Lar com ausência de afeto - créditos: Anna Machesini
11-04-2026 às 14h24
Anna Marchesini *
Existe uma categoria de órfãos que não entra nas estatísticas. São os órfãos de pais vivos. Gente que tem certidão, tem sobrenome, mas não tem história. Tiveram um progenitor, não um pai. E carregam um luto estranho: a saudade de algo que nunca chegou a existir.
A criança não entende o abandono como abandono. Ela traduz como falta pessoal. “Se ele foi embora, eu não fui suficiente”. É a primeira mentira que a ausência conta. E essa mentira cresce junto com a gente. Vira medo de ser deixada, fome de aprovação, dificuldade de acreditar que merece ficar.
Na vida adulta, essa mentira muda de roupa. Vira ciúme que sufoca, ou distância que protege demais. Vira a frase “todo mundo vai embora” sussurrada antes de qualquer “eu te amo”. Vira a necessidade de provar valor o tempo todo, porque lá atrás alguém ensinou que amor é condicional e que a gente não cumpriu a condição.
Então vamos educar essa dor. Vamos colocar luz onde ficou escuro
Abandono fala do adulto, nunca da criança
Pais vão embora porque não deram conta. Por imaturidade, medo, egoísmo, repetição da própria história. Nenhum filho é difícil a ponto de justificar uma partida. Você não foi o problema. Você foi a vítima.
Sentir a falta é legítimo.
Tiraram de você um direito básico: ter uma referência, um colo, alguém para buscar na escola e bater palma na formatura. Doer por isso não é fraqueza. É sanidade. A gente só sente falta do que deveria ter tido.
Você pode reparentar a si mesmo.
O adulto que você é hoje pode ser o pai que a sua criança não teve. Pode se proteger, se escutar, se orgulhar das suas pequenas vitórias. Pode fechar a porta por dentro e dizer: “aqui dentro, ninguém mais me abandona”. Isso não apaga o passado. Mas muda o futuro.
O ciclo termina em você.
Se você tem filhos, sobrinhos, alunos, amigos mais novos, escolha presença. Presença é olho no olho. É pergunta que espera a resposta. É ficar quando dá vontade de sumir. Ser o que não tivemos é a forma mais bonita de vingança contra a ausência.
Você não precisa perdoar para ter paz.
Perdão é um caminho, não uma obrigação. Sua tarefa é não se abandonar também. É não repetir com você a frieza que recebeu. É construir, aos poucos, um lugar seguro dentro de si.
Para quem lê isso com um nó na garganta: você não está só. Somos milhões. Uma multidão de gente que aprendeu a se inventar. Que transformou falta em força, silêncio em texto, dor em abrigo.
Seu valor nunca esteve na mão de quem foi embora. Está na mão de quem ficou. E você ficou. Você insistiu em florescer com raiz exposta. Isso é coragem do tamanho do mundo.
Então hoje, se doer, lembra: a gente é casa. A gente se tornou lar. E nessa casa, você tem lugar. Sempre teve.
Aqui, ninguém mais vai embora sem se explicar. Aqui, a gente se abraça. E a gente fica.
Anna Marchesini é Educadora,Palestrante

