Créditos: Divulgação
14-06-2026 às 14h31
Giovana Devisate*
Não conheço uma pessoa que visitou Barcelona e não amou. O lugar me lembra o
Rio: não existe opção que não seja amar, é impossível sair de lá indiferente. Barcelona tem
praia, é jovial, é divertida e se tornou uma das minhas cidades favoritas entre as que já tive
oportunidade de visitar fora do Brasil. Voltaria amanhã, se pudesse.
Além das inúmeras qualidades, Barcelona esteve no centro do desenvolvimento do
modernismo catalão, o que transformou a cidade em um verdadeiro parque de diversões, ou
museu a céu aberto, para quem se interessa por arte, história, arquitetura e temas afins.
O modernismo catalão foi um movimento artístico e cultural, muito associado ao art
nouveau, que surgiu na Catalunha entre 1880 e 1930. Ele uniu arquitetura, design e literatura
e era inspirado nas linhas orgânicas da natureza, tendo como característica a utilização de
técnicas e materiais como mosaicos e metais.
Barcelona, hoje, se destaca por estar cheia de obras de um dos mais relevantes nomes
desse movimento. Antoni Gaudí foi um arquiteto que revolucionou a percepção que temos
sobre a relação da arquitetura com a natureza, a religião, entre outras coisas.
Depois de muitos anos sob influência do estilo neogótico e de técnicas orientais,
Gaudí passou a fazer parte do modernismo catalão e ultrapassou todos os limites
estabelecidos até então. Assim como Tarsila, quando pensamos no modernismo brasileiro,
Gaudí também transcendeu o próprio movimento, criando algo diferente e desenvolvendo
uma identidade só dele, com um estilo orgânico que tinha como inspiração a natureza.
Gaudí se interessava profundamente pelas formas curvilíneas, inspiradas nos desenhos
que a própria natureza oferece. Ele dizia, inclusive, que as linhas retas não eram naturais.
Meu pai costuma dizer algo parecido: que a linha reta é uma invenção humana e que o natural
é que existam curvas pelo caminho.
Me lembro de quando estive em Barcelona! Foi de uma emoção sem fim estar na
cidade e visitar as construções de Gaudí. Fui ao Parque Güell, com os seus jardins integrados
a estruturas arquitetônicas cobertas por mosaicos coloridos; visitei a singular Casa Milà, com
a sua fachada ondulada e seu terraço de chaminés esculturais; entrei na Casa Batlló, com o
seu telhado escamoso, como o de um dragão; visitei a Casa Vicens, com os seus tetos
ornamentais e suas referências orientais mescladas com a tradicional arquitetura espanhola.
Outra importante obra do arquiteto foi a Sagrada Família. A Basílica, na época em
que estive em Barcelona, ainda não havia sido concluída. Ela foi projetada por Gaudí em
1883 e só ficou realmente pronta neste ano de 2026, pouco mais de 140 anos depois. Gaudí,
que nasceu em 25 de Junho de 1852 e faleceu em 10 de Junho de 1926, aos 73 anos, não teve
a chance de vê-la finalizada, com todas as torres de pé.
Um acontecimento para a arquitetura, no entanto, ocorreu no dia 10 de Junho de 2026,
última quarta, quando a basílica foi oficialmente inaugurada, após ser finalizada em
Fevereiro, em um evento que marca não só esse longo tempo de construção, mas também os
100 anos da morte do arquiteto. Na ocasião, uma missa foi celebrada pelo Papa Leão XIV.
Ao longo desses anos de construção, depois da morte de Gaudí, os seus sucessores
continuaram interpretando plantas, modelos de gesso e geometrias orgânicas que o arquiteto
planejou a partir da premissa que guiava o seu trabalho, de que visualizar um espaço é
imprescindível antes de começar a construí-lo.
A Basílica funcionava recebendo visitantes, sendo o lar de muitas missas e depósito
de muita fé, mesmo estando em obras. Tive a chance de visitá-la, em 2019. Fiz o tour que
permite subir às torres e tudo é incrível! A parte interna tem vitrais que, lá de dentro, nos
fazem imaginar receber diretamente as luzes do sol em nossos corações. É muito lindo.
Esse tempo de finalização, tão demorado, me faz pensar que as coisas boas realmente
levam tempo para acontecer. Colocar a complexidade desse projeto do Gaudí de pé, com a
tecnologia do início do século XX, deve ter sido muito difícil. A execução do projeto, no
entanto, provavelmente foi ficando menos complicada, ao ponto que o tempo avançava e
novas maneiras de obter resultados difíceis se apresentavam.
Me lembrei de um poema do Ricardo Reis, um dos heterônimos mais famosos de
Fernando Pessoa, que dizia que “para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui”.
Penso que é colocando tijolo sobre tijolo, pedra sobre pedra, que se constrói uma basílica de
172 metros de altura, a igreja mais alta do mundo. É com calma que se organizam formas de
se obter os resultados desejados. É respeitando a história que se mantém a identidade, que se
contempla a ideia, que se preserva a mensagem.
O que vimos nessa semana foi um fato único, que marcará a história da arquitetura,
assim como tudo o que Gaudí fez. Finalmente, é tempo de colheita, depois de mais de 140
anos. Fico feliz com o resultado, que honra o arquiteto e a sua genialidade criativa. Agora,
desejo voltar a Barcelona para ver a Basílica sem todos os andaimes.

