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14-06-2026 às 09h20
Rogério Reis Devisate*
Quantas vezes temos dito que não nos afogamos, mas morremos na praia? Por qual motivo nos superou a China, se há cerca de 50 anos o nosso país tinha melhores condições? Onde eles acertaram e onde nós erramos?
Parece que eles perceberam que a ideologia comunista não estava dando certo – como não deu na União Soviética – e que os governantes teriam que fazer algo para se salvar. Enquanto isso ocorria lá, aqui passamos a repetir ladainhas nas quais nem aqueles comunistas acreditavam mais.
Temos agido como torcedores de futebol. Parecemos acreditar que basta torcer para o time ganhar e cair em negação quando dá errado, culpando o juiz ou acusando o outro time. Não percebemos que, com isso, não reconhecemos os nossos erros e, sem isso, não melhoramos. Perdemos foco, não fazemos o dever de casa, abandonamos as experiências vencedoras e passamos a pisar em terreno instável, tropeçando em corrupção atrás de corrupção e mais corrupção e impunidade atrás de impunidade, mal gerindo o dinheiro público e substituindo projetos viáveis pela adesão a slogans e propagandas ufanistas, com apatia por mudança real e positiva e propostas concretas.
Pose bonita na internet não enche prato de comida. Há um mundo de imagens e um outro real. Parece que estamos distraídos e iludidos ou que não nos importamos com o conjunto e nem temos mais amor próprio.
Não temos ligado quando somos enganados por promessas políticas não cumpridas. Já nos acostumamos com esse jogo e – sim – continuamos a não valorizar o voto e/ou a vende-lo em troca de nada. Acostumamo-nos com ruas esburacadas, esgoto a céu aberto, problemas com moradia, emprego, estrutura, corrupção, salário mínimo baixo, grande endividamento das famílias, aumento da dívida externa, imensa desvalorização do real, juros elevadíssimos e ensino precário. Sobre o ensino, particularmente, não se trata de culpar o docente ou o aluno, o frio ou a chuva. A questão envolve plano plurianual de investimentos, modernas tecnologias, estruturas convidativas para os alunos, transporte adequado nas imensas distâncias (nos campos e nas terras amazônicas, incluindo as populações ribeirinhas), alimentação nutritiva e mudanças de percepção. Para se ter uma ideia superficial do jogo que rola no tabuleiro global, na China os alunos ficam de 8 a 10 horas envolvidos nos estudos, diariamente, enquanto nos Estados Unidos ficam de 6-8 horas e no Brasil de 4 a 7 horas, o que evidencia diferenças importantes, mesmo que não discutamos as culturas, os métodos ou maiores detalhes.
Na China, que hoje é a maior economia do mundo, trabalha-se média de 9 a 12 horas por dia, sendo famosa a sua fórmula 996, com trabalho das 9h às 21h, 6 dias por semana (o que resulta em 72 horas por semana). Enquanto isso, aqui pretendem adotar os 5 dias por semana com jornada de 8 horas (o que dá 40 horas semanais). Em resumo, eles estarão trabalhando quase o dobro do tempo, o que, em poucos anos, acentuará as diferenças econômicas entre os dois países. Qual a consequência disso para o PIB, para os investimentos em favor da população e para o bolso das famílias? De modo simplório e numa metáfora, é possível que eles venham a ser os donos das lojas e indústrias e (talvez) contratem os brasileiros com salários baixos. Quem sai ganhando e quem sai perdendo? Qual povo e qual país sairá estará melhor? Talvez estejamos usando o binóculo do lado errado.
Pode ser que estejamos adotando projetos alheios como se fossem vantajosos para nós. Já sofremos isso com Portugal e com a Inglaterra, que nos exploraram e, sem muitos detalhes, por fugirem ao limitado espaço deste artigo, o nosso ouro foi levado embora, assim como as pedras preciosas, podendo-se dizer o mesmo do ferro e de outros minerais, que costumamos vender in natura. O negócio do ferro começou com Percival Facquar, que obteve concessão para exploração (leia-se exportação) no imenso Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais, no “pequeno” negócio iniciado há cerca de cem anos, envolvendo 4 milhões de toneladas de ferro, anuais, com exportação por seus próprios navios, etc. Anos depois, em 1942, a sua empresa foi absorvida pelo governo, através da (então) recém criada Companhia Vale do Rio Doce… E tudo hoje está privatizado…
Como dizia um antigo famoso bordão na televisão, “brasileiro é tão bonzinho”, pois parecemos empáticos para os outros, esperando que sejam bonzinhos conosco, criamos dificuldades para nós mesmos e não avançando porque não queremos, afinal, porque levamos 36 anos para concluir a ferrovia Norte-Sul, enquanto a Ferrovia Transnordestina já tem 20 anos sem estar pronta, com investimentos estimados de 4 bilhões (bilhões!) de dólares, embora já tenha custado 8 bilhões de dólares e se estime que ainda consumirá mais 7 bilhões de dólares? Ou seja, em dólares, o seu custo partiu de 4 bilhões para 15 bilhões, o que dá uns 75 bilhões de reais! Fora isso, quanto o país deixou de ganhar nesses anos, quanto a economia poderia estar incentivada pelo fomento das cadeias produtivas regionais, quantos bons empregos poderiam ter sido criados e quantas famílias estariam em melhores condições?
Alguns defendem nomes e ideias acima de qualquer lógica ou prova, enquanto outros só torcem como se estivessem nos estádios. No meio disso o país segue, navegando em meio à neblina, desejando que dê certo o que tem tudo para dar errado. Precisamos aumentar a produção e a produtividade e isto é sistêmico: mais investimentos, melhor giro da economia, mais e melhores empregos, melhores condições de vida. Ocorre que parecemos estar fazendo o oposto, há muito tempo. Por exemplo, no lugar de incentivar o aumento real da renda das famílias, os nossos índices já consideram classe média quem tenha renda domiciliar a partir de R$ 2.525,00, somando a renda de todos os membros da família. Ora, o salário mínimo está em R$ 1.621,00 e, portanto, essa conta não fecha, principalmente quando o custoda cesta básica subiu em 27 capitais e está em R$ 906,14, em São Paulo (CNNMoney, 11.5.2026). Portanto, já seria da classe média a “família” que ganhasse R$ 2.525,00 e gastasse R$ 906,14 só para comprar alimentos?
Noutra ponta do novelo, o nosso parque industrial vem retrocedendo, no que se define como desindustrialização, enquanto o Paraguai vai prosperando e recebendo bem algumas das nossas empresas, como a JBS, Karsten e a Lupo.
O título deste artigo, ao falar em inanição política, faz um paralelo com a desnutrição do corpo humano, causadora de vários problemas de saúde, como o retardo no desenvolvimento e cansaço, irritabilidade e depressão. A forma de combate envolve a reintrodução gradual de nutrientes e energia para o corpo. Do mesmo modo, para vencer a inanição política, precisamos superar a apatia e o cansaço com o que temos vivenciado e incentivar a participação política, a cidadania, o amor à pátria e aos seus símbolos, o voluntariado, a dedicação ao trabalho e ao estudo e o interesse no desenvolvimento do país e na vida nacional, na nossa cultura e história, na nossa gente. Precisamos ver e ter um futuro acolhedor e promissor e, para isso, necessitamos de razões para ter confiança – e não só esperança – e incentivos e respeito e razões para sorrir para o que viveremos.

