que andamos dizendo até aqui.
Em meados dos anos 1980, eu era um jovem repórter iniciante do jornal “Folha de S. Paulo” quando me candidatei a uma entrevista com o grande Carlos Drummond de Andrade. Cheguei com o frio na barriga que se espera de quem vai encontrar um ídolo. Ele me recebeu, na antessala de seu apartamento, na Rua Conselheiro Lafaiete, 60, entre Copacabana e Ipanema, com gentileza e educação, mas da forma circunspecta que era tão sua. Sentamos numa mesinha, ali mesmo, naquela entrada, como se ele me dissesse que havia uma barreira à sua intimidade.
A conversa se desenvolveu de acordo com o roteiro da entrevista, até que surgiu um tema: as novas tecnologias. Vejam bem: estou falando de TV a cabo, telefonia celular, computador – e tudo em fase de quase gestação ainda. Ele, para minha decepção de jovem entusiasmado e ingênuo, revelou-se um pessimista com o futuro engendrado pelas máquinas. Houve até um ligeiro “debate”, no limite que minha arrogância juvenil e meu imenso respeito por ele colocaram. Ao final, diante da “lista” dos novos aparelhos que foram nosso tema, ele olhou-se para mim e fez uma pergunta:
– E o humano, meu caro, e o humano?
O jovem repórter se despediu sem resposta e talvez sem ter dado a dimensão correta à indagação, um tanto aflita. Décadas depois, em tempos de IA (Inteligência Artificial), eu compreendo que sua pergunta escondia a chave do seu grande segredo. De poeta. E de cronista.


